segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Aves de arribação – Antônio Sale




Capítulo 1

“Ele pratica em seu eu a mutilação da consciência, …”
“…, manchas de ricos são enfeites, …”

Capítulo 2

“… fora daquelas tristes paredes onde enjaulavam a sua jovem carne dolorosa.”

Capítulo 3

“Isso de começar em meio modesto para transportar-se depois aos grandes centros era um processo bom para os timoratos e medíocres. As águias começam a voar do alto das montanhas.”
“– Tinha graça se eu fosse enrabichar-me por aquela matutinha! É chic o diabinho! Boa pele, lindos olhos, bons dentes e uma boca! Corpo delicioso! Um bocado de rei, caramba! E nada estúpida; com alguns meses de regime mundano dava uma mulherzinha muito apresentável. Acerca de dinheiro e família, temos conversado. Excelente para encher os ócios de um exilado; mas quanto a casamento, livra! Fora a pieguice! Preciso de mulher que tenha chelpa e pai alcaide. Casamento de amor já não se usa. O idiota que cair ali terá que, mais dias menos dias, aguentar com o peso daquele exército de crianças de nomes arrevesados. Isso de casar com matutas é bom para o pobre do Gomes da Costa, que tem os pulmões tão fracos como o espírito. O pobre-diabo só fala em bois, veste calça branca com fraque preto e está perdendo as noções do alfabeto. E olhem que deixou um nome na Faculdade! Enfim, como a mulher é rica e ele tísico(…)”

Capítulo 5

“Nada existia de comum entre os dois senão essa sentimentalidade artificial que nasce de enxerto no espírito e só produz flores híbridas, incapazes de simbolizar o afeto humano em sua formosa simplicidade. Eram dois atores …, em plena vida real, no cenário … de um passatempo sem consequência.”

Capítulo 7

“Os homens engraçados nunca são muito felizes em amores porque sua índole brincalhona prejudica as afeições profundas. Às vezes mais ganha quem faz chorar do que quem faz rir.”

Capítulo 8

“O – amo-te – requer a afonia ciciante dos segredos, devendo a distância da boca ou ouvido ser tão curta que as palavras parecem suspiros articulados.”
“… na sua admiração pelos fortes, precocemente procurou tornar-se invulnerável às pieguices da vida.”
“-… O ser tem três pavimentos – cabeça, coração e carne. – A arte de ser forte consiste em tornar interdito o pavimento médio e transformar os seus habitantes – os sentimentos – em puras entidades cerebrais, como as ideias, as ambições, os raciocínios. O pavimento inferior é, por sua natureza, o mais exposto às influências da baixa camada da vida, camada que é feita de animalidades. Vocês, sentimentais, não se governam absolutamente pela cabeça: fazem da poesia e do instinto um misto a que dão o nome de amor, com exclusão da pura função genésica, sem ilusão, sem compaixão, sem responsabilidade moral. Nós outros, os cerebrais, damos ao coração a mínima importância possível e repelimos toda a identificação dele com o instinto que governamos à vontade como animais inteligentes que somos. Napoleão, por ser um general de gênio, nunca deixou de ser um homem, mas nem por isso mulher alguma conseguiu atrapalhar a sua carreira, como aconteceu com Marco Antônio.
– Então … a mulher é um instrumento de prazer.
– Não, é um animal como o homem: o nosso comércio é uma troca de sensações; nenhum fica a dever nada um ao outro por isso. Se ela é fraca, nós não temos nada com isso; faça-se forte, torne-se nossa igual, mas não nos venha entibiar o ânimo com a sua perniciosa sentimentalidade.”

Capítulo 9

“Egoísmo, ceticismo e audácia, tais são os três ângulos sobre os quais a inteligência se levanta para apoderar-se da massa fetichista da turba ignara.”
“Estava com uma como saudade de seus olhos cândidos, de seu rostozinho rosado, infantil ainda, e onde seria divinamente grato colher um beijo, sem malícia, naturalmente, como se colhe de passagem o fruto de uma planta criada por Deus para regalo dos homens. Por que haviam estes de torturar a si mesmos, arquitetando essa moral opressora e mesquinha, tão contrária aos instintos, tão incompatível com as leis naturais que regem a missão natural da espécie?”
“Em substância um amante amado é mais legítimo do que um marido que se tolera para ter uma posição respeitável na sociedade.”
“Nessa noite foi para a casa de Bilinha numa excitação que reclamava sensações fortes, expansões brutais e implacáveis.”

Capítulo 10

“Que diabo! há tanto meio de gozar sem responsabilidades e sem consequências!”

Capítulo 12

“A imaginação de Florzinha voava penosamente, produzindo uma dor em cada surto das asas que uma farsa fizera sangrar.”
Capítulo 13
“… como se um corpo em fúria de amor palpitasse insaciado por baixo daquela túnica translúcida.”
Capítulo 15
“O que nós precisávamos era de um ditador inteligente por dez anos.”

Capítulo 17

“… evitando descer ao âmago do sentimento, onde a dor latente latejava, pronta a sangrar ao primeiro contato da realidade.”
“Os seus soluços valiam por juramentos de um pacto de vida e morte, contra o qual nada pode uma vontade estranha.”

Capítulo 18


“Para o nosso egoísmo, a dor própria é a única que nos interessa, e, fora dela, todas as outras se amesquinham, se diluem, tornando-nos surdos aos reclamos da solidariedade humana. Mendigo não dá esmola a mendigo.”
“Há sempre no homem uma persistência sensível dos traços morais da infância; na mulher, porém, esses traços, como as folhas iniciais das plantas cotiledôneas, nada deixam antever do que será a individualidade futura, e mesmo os progenitores e pessoas íntimas experimentam grandes surpresas verificando a profunda transformação moral por que passa uma menina que se faz mulher.”
“… expondo-a sem véu aos olhos sem venda.”
“…leira arroteada, tépida e úmida, sucessivamente aquecida pelo sol da esperança e rorejada das lágrimas condensadas no cérebro, como vapores que subissem da efervescência do sangue.”
“A princípio lhe era indiferente e até preferível que ele não voltasse; mas agora o seu amor próprio, a sua carne desejavam o contrário.”
“O coração das virgens morre sem testamento, porque morrem com ele todos os seus dons e graças.”
“E ela ficara ali, no fundo daquele triste lar povoado dos espectros dos seus sonhos, para ser um dia conduzida, mutilada d’alma, inútil para a vida, à cela fria de um claustro como uma inválida do amor…”