quinta-feira, 27 de março de 2014




"Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de idade. Está com quarenta, quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde está a sua babá fazendo tricô. Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco e a babá.
Tem uma vaga lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é o tempo. Como eu era inocente. Como meus olhos eram limpos. O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás. O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos anos, como eu vou ser sentimental!" (VERÍSSIMO, Luís Fernando. História estranha. In: Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004, p. 17).

terça-feira, 25 de março de 2014

“Há frases assim felizes. Nascem modestamente,  como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo, à semelhança das idéias. As próprias idéias nem sempre conservam o nome do pai; 
muitas aparecem órfãs, nascidas de nada e de ninguém.  Cada um pega delas, verte-as como pode, e vai levá-las à feira, onde todos as têm por suas" (ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: edições de Ouro.(biografia , introdução e  notas de M. Cavalcanti Proença).

sábado, 15 de março de 2014




A natureza ri da cultura - Milton Hatoum

Para Benedito Nunes 

"Naquela época me pareceu um texto enigmático, mas a leitora de 1959 não é a leitora desta noite. Hoje, ao relê-lo tantas vezes, soa como um manifesto poético de um narrador-personagem que abandona um país europeu para morar numa região equatorial. com o passar do tempo, o personagem percebe, apreensivo, que o estigma de ser estrangeiro já menos visível: algo no seu comportamento ou na sua voz se turvou, perdeu um pouco do relevo original. Nesse momento, as origens do estrangeiro sofreu um abalo. A viagem permite a convivência com o outro, e aí reside a confusão, a fusão de origens, perda de alguma coisa, surgimento de um outro olhar. Viajar, pergunta o personagem de Delatour, não é canibalismo?Todo viajante, mesmo o mais esclarecido, corre o risco de julgar o outro. Consciente ou não, intencional ou superficial, tal julgamento quase sempre deforma o rosto alheio, e esse rosto deformado espelha os horrores do estrangeiro. Nesse convívio com o estranho, o narrador privilegia o olhar: o desejo de possuir e de ser possuído, a entrega e a rejeição, o temor de se perder no outro" HATOUM, Milton. "A natureza ri da cultura". In: A cidade Ilhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 95-103.