sábado, 15 de março de 2014




A natureza ri da cultura - Milton Hatoum

Para Benedito Nunes 

"Naquela época me pareceu um texto enigmático, mas a leitora de 1959 não é a leitora desta noite. Hoje, ao relê-lo tantas vezes, soa como um manifesto poético de um narrador-personagem que abandona um país europeu para morar numa região equatorial. com o passar do tempo, o personagem percebe, apreensivo, que o estigma de ser estrangeiro já menos visível: algo no seu comportamento ou na sua voz se turvou, perdeu um pouco do relevo original. Nesse momento, as origens do estrangeiro sofreu um abalo. A viagem permite a convivência com o outro, e aí reside a confusão, a fusão de origens, perda de alguma coisa, surgimento de um outro olhar. Viajar, pergunta o personagem de Delatour, não é canibalismo?Todo viajante, mesmo o mais esclarecido, corre o risco de julgar o outro. Consciente ou não, intencional ou superficial, tal julgamento quase sempre deforma o rosto alheio, e esse rosto deformado espelha os horrores do estrangeiro. Nesse convívio com o estranho, o narrador privilegia o olhar: o desejo de possuir e de ser possuído, a entrega e a rejeição, o temor de se perder no outro" HATOUM, Milton. "A natureza ri da cultura". In: A cidade Ilhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 95-103.

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