sexta-feira, 19 de setembro de 2014





A literatura negra é um imaginário que se forma, articula e transforma no curso do tempo. Não surge de um momento para outro, nem é autônoma desde o primeiro instante. Sua história está assinalada por autores, obras, temas, invenções literárias. É um imaginário que se articula aqui e ali, conforme o diálogo de autores, obras, temas e invenções literárias. É um movimento, um devir, no sentido de que se forma e transforma. Aos poucos, por dentro e por fora da literatura brasileira, surge a literatura negra, como um todo com perfil próprio, um sistema significativo (IANNI, 1988, p. 11). IANNI, Octavio. Literatura e consciência. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. Edição Comemorativa do Centenário da Abolição da Escravatura. N. 28. São Paulo: USP, 1988.   

“A literatura atua em determinados momentos históricos no sentido da união da comunidade em torno de seus mitos fundadores, de seu imaginário ou de sua ideologia, tendendo a uma homogeneização discursiva, à fabricação de uma palavra exclusiva, ou seja, aquela que pratica uma ocultação sistemática do outro, ou uma representação inventada do outro. No caso da Literatura Brasileira, este outro é o negro cuja representação é frequentemente ocultada, ou o índio cuja representação é, via de regra, inventada” (BERND, 1992, p. 21). BERND, Zilá. Literatura e identidade nacional. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1992.

Quem Morre?



Martha Medeiros

Morre lentamente Quem não viaja, Quem não lê, Quem não ouve música, Quem não encontra graça em si mesmo Morre lentamente Quem destrói seu amor próprio, Quem não se deixa ajudar. Morre lentamente Quem se transforma em escravo do hábito Repetindo todos os dias os mesmos trajeto, Quem não muda de marca, Não se arrisca a vestir uma nova cor ou Não conversa com quem não conhece. Morre lentamente Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções, Justamente as que resgatam o brilho dos Olhos e os corações aos tropeços. Morre lentamente Quem não vira a mesa quando está infeliz Com o seu trabalho, ou amor, Quem não arrisca o certo pelo incerto Para ir atrás de um sonho, Quem não se permite, pelo menos uma vez na vida, Fugir dos conselhos sensatos... Viva hoje ! Arrisque hoje ! Faça hoje ! Não se deixe morrer lentamente ! Não esqueça de ser feliz.


“É preciso não aceitar o não-lugar da África em um país como o nosso” (Laura Padilha, 2007, p. 13).
“A questão é que nós continuamos a pensar a África a partir do olhar da ex-metrópole. Estudar a África pelo prisma do ex-colonizador é um crime intelectual” (Inocência Mata, 2009, p. 6).

Palestra



Publicado em 22 Maio 2014

A conferência de abertura do evento promovido pelo Programa Nossa África, intitulada ‘A influência do modernismo brasileiro na construção da identidade literária dos países africanos de língua portuguesa’, foi proferida pelo professor José Benedito dos Santos. O palestrante destacou as influências modernistas, especialmente de autores como Jorge Amado, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Rachel de Queiroz na formação da elite intelectual de diversos países africanos de língua portuguesa.
O destaque foi para Cabo Verde, Angola, e Moçambique. Um exemplo citado pelo professor foi José Luandino Vieira, que publicou o livro de contos Luuanda. O autor chegou a enviar textos para apreciação de Jorge Amado, tal era a influência do escritor baiano em sua obra. Ernesto Lara Filho, outro escritor angolano, dizia-se capaz de “sentir” o Brasil. “Nas décadas de 1950, 1960 e 1970, obras dos escritores modernistas brasileiros entraram na imaginação coletiva dos letrados africanos”, pontuou o palestrante. “São Tomé e Príncipe é outro exemplo de literatura poderosa”, acrescentou ele, cujo destaque é Alda do Espírito Santo, dona de uma obra de enfrentamento social. Ela é autora do livro 1973, intitulado ‘É nosso o solo sagrado: poesia de protesto e luta. Disponível em:http://portal.ufam.edu.br/index.php/2013-04-29-19-37-05/noticia/2403-nossa-africa-encerra-primeiro-dia-com-palestras-sobre-literatura-e-etnobiologia.







"As literaturas africanas contemporâneas escritas em língua portuguesa, em particular a ficção de Mia Couto, ressuscitaram o herói cultural como modelo, ao mergulharem nas raízes lendárias e heroicas das nacionalidades após a descolonização do continente africano" (SANTOS, 1014, p. 1). "A construção do herói cultural em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto". In: Simpósio Nacional do Gepelip: Interculturalidade nas Literaturas de Língua Portuguesa, Jun/2014. Universidade Federal do Amazonas - UFAM.

Mia Couto

"A escrita não é uma função nem uma missão. Escrevo para ser feliz. A poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner contava histórias para que seus filhos doentes adormecessem. Escrevo para adormecer o mundo que me parece doente. E assim invento histórias". Mia Couto.

Palestra - A PRESENÇA DA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA ATRAVÉS DOS TEXTO



Desde muito cedo na história da literatura brasileira, a figura do negro foi vítima de um verdadeiro apagamento, pois a pouca referência a sua existência fixou-se apenas na sua condição de cativo. Na literatura que era aqui produzida, ainda no período colonial, e que foi escolhida pelos críticos como oficial, o negro, ativo participante do processo de formação do povo brasileiro, permaneceu por muito tempo esquecido, ou melhor, relegado à condição de um simples objeto da crueldade e da tortura de seus opressores (CAPUANO, 2008, p. 1).

FICÇÃO vs. REALIDADE

 

By JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

O que é fato e o que é invenção? Há três anos, o escritor Milton Hatoum deu conferência magistral sobre a fronteira porosa entre ficção e realidade na abertura do V Encontro de Letras e Artes em Campos dos Goytacazes (RJ), cujo tema era territórios da memória. Tive a sorte de ouvi-lo, porque os organizadores também me convidaram para falar sobre a história da língua esua relação com a identidade. Fomos juntos. No caminho, na estrada, relembramos fatos vividos desde 1981, quando nós dois, amazonenses, nos conhecemos – incrível! – em Paris, num jantar na casa do escritor peruano Julio Ramón Ribeyro.
Mas a história inacreditável que Milton Hatoum narrou para um auditório lotado que se deslumbrou, essa eu não conhecia. Foi assim. Quando ele era professor na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em 1984, foi procurado pelo conhecido jornalista inglês, Bob Misleading, da BBC, que preparava reportagem sobre o cientista britânico Joseph Oversea, assassinado por um índio, em meados do século XIX, nos arredores de Manaus. Milton conhecia muito bem relatos de vários naturalistas que viajaram pela Amazônia, mas nunca ouvira falar naquele nome:
- Joseph Ovearsea? I don't know.
Bob explicou que o cientista era desconhecido porque era gay e viveu em plena era vitoriana. Por isso, foi censurado pelo puritanismo dominante e condenado ao anonimato. A rainha Vitória, nos 64 anos de seu reinado, manteve-o no ostracismo, apagou-o dos arquivos e até proibiu a publicação do seu livro, onde havia um desenho a bico de pena que retratava uma cachoeira em Manaus.
- Quero localizar esta cachoeira, que é o túmulo do Oversea, morto, em 1850, com uma flechada que lhe perfurou o coração, atirada por um índio Passé – disse Bob, exibindo para Milton a gravura dentro do livro. Acrescentou que a reportagem que preparava para a BBC era a forma de tornar conhecido o injustiçado cientista.
A cachoeira
Não foi tarefa fácil. Hatoum conhece bem Manaus, mas a cidade mudou muito depois de século e meio de história. De lá pra cá, igarapés foram aterrados, rios morreram e viraram esgoto, ruas ocuparam o lugar da floresta, carros substituíram canoas. O escritor convidou o jornalista a percorrer os bairros em busca de cachoeiras. Passaram pela Cachoeirinha na terceira ponte, visitaram o Tarumã, o Mindu, as Pedreiras, observando tudo, até que na subida do bairro de São Jorge, se detiveram na Cachoeira Grande, que serviu ao primeiro sistema de captação de água de Manaus.
- Foi aqui – gritou Hatoum, animado.
O jornalista Bob Misleading confirmou, depois de comparar a paisagem que via com a gravura antiga. Fez, então, ali mesmo, várias tomadas para a BBC: shots, takes and the devil at four. À noite, jantaram uma costela de tambaqui no Canto da Peixada. O gringo, que era chegado numa cachaça, emborcou dez caipirinhas. Chegou no hotel catando cavaco. No dia seguinte, voltou pra Londres, Milton foi dar aulas na Universidade e os dois não se falaram mais.
Cinco anos depois, Milton Hatoum decidiu fazer uma biografia do naturalista assassinado. Entrou em contato com uma amiga que morava em Washington, pedindo que buscasse dados sobre Joseph Ovearsea na Biblioteca do Congresso, que tem tudo o que foi publicado no planeta terra. No entanto, no acervo com 160 milhões de títulos, entre os quais 40 milhões de livros catalogados e 70 milhões de manuscritos em mais de 500 idiomas, nada havia sobre o mencionado cientista. Nem uma vírgula. A férrea censura vitoriana tinha sido eficaz.
Intrigado, Hatoum viajou a Londres e procurou o jornalista no endereço da BBC, em Portland Place, mas Bob havia sido demitido. Uma secretária chamada Scarlett forneceu o telefone da Bloomberg TV, onde ele agora fazia uns bicos. Marcaram um encontro num pub em Portobello Road, no bairro Notting Hill. Lá, numa taverna hash house, que é o nosso popular dirty foot, Milton falou de seu projeto literário e perguntou onde podia consultar documentos relativos a Oversea. A resposta foi uma gargalhada de Bob, que continuava cachaceiro e já estava na décima dose de dry gim:
- Milton, eu não te falei? Joseph Oversea foi uma invenção minha, eu criei o personagem e a história.
- E a imagem da cachoeira?
- Ah, essa foi uma gravura que retirei do livro A narrative of travels of the Amazon and Rio Negro do botânico Alfred Russel Wallace.

Caboco Suburucu

O auditório, hipnotizado, escutava Milton Hatoum, que discorreu sobre a ambiguidade entre o real e o ficcional sempre presente na literatura. Comentou que um texto ficcional não é um relato factual do que aconteceu, mas aquilo que poderia ter acontecido, que explode na consciência e na memória do escritor e toma forma de discurso. Concluiu sua conferência com frase de impacto:
- Oversea não existia, mas passou a existir depois que Bob o inventou e existe agora, para vocês, neste momento em que acabo de contar sua história.
O público aplaudiu efusivamente o conferencista, grato pelo sopro que deu vida a Oversea. Fiquei tão maravilhado, achei tão engenhosa a forma de expor a questão que sai repetindo a história em minhas aulas, nas rodas de conversa e nos mares da vida. Um mês depois, viajo a Brasília e encontro lá Thiago de Mello, para quem faço um resumo da conferência, ainda embriagado de entusiasmo. O poeta me ouve com um sorriso moleque e quando termino diz:
- O Milton já tinha me contado. Mas ele não te falou que esse jornalista da BBC também não existe? Nunca existiu, nem o cientista, nem o jornalista. Ambos são personagens do Milton Hatoum, essa história nunca aconteceu, é tudo invenção do escritor.
Fiquei mais maravilhado ainda com esse final e o incorporei à narrativa que costumo fazer em sala de aula. Numa das vezes, uma aluna me perguntou:
- Professor, e o Thiago de Mello? Ele existe mesmo?
Com o espírito do Milton Hatoum, respondi que se o Thiago de carne e osso existe, eu não sei e também não importa. Sei que ele é um personagem, uma invenção dos cabocos amazonenses e dos leitores espalhados pelo mundo, incluindo a própria aluna perguntadora, que conhecia "Os Estatutos do Homem" traduzido para mais de 30 idiomas. Thiago de Mello existe porque é lido com prazer e, agora, aos 88 anos, surge como candidato a uma vaga na Academia Brasileira de Letras que nunca abrigou um amazonense e, portanto, não será inteiramente brasileira, enquanto uma de suas cadeiras não for ocupada por um caboco suburucu popa de lancha, bandeira azul.
P.S. Como o tema se prestava para tal, preenchi com a imaginação as lacunas da memória sobre a conferência, que foi efetivamente dada em outubro de 2011, em Campos. Invoco o testemunho do próprio Milton e da professora de literatura brasileira da Universidade Federal Fluminense, Stefania Chiarelli, presente no carro na viagem para Campos e que também deu uma conferência sobre o seu livro Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum publicado em 2007. O referido é verdade e dou fé.
http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2014/08/24/o-poeta-thiago-de-mello-existe/