quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Chuva Branca (1968) Paulo Jacob (FRAGMENTOS)




"Dias sem nada em casa, na farinha com água. A meninada pedindo comer, o pessoal na fraqueza... chá, café às vezes, e beiju, fome. (p. 09); Hoje, nem café por desgraça. Pena mesmo é dos filhos, o mais jitinho, sugando o peito da mulher, descaído, seco. Ela se acabando, cada dia mais desvanecida, as carnes sumindo. Beiju de farinha dias e dias, chá de cipó-de-cravo, uma coisinha ou outra vasqueira. Vida desinfeliz essa de pobre, devia ter estômago mais encolhido que rico (p. 11). A mulher então, essa nem se fala. É aquele langanho de seca, boca chupada, feinha. Idade, aperturas. Quando moça até era bonita, cobiçada. (p. 20) O leite escasseando no peito, os bichinhos secando, perninhas mirradas igualmente a cipó. No caldo de peixe, foi mirrando, os olhos pulando da cara, a pele aquela brancura de carne de peixe. Um dia acabou-se só pele e osso (p. 49) (Paulo Jacob. Chuva Branca. 1968, p. 09, 11, 20 e 49).

"Tou desgraçado (p. 15); miserável de chuva branca, agora apertou. Devia de não cair agora. Começa na morosidade, o vento açoita, entra pelo dia, segue pela noite. Não tem outro jeito, é aguardar que passe... (p. 17) chuva branca não para de logo. Uma aporrinhação. Faz um estiozinho, alenta de novo. Fica na lenga-lenga parecido mulher. Em todo causo, o dia alegra, acorda a mata. Dá coragem, acaba esmorecimento" (p. 22) (JACOB, s/d, p. 15, 17 e 22).  

"Cala a boca, Luís Chato, o animal num repente cisma, cai mata a fora (p. 10). Mata engana muito, mas a direção a tirar é esta, de certeza. Depois das itaubeiras, a piquiarana ramalhuda, aceiro no varadouro. Dar com a mão de assim quase em cima da tiranabóia. Agarrada no pau, parecida com casca. Era triscar na bicha, fazer trato com a morte. Muita gente nem não acredita na maldade dela" (p. 52) (JACOB, s/d, p. 10 e 52).   

"Segue aqui, volta ali, passa no mesmo lugar: Puta merda! Deus te salve. Falam que é lembrança de alma, quer missa, salvação, quando se leva topada. (p. 33). Castigo, talvez. Lágrimas não vinha (p. 11). Com essa história, o dedão arrombado, a gente tem que chamar é nome, se esquece de Deus te salva. Sei lá se morreu pagão, quem mandou não se batizar. E eu é que vá pagar pelos pecados dos outros" (JACOB, s/d, p. 33 e 11). 

"Choro de árvore, uma tal de exsudação. Foi o que disse o americano pegador de borboleta. Pura tapeação, veio foi especular a terra dos outros. Tirar ouro, atrás de terra que dê gasolina. Querendo o que é da gente. Caboclo não tem ciência de cuidar, só os sabidos de lá, estrangeiro. Um homem que falou foi preso. O delegado meteu a borracha no pobre... depois desapareceu. Ouvi falar que mataram. Que não é proibido matar gente falador do país irmão"  (JACOB, s/d, p. 47).

"A terra é frestada e quente, esfumaça no sol. Aquela distância de lavrado, igual terreiro varrido, duro, escaldando. Terra firme é pobre. Nessa nesga de varge, coisinha melhor. Lavada nas grandes águas, fartura se vê no plantio (p. 08). [...] O rebaixo da terra, o mondrongo de barro, lombada de chão, a luz a perder-se nos socavões. Espinhaço das terras gerais. Galhos abraçados, raízes amigas, cipós disputando lugar. Mata cerrada, encurtando o de ver (p. 20). [...]. Terra seguida, outras afluentes cortando, desce um socavão, sobe outro. Chão fofo, folhas secas, raízes com vida, mortas, paus destiorados. A terra molhada, o fólico cobrindo, nos baixios então o aperreio é maior. Chão encharcado, o cheiro de lama subindo, aquela podridão miserável. Nesses lugares dá se aparecer sucuriju, coral, surucurana. Assim são as matas gerais. Amontoados de árvores enormes, as menores por baixo, espremidas, querendo viver, as outras furtando luz, tomando terreno, mandando longe as raízes, sorvendo água, comendo terra, catando o de melhor que pode ciscar. Ficam aí mirradas, as maiores cobrindo, crescendo lentas, das vezes nem crescem, morrem entanguidas mesmo" (p. 73) (JACOB, s/d, p. 08, 20 e 73). 

"Caboclo não tem ciência de cuidar, só os sabidos de lá, estrangeiro. Muita gente na cidade diz isso, caboclo safado, chamar americano de ladrão atrevimento... bem na memória, aquele arregaço de terra com o compadre Faustino. Metido a arengar com gente grande, o fim que levou. Perdeu o quinhão de terreno, perdeu tudo" (JACOB, s/d, p. 45). 

"Sabe bem é procurar gasolina, juntar ouro, diamante na cachoeira, isso sabe. Chamar homem sério, que se dá respeito, mentiroso. No atrevimento na terra dos outros, insultando os donos, pouca vergonha. De grande futuro, abandonada, riqueza jogada fora. Dizque devia de consentir os outros cuidar, lá eles de fora. O gringo falou que ninguém não faz nada" (JACOB, s/d, p. 53).

"Zé Pretinho também mariscava, menino entanguido, dois dentes faltando na frente, cara amargosa, empambado. Um dia o jacaré jogou o rabo no cedro, aparou o bichinho na boca. Lá se foi o companheiro.  Bubuiou o sangue, a água era vermelha.  A água era vermelha, cor de miséria, assim magino sempre" (JACOB, s/d, p. 07).

"Cada copaibeira, balata, sorva, dava um bom ganho. Tanto trabalho, no fim o ganho, um nada. O Salomão quer quase tudo de graça, a troco. Leva-se partida enorme de balata, sorva, copaíba, vigie só o que se traz. Uma garrafinha de querosene, meia barra de sabão, uns trocinhos mais. Compra na exploração, ainda furta no peso. A gente dá um duro, rompendo mata, fazendo força, o produto nas costas, lonjura de horas, no fim vê miséria" (JACOB, s/d, p. 53). 

"É sempre esse rio rolando, cheias e vazante.... A mesma vida desde menino. Manhã preguiçosa, um custo sereno a pingar, o reumatismo futucando os ossos. Dia passa imaginar que vem outro pior. O rio é uma constante e ele segue noutro que vem pior. Filhos por criar é que dá esperança de viver. No meu dizer, precisa paciência cabeça sentada. A afobação que deu o negócio, essa situação amaldiçoada" (JACOB, s/d).

"Domingo data santificada, tinha sobrosso caçar nesse dia (p. 12), [...] o ticoã cantou naqueles confins. Azar, vai agourar teu pai e tua mãe. É perder fé, bicho anunciador de desgraça. Castigo talvez. Botar o pé na igarité, no mato, ouvir pássaro, peixe não pega, caça não traz, (p. 15). [...] Nada disso, ficar panema com o canto dobrado da alma-de-gato (p. 15). Ali na altura do socavão, no pé da terra. Nessa situação, logo agora, esse estrepe de murumuru, um tanto assim enfiado no pé. Deixa ficar tiro depois, no gume da faca (p. 16). [...] Vou errar. O tiro falou. Errei mesmo. Perdi o boi, filha da mãe de sorte. Chorando, agora. Tarde demais (p. 17). A inambu-relógio piou quem sabe aonde.  Inverno, não tem que pensar, chuva é assim mesmo. Cai forte, vai afinando, ajusta o tamanho de cair, fica aí dia inteiro. Chuva Branca, essa então, é quem não tem fim. Morosa, sem hora marcada de estiar, (p. 19). Inambu-galinha, choro mais triste, mais frio. Pio das sete horas. Geme sem necessidade, não carecia (p. 21). Chuva branca não para logo. Uma aporrinhação. Faz um estiozinho, alenta de novo. Fica na lenga-lenga, parecido mulher" (p. 22). (JACOB, s/d, p. 12, 15, 16, 17, 19, 21 e 22).

"Culpo Mariana por essa panemice. Das vezes que quero, a desculpa é essa... Tomou chá de maria-mole, a modo arriar Naquela teima de sempre, não quer pegar filho pra ver passar fome. Lembra os dois que perdeu, já grandinhos... Mas devia ter dito do bode (p. 49). Cheguei a apalpar a filha do compadre Joca, lá no roçado. A menina riu, virou as costas, não reclamou. Se insistisse deixava. Cabocla quando dá risinho, se põe encabulada, dá na certa. A bichinha estava começando a crescer, peitinhos aguados ficando mulher. Por baixo criando fiapo. Que vale que nesse dia, Mariana deixou. Zangada ainda, nem ligava, servia de qualquer jeito" (JACB, s/d, p. 49 e 50).

"Só Deus e o Curupira sabem o caminho (p. 184). Terra seguida, chapadão, dá pouco esmorecimento. Um pau ou outro a passar por cima, ainda vai. O que fracateia mesmo é, socavão. Daqui lá uns dez, por aí assim. O do lacreiro, o da castanha-de-macaco, o da baixa grande... Examino a terra onde passo, ensino mateiro. Uma árvore mais alta, um pau mais grosso, caída, paririzal, bugi. Na cidade rua tem nome, casa tem número, e se calhar era capaz de me perder. Aqui, igarapé, afluente, posição do sol, lua, palhal, ou outro mato por onde se passa, é rumo. Pau tombado, também serve, marca certa paragem. (p. 41). Mata desse jeito, digo mesmo, nunca havia de conhecer pior. Cada despropósito de árvore de bem uns trinta metros. Essa aí, muito mais disso. Itaubeira, quariquara, madeira de lei tem a fartura, lugar muito proveito" (JACOB, s/d, p. 184, 41 e 174).

"A consumição maior é nem não saber da certeza das coisas. Febre... deliraçao.  Desesquecido dos aperreios, a mata rindo também, desgraça feliz (p. 243). A vista anuviando, a cabeça rodando, apagou-se o de ver. Desgraceira filha duma égua! Água água! Fome! fome! fo...me... Curupira! Curupira! Curupira! Do jeito do Mapinguari, aquele vulto discunforme, se botando alvoriçado... Me acaba logo bicho nojento, nunca não tinha visto coisa tão feia" (JACOB, s/d, p. 243 e  251).

"Principio de casado era chamego de levar a mulher no costado pro lago. Sentia como que cheirava a mata, manhã abrindo no centro, flor de igapó. Gostava até do molhado de suor lá dela, escorrendo na cara, pingando no corpo. Fazia empenho de sentir aquele molhado, gosto de carne de fêmea. Agora tem vez até que me desprego dela de mau propósito. Reclamo, vai te banhar, tirar esse pixé, só é mais pitiú de peixe. Mariana responde amuada, duns tempos pra cá desse disso de me achar assim. Aos poucos foi findando o agarrado, de viver só querendo, abraçado, cheirando a cabocla. Boto a maginar no tempo de nova, roliça, fornida, corpo muciço, olhos vivos. Baixando eles de envergonhada, quando se deparava comigo (p.183-4).
A mulher quase nua, com dois vestidos, calça não usa sei lá quanto tempo Quando saco de açúcar se comprava no barato, tinha umas delas. Faz vergonha a gente.  Naquele dia no roçado, desprevenida, compadre Juvenal na frente. Virou até a cara. Fiquei cm tanta raiva, só pensar que tinha visto o lá dela. Juvenal  foi decente, tirou os olhos de riba, sem querer ver. Fez que nem viu. Mas acho que viu. Mariana estava à vontade, pernas abertas. Se de onde estava, fui ver muito longe" (p. 183, 184 e 54).

" 
Madrugada de mata tem cheiro de lacre, breeiro, catleia, baunilha, raiz, outros de mais... Nasce dia naquela alegria, canto de pássaro, ar molhado de sereno, friozinho gotejando (p. 129). O sol descendo, varando o mato pedaços no chão. Alumia vagamente, bocadinho, apenas (p. 54). O leito enfeitado, branquejante, carreando flores de murta, jarana, matamatá, levando galhadas de acuquirana, anani, paqueira, tudo vai jogar na mãe-do-rio (p. 134). Desnorteado, chuva, doença, uma desgraça de azalação, na maior desinfelicidade" (p. 129, 54, 137 e 137). 

"Vem essa consumição, a dor de barriga aumentando. Que devia de ter pra despejar. Cu de pobre caga de teimoso. Bostinha miúda, mirrada, ressequida, igual de cabrito. Coisa distiorada alimenta a vida. O que dizem que não presta, serve também. Merdinha, não dava nada. Rico tem mais o que descomer. Muito mais ganho, come à vontade, caga o que quer (p. 23). Mosquitos entrando nos olhos, procurando remela. Varejeira é ai roncando no ouvido. Pium, não tem, nem maruim, Mutuca, tem algumas pro gasto. Morei num rio, esse sim, tinha de tudo. De noite os carapanãs, de dia era pium, borrachudo, maruim, mutuca. O inferno era melhor. Esperando o que se já acabei. Limpar com folha de pariri" (p. 23 e 25).

"A fêmea é manhosa. Se estiver deitada, espera o macho, no caso eu. Tenho o apito para arremedar. Estirada na cama não se levanta, dengosa como mulher. O homem que venha, faz-se bonita. Espicha a cabeça, espera. Olhar de cunhantã, toda enfeitada para homem. Deus que me perdoe, mas não pensei coisa feia por mal (p. 14). Chuva branca não para de logo. Uma aporrinhação. Faz um estiozinho, alenta de novo. Fica na lenga-lenga, parecido mulher" (p. 14 e 21).










"Maria Firmina dos Reis es, realmente, la primera novelista brasilenã. Porque si bien hay el antecedente de Teresa Margarida da Silva Orta, hermana de Matias Aires, autora famosa de las Aventuras de Diófones, libro publicado por primeira vez em Lisboa en 1752 com el seudónimo de Dorotea Eugrassia Tavareda Dalmira, bajo el modelo de las Aventuras de Telémaco tal y como sugiere su título esse libro no constituye materia especifica en cuanto a su autor se refiere, y outra parte, como bien señala Antonio de Oliveira, no es un libro de temas brasileños. Todo lo que se sabía de Maria Firmina dos Reis antes de los estúdios de estos dos investigadores marañenses se limitaba a una breve nota en el sexto volumen del Diccionario Bibliogáfico Brasileño, de Sacramento Blake" (MONTELLO, 1976). 




Evento 'Cem Anos de Jorge Amado' homenageará o escritor na UFAM
A atividade integra o Programa N-Linguagens, organizada pelo Núcleo de Pesquisas e extensão sobre Linguagens e Literaturas do DLLP da universidade

25 e 26/10/2012


Homenagem à Jorge Amado terá trabalhos resultantes de pesquisa acerca da produção literária do escritor

O centenário do escritor Jorge Amado será celebrado, em Manaus, com o evento ‘Cem Anos de Jorge Amado’, que acontecerá nos dias 25 e 26 de outubro, das 14h às 21h, no auditório Rio Solimões, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), localizada na Av. General Rodrigo Octávio Jordão Ramos, 3000, bairro Coroado I, Zona Leste de Manaus. A entrada é franca.
A atividade integra o Programa N-Linguagens, organizada pelo Núcleo de Pesquisas e extensão sobre Linguagens e Literaturas do DLLP da universidade. No evento, estudantes e professores do curso de Letras da UFAM apresentarão trabalhos resultantes de pesquisas acerca da produção literária de Jorge Amado.
Programação
O primeiro dia do evento (25) será voltado à pesquisa feita sobre a obra ‘O Romance Jubiabá’. Como conferencista, aparece o prof. Dr. Marcos Frederico Kruger. A mediação será feita pelo prof. Dr. Gabriel Arcanjo, da UFAM.
No mesmo dia, será apresentada a palestra ‘Os mitos africanos na ficção de Jorge Amado’. A palestra será conduzida pelo mestrando José Benedito dos Santos, da UFAM, cuja mediação será feita pela profa. Dra. Rita Barbosa de Oliveira, da mesma universidade.
Ainda no primeiro dia, haverá a apresentação cultural do Grupo de Capoeira Baiano. Os convidados são Mestre Ronaldo e Cia.
O segundo dia de seminário (26) terá a exibição do filme ‘Capitães de Areia’, seguida pela palestra ‘ Capitães de Areia, Cinematografia e Literatura’. O prof. Dr. Luiz Carlos Martins (UFAM), profa. Especialista Keyla Siqueira (UFAM) e a profa. MsC. Renata Rolon (UFAM) conduzirão a palestra.
Após, haverá a palestra sobre ‘A morte e a morte de Quincas Berro D’água’, que será facilitada pela profa. Dra. Rita Barbosa de Oliveira (UFAM).
Lançamento
A noite do segundo dia também será marcada, das 19h às 21h, pelo lançamento dos livros ‘Sophia/Poemas de mil faces transbordantes', da autoria de Rita Barbosa de Oliveira, e o livro ‘Poesia das Fontes’, da autoria de Carlos Antônio Magalhães Guedelha.

Disponível em: https://www.acritica.com/channels/entretenimento/news/evento-cem-anos-de-jorge-amado-homenageara-o-escritor-na-ufam. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016



"Um trabalho acadêmico, por mais que escrito na solidão de uma sala fechada, nunca é obra de uma só pessoa. Tudo que nos chega às mãos, sejam ideias, sejam simples notas colhidas ao acaso num arquivo empoeirado tem uma história prenhe de cultura, de trabalho e de luta de homens e mulheres anônimas que, como pequenos flashes, pulsam continuamente a nossa frente para que as recolhamos atribuindo-lhes vida com o sopro da escrita" (AGRADECIMENTOS. In: Maria Luiza Ugarte Pinheiro. A cidade sobre os ombros: Trabalho e conflito no Porto de Manaus (1899-1925). Manaus: EDUA, 2015.