"Tou
desgraçado (p. 15); miserável de chuva branca, agora apertou. Devia de não cair
agora. Começa na morosidade, o vento açoita, entra pelo dia, segue pela noite.
Não tem outro jeito, é aguardar que passe... (p. 17) chuva branca não para de
logo. Uma aporrinhação. Faz um estiozinho, alenta de novo. Fica na lenga-lenga
parecido mulher. Em todo causo, o dia alegra, acorda a mata. Dá coragem, acaba
esmorecimento" (p. 22) (JACOB, s/d, p. 15, 17 e 22).
"Cala
a boca, Luís Chato, o animal num repente cisma, cai mata a fora (p. 10). Mata
engana muito, mas a direção a tirar é esta, de certeza. Depois das itaubeiras,
a piquiarana ramalhuda, aceiro no varadouro. Dar com a mão de assim quase em
cima da tiranabóia. Agarrada no pau, parecida com casca. Era triscar na bicha,
fazer trato com a morte. Muita gente nem não acredita na maldade dela" (p. 52)
(JACOB, s/d, p. 10 e 52).
"Segue
aqui, volta ali, passa no mesmo lugar: Puta merda! Deus te salve. Falam que é
lembrança de alma, quer missa, salvação, quando se leva topada. (p. 33).
Castigo, talvez. Lágrimas não vinha (p. 11). Com essa história, o dedão
arrombado, a gente tem que chamar é nome, se esquece de Deus te salva. Sei lá
se morreu pagão, quem mandou não se batizar. E eu é que vá pagar pelos pecados
dos outros" (JACOB, s/d, p. 33 e 11).
"Choro de árvore, uma tal de exsudação. Foi o que
disse o americano pegador de borboleta. Pura tapeação, veio foi especular a
terra dos outros. Tirar ouro, atrás de terra que dê gasolina. Querendo o que é
da gente. Caboclo não tem ciência de cuidar, só os sabidos de lá, estrangeiro.
Um homem que falou foi preso. O delegado meteu a borracha no pobre... depois
desapareceu. Ouvi falar que mataram. Que não é proibido matar gente falador do
país irmão" (JACOB, s/d, p. 47).
"A
terra é frestada e quente, esfumaça no sol. Aquela distância de lavrado, igual
terreiro varrido, duro, escaldando. Terra firme é pobre. Nessa nesga de varge,
coisinha melhor. Lavada nas grandes águas, fartura se vê no plantio (p. 08).
[...] O rebaixo da terra, o mondrongo de barro, lombada de chão, a luz a
perder-se nos socavões. Espinhaço das terras gerais. Galhos abraçados, raízes amigas,
cipós disputando lugar. Mata cerrada, encurtando o de ver (p. 20). [...]. Terra
seguida, outras afluentes cortando, desce um socavão, sobe outro. Chão fofo,
folhas secas, raízes com vida, mortas, paus destiorados. A terra molhada, o
fólico cobrindo, nos baixios então o aperreio é maior. Chão encharcado, o
cheiro de lama subindo, aquela podridão miserável. Nesses lugares dá se
aparecer sucuriju, coral, surucurana. Assim são as matas gerais. Amontoados de
árvores enormes, as menores por baixo, espremidas, querendo viver, as outras
furtando luz, tomando terreno, mandando longe as raízes, sorvendo água, comendo
terra, catando o de melhor que pode ciscar. Ficam aí mirradas, as maiores
cobrindo, crescendo lentas, das vezes nem crescem, morrem entanguidas mesmo" (p.
73) (JACOB, s/d, p. 08, 20 e 73).
"Caboclo
não tem ciência de cuidar, só os sabidos de lá, estrangeiro. Muita gente na
cidade diz isso, caboclo safado, chamar americano de ladrão atrevimento... bem
na memória, aquele arregaço de terra com o compadre Faustino. Metido a arengar
com gente grande, o fim que levou. Perdeu o quinhão de terreno, perdeu tudo" (JACOB,
s/d, p. 45).
"Sabe
bem é procurar gasolina, juntar ouro, diamante na cachoeira, isso sabe. Chamar
homem sério, que se dá respeito, mentiroso. No atrevimento na terra dos outros,
insultando os donos, pouca vergonha. De grande futuro, abandonada, riqueza
jogada fora. Dizque devia de consentir os outros cuidar, lá eles de fora. O
gringo falou que ninguém não faz nada" (JACOB, s/d, p. 53).
"Zé
Pretinho também mariscava, menino entanguido, dois dentes faltando na frente,
cara amargosa, empambado. Um dia o jacaré jogou o rabo no cedro, aparou o
bichinho na boca. Lá se foi o companheiro.
Bubuiou o sangue, a água era vermelha.
A água era vermelha, cor de miséria, assim magino sempre" (JACOB, s/d, p.
07).
"Cada copaibeira, balata, sorva, dava um bom
ganho. Tanto trabalho, no fim o ganho, um nada. O Salomão quer quase tudo de
graça, a troco. Leva-se partida enorme de balata, sorva, copaíba, vigie só o
que se traz. Uma garrafinha de querosene, meia barra de sabão, uns trocinhos
mais. Compra na exploração, ainda furta no peso. A gente dá um duro, rompendo
mata, fazendo força, o produto nas costas, lonjura de horas, no fim vê miséria" (JACOB, s/d, p. 53).
"É
sempre esse rio rolando, cheias e vazante.... A mesma vida desde menino. Manhã
preguiçosa, um custo sereno a pingar, o reumatismo futucando os ossos. Dia
passa imaginar que vem outro pior. O rio é uma constante e ele segue noutro que
vem pior. Filhos por criar é que dá esperança de viver. No meu dizer, precisa
paciência cabeça sentada. A afobação que deu o negócio, essa situação
amaldiçoada" (JACOB, s/d).
"Domingo
data santificada, tinha sobrosso caçar nesse dia (p. 12), [...] o ticoã cantou
naqueles confins. Azar, vai agourar teu pai e tua mãe. É perder fé, bicho
anunciador de desgraça. Castigo talvez. Botar o pé na igarité, no mato, ouvir
pássaro, peixe não pega, caça não traz, (p. 15). [...] Nada disso, ficar panema
com o canto dobrado da alma-de-gato (p. 15). Ali na altura do socavão, no pé da
terra. Nessa situação, logo agora, esse estrepe de murumuru, um tanto assim
enfiado no pé. Deixa ficar tiro depois, no gume da faca (p. 16). [...] Vou
errar. O tiro falou. Errei mesmo. Perdi o boi, filha da mãe de sorte. Chorando,
agora. Tarde demais (p. 17). A inambu-relógio piou quem sabe aonde. Inverno, não tem que pensar, chuva é assim
mesmo. Cai forte, vai afinando, ajusta o tamanho de cair, fica aí dia inteiro.
Chuva Branca, essa então, é quem não tem fim. Morosa, sem hora marcada de
estiar, (p. 19). Inambu-galinha, choro mais triste, mais frio. Pio das sete
horas. Geme sem necessidade, não carecia (p. 21). Chuva branca não para logo.
Uma aporrinhação. Faz um estiozinho, alenta de novo. Fica na lenga-lenga,
parecido mulher" (p. 22). (JACOB, s/d, p. 12, 15, 16, 17, 19, 21 e 22).
"Culpo
Mariana por essa panemice. Das vezes que quero, a desculpa é essa... Tomou chá
de maria-mole, a modo arriar Naquela teima de sempre, não quer pegar filho pra
ver passar fome. Lembra os dois que perdeu, já grandinhos... Mas devia ter dito
do bode (p. 49). Cheguei a apalpar a filha do compadre Joca, lá no roçado. A
menina riu, virou as costas, não reclamou. Se insistisse deixava. Cabocla
quando dá risinho, se põe encabulada, dá na certa. A bichinha estava começando
a crescer, peitinhos aguados ficando mulher. Por baixo criando fiapo. Que vale
que nesse dia, Mariana deixou. Zangada ainda, nem ligava, servia de qualquer
jeito" (JACB, s/d, p. 49 e 50).
"Só
Deus e o Curupira sabem o caminho (p. 184). Terra seguida, chapadão, dá pouco
esmorecimento. Um pau ou outro a passar por cima, ainda vai. O que fracateia
mesmo é, socavão. Daqui lá uns dez, por aí assim. O do lacreiro, o da
castanha-de-macaco, o da baixa grande... Examino a terra onde passo, ensino
mateiro. Uma árvore mais alta, um pau mais grosso, caída, paririzal, bugi. Na
cidade rua tem nome, casa tem número, e se calhar era capaz de me perder. Aqui,
igarapé, afluente, posição do sol, lua, palhal, ou outro mato por onde se
passa, é rumo. Pau tombado, também serve, marca certa paragem. (p. 41). Mata
desse jeito, digo mesmo, nunca havia de conhecer pior. Cada despropósito de
árvore de bem uns trinta metros. Essa aí, muito mais disso. Itaubeira,
quariquara, madeira de lei tem a fartura, lugar muito proveito" (JACOB, s/d, p.
184, 41 e 174).
"A
consumição maior é nem não saber da certeza das coisas. Febre... deliraçao. Desesquecido dos aperreios, a mata rindo
também, desgraça feliz (p. 243). A vista anuviando, a cabeça rodando, apagou-se
o de ver. Desgraceira filha duma égua! Água água! Fome! fome! fo...me...
Curupira! Curupira! Curupira! Do jeito do Mapinguari, aquele vulto discunforme,
se botando alvoriçado... Me acaba logo bicho nojento, nunca não tinha visto
coisa tão feia" (JACOB, s/d, p. 243 e
251).
"Principio
de casado era chamego de levar a mulher no costado pro lago. Sentia como que
cheirava a mata, manhã abrindo no centro, flor de igapó. Gostava até do molhado
de suor lá dela, escorrendo na cara, pingando no corpo. Fazia empenho de sentir
aquele molhado, gosto de carne de fêmea. Agora tem vez até que me desprego dela
de mau propósito. Reclamo, vai te banhar, tirar esse pixé, só é mais pitiú de
peixe. Mariana responde amuada, duns tempos pra cá desse disso de me achar
assim. Aos poucos foi findando o agarrado, de viver só querendo, abraçado,
cheirando a cabocla. Boto a maginar no tempo de nova, roliça, fornida, corpo
muciço, olhos vivos. Baixando eles de envergonhada, quando se deparava comigo
(p.183-4).
A
mulher quase nua, com dois vestidos, calça não usa sei lá quanto tempo Quando
saco de açúcar se comprava no barato, tinha umas delas. Faz vergonha a
gente. Naquele dia no roçado,
desprevenida, compadre Juvenal na frente. Virou até a cara. Fiquei cm tanta
raiva, só pensar que tinha visto o lá dela. Juvenal foi decente, tirou os olhos de riba, sem
querer ver. Fez que nem viu. Mas acho que viu. Mariana estava à vontade, pernas
abertas. Se de onde estava, fui ver muito longe" (p. 183, 184 e 54).
"
Madrugada
de mata tem cheiro de lacre, breeiro, catleia, baunilha, raiz, outros de
mais... Nasce dia naquela alegria, canto de pássaro, ar molhado de sereno,
friozinho gotejando (p. 129). O sol descendo, varando o mato pedaços no chão.
Alumia vagamente, bocadinho, apenas (p. 54). O leito enfeitado, branquejante,
carreando flores de murta, jarana, matamatá, levando galhadas de acuquirana,
anani, paqueira, tudo vai jogar na mãe-do-rio (p. 134). Desnorteado, chuva,
doença, uma desgraça de azalação, na maior desinfelicidade" (p. 129, 54, 137 e 137).
"Vem essa consumição, a dor de barriga
aumentando. Que devia de ter pra despejar. Cu de pobre caga de teimoso.
Bostinha miúda, mirrada, ressequida, igual de cabrito. Coisa distiorada
alimenta a vida. O que dizem que não presta, serve também. Merdinha, não dava
nada. Rico tem mais o que descomer. Muito mais ganho, come à vontade, caga o
que quer (p. 23). Mosquitos entrando nos olhos, procurando remela. Varejeira é
ai roncando no ouvido. Pium, não tem, nem maruim, Mutuca, tem algumas pro
gasto. Morei num rio, esse sim, tinha de tudo. De noite os carapanãs, de dia
era pium, borrachudo, maruim, mutuca. O inferno era melhor. Esperando o que se
já acabei. Limpar com folha de pariri" (p. 23 e 25).
"A
fêmea é manhosa. Se estiver deitada, espera o macho, no caso eu. Tenho o apito
para arremedar. Estirada na cama não se levanta, dengosa como mulher. O homem
que venha, faz-se bonita. Espicha a cabeça, espera. Olhar de cunhantã, toda
enfeitada para homem. Deus que me perdoe, mas não pensei coisa feia por mal (p.
14). Chuva branca não para de logo. Uma aporrinhação. Faz um estiozinho, alenta
de novo. Fica na lenga-lenga, parecido mulher" (p. 14 e 21).