sexta-feira, 30 de setembro de 2016




ANDERSEN, Benedict, As comunidades imaginadas: reflexões sobre a a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
A formulação de Anderson para o conceito de nação se apoia sobre as expressões, por vezes paradoxais, de comunidade imaginada, limitada e, ao mesmo tempo, soberana. “Imaginada porque mesmo os membros da mais minúscula das nações jamais conhecerão, encontrarão ou sequer ouvirão falar da maioria dos seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles (…). Limitada porque mesmo a maior delas (…) possui fronteiras finitas, ainda que elásticas, para além das quais existem outras nações (…). Soberana porque o conceito nasceu na época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico de ordem divina. Amadurecendo numa fase da história humana em que mesmo os adeptos mais fervorosos de qualquer religião universal se defrontavam inevitavelmente com o pluralismo vivo dessas religiões e com o alomorfismo entre as pretensões ontológicas e a extensão territorial de cada credo, as nações sonham em ser livres (…). A garantia e o emblema dessa liberdade é o Estado Soberano”, expõe o intelectual na introdução da obra (ANDERSEN, 2008, p. 33-34).

sábado, 17 de setembro de 2016

Literatura A caligrafia de Deus - Márcio Souza
Um dos subprodutos deixados pela Ditadura que infelicitou o Brasil durante duas décadas do século XX foi o legado de besteiras e palhaçadas sinistras perpetradas pelos militares e seus puxa sacos. Logo nos primeiros momentos a repressão foi executada com todo o peso do ódio que os novos donos do poder tinham contra a cultura. Nem mesmo a Biblioteca Nacional ficou a salvo da sanha obscurantista. Uma intimação chegou às mãos da diretora da época, ordenando a destruição de todos os livros subversivos, que deveriam ser queimados na fornalha da instituição. Como o documento não trazia nenhuma lista de livros perigosos e alguns absurdos já haviam acontecido, como a apreensão de exemplares de “A Capital” de Eça de Queiroz e de “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal, a diretora pediu que uma lista fosse enviada para que pudessem obedecer a ordem. Não tardou a chegar a tal lista, com a informação de que uma equipe de militares iria fazer uma inspeção para certificar o cumprimento da tarefa. As bibliotecárias fizeram um mutirão e trabalharam até altas horas da noite misturando as obras listadas com os venerandos volumes da coleção Teresa Christina, que ficava trancada numa sala desde 1924, a espera de catalogação, salvando algumas obras primas. Em Manaus, 1976, o Joaquim Marinho era superintendente da então Fundação Cultural do Amazonas, na gestão do governador Henoch Reis. Marinho teve a ideia de editar livros de baixo custo, em papel jornal, para ampliar a circulação das obras de autores amazonenses entre os leitores da cidade. Eu tinha na gaveta um romance pronto, mas não havia ainda me decidido a procurar um editor. Uma das poucas pessoas que tinha lido na o Nivaldo Santiago e vaticinara que o livro faria muito sucesso, mas achei que aquilo era bondade provocada pela amizade. A ideia do Joaquim era lançar um livro de cada gênero, já estava com originais de contos, crônicas, poesia e teatro, mas faltava um romance. Sabendo do meu livro, Joaquim Marinho me cercou de tal forma que acabei entregando os originais. E no dia 5 de setembro de 1976, à sombra do mulateiro da Praça da Polícia, sede do Clube da Madrugada, foram lançados os livros de Ediney Azancoth, Aldísio Filgueiras, Jorge Tufik e o meu romance, “Galvez, Imperador do Acre”. Eram mil exemplares, que se esgotaram em menos de duas semanas. O sucesso poderia nos ter dado muitas alegrias, mas o Conselho Estadual de Cultura considerou o livro ofensivo às tradições amazonenses e Joaquim Marinho foi sumariamente demitido do cargo. No ano seguinte, 1977, a editora Alfa&Ômega, de São Paulo, publica o meu ensaio “A Expressão Amazonense”, também com grande repercussão de crítica e de vendas. Então foi a fez da Assembleia Legislativa do Amazonas mostrar serviço ao militares, como já havia vergonhosamente feito ao cassar o mandato do deputado Arlindo Porto. Um dos sabujos da Arena, partido da Ditadura,levou ao plenário a proposta de cassação de minha naturalidade de amazonense. Faça-se justiça a dois nomes que levantaram a voz contra tamanha demonstração de abjeta subserviência e estupidez: Beth Azize e Farias de Carvalho. Esses dois protagonizaram um dos mais luminosos momentos de nossa história política enfrentando o obscurantismo vigente na época, sendo que coube à deputada Beth Azize afirmar que nenhum poder tinha a autoridade para cassar a naturalidade de amazonense. O poder discricionário podia cassar a nacionalidade e transformar um cidadão em apátrida, mas um amazonense nascia amazonense e morria amazonense, era um direito inalienável. “Galvez, Imperador do Acre” já vendeu mais de um milhão de exemplares e está entre os 50 mais importantes romances da literatura brasileira. “A Expressão Amazonense” faz parte da bibliografia de muitos cursos universitários, influenciando gerações.
"(...) a leitura evita que tenhamos de recorrer à dissimulação, à hipocrisia e à falsidade; ela nos torna, portanto, sinceros e verdadeiros, ou simplesmente melhores" (BACON apud COMPAGNON, 2009, p. 30).
"É graças à mímesis que o homem aprende,ou seja, pelo intermédio da literatura entendida como ficção" (2009, p. 30).
- "A literatura deleita e instrui; (...) instrui deleitando, segundo a teoria perene do dulce et utile" (COMPAGNON, 2009, p. 31).
- Prestação de serviços: leitura de fruição e educação
"Além do prazer de uma leitura agradável, poucos acontecimentos encontrar-se-á que não possam servir para instruir os bons costumes; e, a meu ver, esta é uma considerável prestação de serviços ao público, instruindo-o ao mesmo tempo em que o diverte" (COMPAGNON, 2009, p. 31).

quarta-feira, 14 de setembro de 2016



"Quando [os Jesuítas] vieram, eles tinham a Bíblia e nós a terra. E nos disseram: fechem os olhos e rezem. Quando abrimos os olhos, nós tínhamos a Bíblia e eles a terra".

segunda-feira, 12 de setembro de 2016



Z DA ZONA DE MANAUS, A ANTIGA - Thiago de Mello*


Não tinha a fama nem o prestígio da atual. E era genuinamente cabocla, embora em seus tempos dourados esbanjasse matéria-prima importada de vários países da Europa. É verdade que nunca chegou a ser de atração nacional, como a de agora. Mas era indiscutivelmente mais franca. Aberta a quem chegasse, não fazia acepção de pessoas: desde que fossem masculinas, donas de muita disposição e de um mínimo de capital. Era a zona das mulheres. De mulheres da vida, se dizia. Ou de mulheres que faziam a vida, expressão que sempre achei de sortilégio. Havia quem chamasse, nariz orgulhoso e torcido, a zona da prostituição, as ruas das raparigas.
Moça da família, os pais não permitiam que passassem pelos quarteirões daquelas ruas onde se exercia a mais antiga profissão do planeta, nas casas do meretrício. Perdão, do baixo meretrício, era assim que diziam, porventura a indicar a existência de um meretrício mais alto, quer dizer, mais caro e mais escondido. Ou talvez se tratasse de referência saudosa ao tempo das francesas de vestido longo e decotado da Pensão Floreaux, na rua Epaminondas, ou das que chegavam elegantíssimas e perfumadas, já madrugada alta, acompanhadas de cavalheiros de casaca, para uma ceia com champanhe no Bar Alemão ali na Marechal Deodoro à época do esplendor da borracha.
Para o povo a Zona era mesmo e simplesmente a zona, tout court, sem adjetivos. Ficava bem no centro da cidade, fraternalmente concentrada em trechos de quarteirões de ruas importantes. O eixo era a Saldanha Marinho: a mesma rua que abrigava moradias sóbrias e moradores austeros, abria-se para a vida alegre das pensões a partir da rua Joaquim Sarmento e só ia terminar lá na rua da Instalação, nos procuradíssimos bordeizinhos do último quarteirão enladeirado. Da Saldanha Marinho a Zona ganhava asas para as transversais Joaquim Sarmento e Logo D’Almada, um pouco para o lado da Sete de Setembro, outro pouco para as bandas da 24 de Maio. Casinhas da alvenaria colonial, soalhos de madeira que cantavam.
Mal a tarde começava a cair, a Zona, qual mulher sadia que desperta a dengosa se espreguiça, dava começo aos seus macios movimentos, com a chegada dos primeiros freqüentadores a fanar pelas esquinas e das primeiras caboclas, cabelos ainda molhados, ao parapeito das janelas. Só quando era já noite mesmo é que, até então mal-entreabertas, escancaravam-se as portas ou meia-portas, sobre as quais não faltava a famosa lanterna vermelha, em cujo brilho vagamente ardia um tição de tristeza.
O canto da Instalação com a Saldanha Marinho não marcava, porém, o limite da Zona, que a atravessava para alcançar outras ruas boêmias: a Itamaracá, a Frei José dos Inocentes. Por toda década de quarenta a Zona teve como lugar principal de bebida e de baile o Cabaré Chinelo, sábio e delicioso nome que o povo encontrou para substituir o Hotel Cassina, que no mesmo e bonito prédio funcionou até o fim da nossa Belle Époque, frequentado só por gente de finas libras esterlinas, não importava se oriundas das algibeiras de grosseiros coronéis de barranco.
Pensão da Lola: Ninguém pode negar que por todos aqueles anos quarenta a pensão da Lola, na Saldanha Marinho, era a melhor de todas as casas da Zona. É juízo unânime dos bons frequentadores daquelas ruas. A numerosos deles agora consultei, e de todos a Lola teve o voto, ao qual com iniludível pena, não pude juntar o meu. Para que mentir? A verdade é que, naquelas noites, apenas estive perto, nunca tive acesso à boca da urna.
Era italiana, de sobrenome Ferdi. Alguma vez a contemplei descendo a Avenida: era elegante, alta, muito digna de leque abanando o rosto claro. Cuidava com esmero de sua moças, vigiava-lhes o asseio e a saúde. De índole romântica, sabia de cor o seu Dante, atirava de relance para a sua mesa, com abajur de centro, sempre bem concorrida, uma estrofe de Petrarca. Em contradição, ou talvez por coerência, a nenhuma das moças permitia histórias inventadas, choramingas, a justificar o passo mal dado que lhes abrira o caminho para a vida “não me venham com histórias. Estão aqui porque querem, estão aqui porque gostam. Fazem muito bem. Honrem a profissão. E tratem de não enganar ninguém”. Lola Ferdi morreu rica e triste, no começo dos 50. Famoso advogado de Manaus, leal amigo da dona de pensão presume-se que amigo de todas as horas, cumpriu o que ela, em testamento, lhe ditou: herdou os seus bens.
Consta que alguma parcela ficou destinada ao amparo de duas ou três de suas melhores moças já fatigadas.
*Escritor amazonense, autor de diversas obras de reconhecido valor mundial. Destaque para - Manaus, Amor e Memória, Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984, (p. 247-49).