quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda II


A CONSCIÊNCIA É UMA SÓ

De qualquer maneira, o conteúdo doutrinário da obra independe dessa circunstância. Ficção ou realidade - para o admirador típico de Castaneda, trata-se de um dilema irrelevante. O que importa, aqui, é o conteúdo, a visão-de-mundo, a perspectiva aberta de um sentido para a compreensão e a evolução espiritual. A doutrina exposta por Castaneda é o valor principal de seus livros, pela profundidade, sutileza e exatidão de suas intuições fundamentais. O chamado "mundo", pode-se afirmar, é bem como Castaneda diz que ele é.
O fundamento da doutrina é o fenômeno da consciência, o fato de que somos seres perceptivos e de que sabemos que o somos.
Desde suas primeiras lições, Don Juan, o mestre, trata as realidades percebidas em diferentes estados de consciência como realidades separadas mas tão "reais" quanto a que costumamos, em nossa vigília cotidiana, considerar normal. A equação entre o interno e o externo fundamental de todo conhecimento esotérico comunicado por Don Juan. O mundo é assim como pensamos que é, só porque nos dizemos, todo o tempo, que ele é assim; se pararmos de nos dizer que o mundo é assim, ele deixará de ser assim - diz o mestre. A interrupção do diálogo interno implica em "parar o mundo" - e esta é a condição necessária de toda ação mágica.
Segundo Castaneda, a realidade depende de uma localização da consciência, de certa maneira, ela é essa focalização. A consciência de um bebê ainda não está focalizada, está no infinito indeterminado, o desconhecido, que Castaneda chama o NAGUAL( Leia naual). A focalização é feita nos primeiros anos de vida através de uma capacidade estruturante da consciência que é a atenção. A atenção seletiva, ensinada aos filhos pelos pais, é uma focalização particular, a que a doutrina dá o nome de Primeira Atenção, e a realidade particular que ela constitui chama-se TONAL. Assim, nossa realidade familiar, que julgamos única e absoluta, é apenas uma criação particular da consciência focalizada pela Primeira Atenção. Essa focalização, diz Don Juan, é uma proeza admirável do ser humano - que, provavelmente, levou muitos séculos para realizá-la - mas fixada, também é uma camisa-de-força que impede outras focalizações e, portanto, a experiência de outras realidades.
Os feiticeiros trabalham para escapar dessa camisa-de-força, desmanchando essa focalização e desenvolvendo procedimentos capazes de estabelecer novas focalizações, no NAGUAL, às quais a doutrina chama de Segunda Atenção. As "plantas de poder" são, nos primeiros livros, o principal recurso utilizado pelo mestre para afrouxar, no discípulo, a focalização da Primeira Atenção e, assim, abrir a possibilidade de novas focalizações da Segunda Atenção. Nos livros seguintes, entretanto, a tarefa é confiada a uma técnica conhecida como "a arte de sonhar". Quando adormecemos, desmancha-se naturalmente a focalização da Primeira Atenção; a consciência afunda-se no NAGUAL, de maneira não-focalizada; o que chamamos de "sonhos" são as lembranças da consciência refocalizada na Primeira Atenção, de suas experiências não- focalizadas no NAGUAL; o domínio do "sonho" permite a focalização da Segunda Atenção, um procedimento semelhante ao que chamam de "sonhos lúcidos" e "projeção astral". O domínio da consciência, através de sua expansão, ou domínio da Segunda Atenção, não visa, apenas, a ação mágica dos feiticeiros, mas o conhecimento.
Para a doutrina, a gnoseologia realista, substancialista ou materialista, é ingênua excessivamente parcial. Não há uma realidade objetiva, em si, a ser refletida pela consciência; entretanto, ela não é um produto constituinte absoluto, como no idealismo filosófico. As duas posições clássicas, privigeliando um dos pólos da relação ontológica - o sujeito ou o objeto - são igualmente rejeitadas. A cada estado da consciência corresponde uma realidade ontologicamente correlata mas nenhum dos dois pólos está em destaque. O ser não se reduz à consciência,apenas, mas só se expressa através dela. O que há é o ser; o que há é a consciência; esses dois são um só.
O conceito utilizado por Castaneda, a partir de THE FIRE FROM WITHIN ( O fogo interior), para descrever o que se passa, é o de "alinhamento".
Os diferentes "alinhamentos" entre ser e consciência dão conta, não só dos diferentes estados subjetivos mas também das diferentes realidades objetivas. Pode-se, para usar uma linguagem acadêmica, falar de uma espécie de "ontopsicologia" em Castaneda, desde que, para ele, essas duas áreas da realidade, supostamente distintas, são, em verdade, a mesma.
Pode-se também dizer que a doutrina concebe a realidade à maneira da Física contemporânea, como um campo unificado de energia, a que chama "o campo das emanações da Águia". Temos, aqui, a metáfora básica do sistema para designar, nos livros THE EAGLE'S GIFT ( O presente da Águia) e THE FIRE FROM WITHIN ( O fogo interior), o poder supremo que "governa todas as coisas". Tal poder é absoluto. Nada existe, na verdade, exceto a Águia e suas emanações. A percepção e a consciência(ambos os termos são sinônimos, em Castaneda) surgem como um determinado alinhamento dessas emanações, alinhamento que também determina, ao mesmo tempo, o objeto delas. Esta ideia é fundamental, na doutrina, porque é o alinhamento de emanações que constitui toda realidade perceptível, isto é, percebida, criando a aparente polaridade entre sujeito e objeto. A mudança de alinhamento, o que pode ser feito pelo emprego de uma quantidade adequada de energia, é uma operação cosmotrópica, instauradora do real.
Este é o ponto básico. A visão de Castaneda fundamenta-se nessa compreensão ontológica, que não encontra paralelo na tradição filosófica ocidental, a não ser nos chamados filosóficos pré-socráticos gregos, na própria aurora do pensamento do Ocidente. É uma compreensão do ser como "presença do presente", para usar os termos de Heidegger.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda I



O lançamento do primeiro livro de Carlos Castaneda, THE TEACHINGS OF DON JUAN, em 1968, foi um fenômeno editorial. Apresentado como uma tese para um grau universitário em Antropologia, o livro virou um best-seller mundial. Não se falava em outra coisa e, pouco depois já era o assunto da reportagem de capa da revista TIMES - o que, no início dos anos 70, pelo menos, era prova definitiva de sucesso. Com os três livros seguintes, o êxito foi semelhante. Castaneda era o portador da sabedoria pré-colombiana, que muitos ligavam a doutrinas orientais, como o ZEN, ou a escolas esotéricas ocidentais, como a de GURDJIEF. Com a vantagem de que o mestre de Castaneda, o velho feiticeiro índio a quem chama de Don Juan, era mais simpático, mais espirituoso, mais engraçado, além de ser dono um carisma que despertava nos leitores a mais absoluta confiança.
Mas havia, também, a moda das drogas. Thimothy Leary apregoava as virtudes religiosas do LSD. A experiência dos chamados estados alterados da consciência, induzidos por agentes químicos, passara a fazer parte da formação dos jovens e Don Juan utilizava, para comunicar seus ensinamentos, três plantas alucinógenas- o estramônio, o cogumelo mágico mexicano e o peiote - que ele chama "plantas de poder". Depois, porém, verificou-se que este era um detalhe pouco importante no contexto da doutrina que estava sendo transmitida. Dos oitos livros publicados por Castaneda até hoje os únicos que tratam das "plantas de poder" são o primeiro, cujo título foi inexplicavelmente traduzido no Brasil para A ERVA DO DIABO, e o segundo, A SEPARATE REALITY - que, aqui, virou UMA ESTRANHA REALIDADE. A partir do terceiro livro, JOURNEY TO IXTLAN (Viagem a Ixtlan), o assunto é abandonado, exceto por breves observações corretivas, e relegado a uma posição secundária no sistema de crenças e práticas descrito pelo escritor. Os livros não se classificam na literatura sobre drogas, características dos anos 60, nem a prática de Don Juan tem qualquer semelhança com a de seitas religiosas que incluem alucinógenos em seus cultos, como a Igreja-Nativista Americana, com o peiote, ou o Santo- Daime, no Brasil, com a AYAHUASCA. A imagem popular de Castaneda e Don Juan como grandes tomadores de drogas é mera distorção. Não tem a nada a ver.
Por outro lado, a questão sobre a veracidade da história é um pouco mais complexa. Castaneda é acusado de "impostor" por ter pretendido passar mera ficção, produto de sua imaginaçao, por relato verídico, reportagem e estudo científico. Alguns críticos norte-americanos ficaram logo muito preocupados com isso; contudo, apesar, de surgirem vários livros para demonstrar a alegada farsa, como THE JOURNEY OF CASTANEDA, de Richard De Mille, o próprio Castaneda continua a insistir vigorosamente na veracidade de sua narrativa.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

DIAS DE CHUVAS EM MANAUS SÃO ASSIM MESMO


By Michelle Souza

Até duas semanas atrás, o calor era insuportável, chegando à casa dos 38 graus com sensação térmica de 40. Não havia maquiagem que durasse muito, ou banho que se sustentasse por duas ou três horas. Em questão de minutos, mesmo no mormaço, era muito fácil suar as bicas e sentir o ardume do sol na pele. A cidade, por estar se preparando para a Copa de 2014, e para virar num futuro bem próximo uma metrópole, ficou coberta de poeira das construções e da fumaça das queimadas. O resultado disso, era uma mistura de sal, óleo e pó no corpo não muito confortável que, talvez, se pudéssemos ser fritos, acabaríamos em um tacho juntos com jaraquis e tucunarés, para sermos servidos com vinagrete e farinha uarini.
A chuva que deveria ter chegado no Dia de Finados, segundo os mais velhos, estava prevista para fevereiro, de acordo com as previsões dos meteorologistas. E, para surpresa de todos, chegou no início de Dezembro, não dando tempo de comprar guarda-chuva e nem de terminar aquela reforma da casa com o décimo terceiro. Chegou também com toda a força que não estava prevista, pois é o ano de EL ÑINO. E por causa dela, muitos passaram a reclamar.
O trânsito caótico, a sujeira das ruas, a roupa molhada, o frio ganhou um novo Judas: a chuva. O trânsito que não era de um fluxo de dar inveja ao Japão ficou atrás de São Paulo, com engarrafamento de 600 metros. A sujeira das ruas que foram meticulosamente acumuladas durante os dias de seca, passaram a entupir os bueiros da cidade. A roupa molhada, o cheiro de macaco suado, morto à tapa passou a ser muito comum em ônibus lotados, porque fica difícil, nesses dias, enxugar a roupa. Além disso, o frio de 24 graus faz o mais calorento manauara ficar chocando e espantando carapanã na rede.
Dias de chuva em Manaus são assim mesmo. Poderia ser o contrário. Pessoas andando mais de bicicleta e o poder público agindo de forma mais preventiva para evitar o RUSH de uma cidade em crescimento. O povo jogando seu lixo em locais adequados e sem ficar sob a ameaça de pagar mais uma taxa. Aliás, o aterro sanitário da cidade já tem condições de ser auto-sustentável com energia limpa que é o gás metano.
Para evitar a roupa molhada seria bom adotar capas de chuvas e, de quebra, para os pés, galochas. Infelizmente, não temos esse hábito. E, claro, uma ou duas horas de sol para secarmos nossas roupas. Quanto ao frio, ele pode ficar em paz. Serve para aconchegar os corpos e para dormir em conchinha. O problema é só os carapanãs, que insistem em dizer que estão ali zunindo e beliscando. Como não dá para acender uma fogueira embaixo da rede como nossos antepassados, serve uma utilidade moderna: BAYGON em espiral, é fedorento para ele e muito mais para nós, mas ajuda.
Dias de chuva em Manaus são assim mesmo. E em meio a tantas reclamações, o bom é saber que lá pra maio, começa novamente o verão amazônico pra gente sentir falta da chuva e falar mal do período de estiagem. Esse movimento de eterno retorno foi percebido no tempo dos gregos e, oxalá, que permaneça até que a Natureza permita ou que os homens não atrapalhem de vez. (Michelle Souza- dezembro de 2009- Blog Casanumato)