domingo, 27 de março de 2011

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

Mia Couto

"O estudante universitário Marianinho volta à ilha de Luar-do-Chão depois de anos de ausência. Seu retorno é um imperativo: ele fora incumbido de comandar as cerimônias fúnebres do avô Dito Mariano, de quem recebera o mesmo nome. Neto favorito do patriarca, o rapaz chega à ilha e se vê no centro de uma série de intrigas e de segredos familiares, que envolvem seu pai, Fulano Malta, a avó Dulcineusa, os tios Abstinêncio, Ultímio e Admiração, e também as nebulosas circunstâncias em torno da morte de sua mãe, Mariavilhosa.
Marianinho logo descobre que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto e esconde desígnios que escapam à força dos homens - como tudo nessa enigmática Luar-do-Chão.
O moçambicano Mia Couto é um dos mais importantes autores africanos de hoje. Neste romance, a situação de conflito entre a deriva da África pós-colonial e o arraigamento das tradições ganha retrato exemplar numa saga familiar poética e fantástica".

sexta-feira, 4 de março de 2011

Julio Cortázar - o contista


Mário da Siva Brito (Orelha de "Todos os fogos o fogo")

No quadro mundial dos contistas modernos, o argentino Julio Cortázar ocupa, sem sombra de dúvida, lugar proeminente. É mesmo um dos maiores autores do gênero em nosso tempo. Conquistou essa destacada posição em virtude do seu fazer literário repleto de inovações e, ainda, por sua extrema acuidade no surpreender os mais recônditos móveis dos atos humanos, as suas esquivas, misteriosas ou secretas causas.
Cortázar é um atento e minucioso perquirador do homem, vale dizer, da vida. A descoberta do lado oculto das pessoas e dos imprevistos atocaiados em cada situação vital - situação que jaz aparentemente tranquila em circunstâncias várias, umas banais, outras de exceção - constitui mesmo a matéria que trabalha e retrabalha em todas as páginas de seus recontos envolventes e fascinantes.
O autor de "O jogo da amarelinha" sabe, como poucos, realçar o absurdo, o fantástico que pode se esconder nos mínimos gestos e nos mais comuns até rasteiros acontecimentos. O homem, para ele, é como que um ser obscuro que busca, segundo a segundo, todos os dias, em qualquer momento, iluminar-se ou ser iluminado, ou aos outros levar luz. A vida, nas mãos do ficcionista, torna-se uma permanente incógnita que procura ser desvendada. Faz-se vereda, picada, passagem subterrânea, galeria em que caminhos que se cruzam, e por essas rotas intricadas transita, aturdido mas não perdido, perplexo mas não derrotado, o indivíduo, a criatura feita de carne, de sangue e sonhos.
Esse universo labiríntico é a sua pátria secreta - gleba em que todos nós, homens de qualquer latitudes ou status, habitamos como seres circunstanciais, sujeitos a mil e um contraditórios sentimentos.
Assim é o Cortázar de "Todos os fogos o fogo", volume que reúne oito histórias que são oito obras-primas do conto moderno.
Repare o leitor os efeitos inesperados e as consequências últimas que o romancista de "Os prêmios" sabe tirar de suas análises psicossociais, das devassas introspectivas de suas personagens, dos choques passionais que as ferem, dos incidentes supostamente insignificantes do cotidiano em que se veem envolvidas. O cotidiano - como nos adverte esse mestre da história curta - de um momento para outro é capaz de transformar-se em espanto, atingir o insólito, fazer-se fantasmagórico, alçar-se a altitudes imprevistas, tingir-se de insuspeitadas gamas, revelar-nos desconhecidos recantos do nosso ser.
Nestas histórias de "Todos os fogos o fogo" - algumas simétricas, outras paralelas e simultâneas, estas tecidas por associações de ideias, aquelas contraponteando tempo e espaço, umas concêntricas e, assim, em oposição às evocativas, quando então a memória envereda por espiralados volteios - há que destacar, sempre, a força de persuasão do escritor. Persuasão que integra o leitor de tal modo na narrativa que o torna um seu participante, que o faz um cúmplice do que lê. Do que lê e do que vive.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

"O Outro Céu" Julio Cortázar

"Minha mãe sempre percebe quando não durmo em casa, e embora naturalmente não fale nada, pois seria absurdo se falasse, por um ou dois dias me olha entre ofendida e hesitante. Sei muito bem que jamais lhe ocorreria contar para Irma, mas de qualquer forma me aborrece a persistência de um direito materno que já não se justifica, e sobretudo que seja eu quem deve aparecer, no fim, com uma caixa de bombons ou uma planta para o pátio, e que o presente simbolize de forma muito precisa e subentendida o fim da ofensa, o retorno à vida diária de filho que ainda mora em casa da mãe".
(CORTÁZAR, Julio. Todos os fogos o fogo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p.181)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

Mário de Andrade

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com os invejosos tentando destruir quem eles admiram; cobiçando seus lugares, talento e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, a minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfo, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade...
Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!!!!!!!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda VII


EGOMANIA - O GRANDE VILÃO

A Arte da Espreita apresenta ainda quatro exigências: impiedade, astúcia, paciência e doçura. Destas, a fundamental é a "impiedade" que não significa crueldade mas firmeza, rigor consigo próprio. O inimigo que deve ser vencido pelo guerreiro é a própria autoindulgência, o sentimento de autopiedade fundado na importância indevida que atribuímos ao nosso autoreflexo. Espreitar a si próprio significa reconhecer nessa egomania o tirano que deve ser derrubado. Segundo Don Juan, o homem dos tempos antigos, imemoriais, descobriu que, além de agir, podia prever e planejar seus atos; assim, apareceu a ideia de "eu". Quanto mais esta ideia se fixou, fortalecendo um pretenso "eu individua", mais o homem perdeu sua conexão natural com todas as coisas, através do conhecimento silencioso, em favor de um domínio cada vez maior da razão e do conceito. A guerra do guerreiro, portanto, é uma luta total, de vida ou morte, contra esse "eu individual", que privou o homem de seu poder. Para o guerreiro que busca, e portanto espreita, a impiedade é uma expressão da necessidade de eliminar a autopiedade, quebrar o espelho do autoreflexo e destruir a autoimagem, raízes de todo extravio egocêntrico.
Em suma, o fenômeno Carlos Castaneda é um dos paradoxos mais curiosos de nosso tempo. As revelações esotéricas mais sutis e detalhadas de que se tem notícia, em quaisquer círculos do exo ou esotéricos, estão sendo generosamente divulgadas para todo o mundo. Os grandes segredos estão ao alcance de todos. E o sucesso comercial dos livros é espantoso: além de se tornar feiticeiro, Castaneda ficou rico.
A contradição é apenas natural num mundo, como o nosso, cuja lei fundamental parece ser o paradoxo. E, rico ou não, Castaneda é provavelmente o mestre espiritual mais importante de nosso século. Sua doutrina está livre das heranças pesadas, eivadas de equívocos, das tradições ocidental e oriental. É uma revelação original, que brotou no Novo Mundo, para um florescimento imprevisível. Não há dúvidas que sua influência, por mais persistente que tenha parecido nas duas últimas décadas, está ainda no começo de uma ação que, certamente, se estenderá pelos anos por vir.
O impacto dessa doutrina em nossos formatos de conhecimento é inevitável. Em nossa cultura, uma visão-de-mundo é sempre expressa em prismas, ou gêneros literários, específicos. São descrições mitológicas, relgiosas, filosóficas ou científicas. A cabeça das pessoas é moldada por essas categorias e, por isso, pode ter dificuldades em entender uma visão-de-mundo que não seja vazada numa delas. A doutrina de Castaneda não é mitologia, nem religião, nem filosofia, nem ciência. Ela a chama simplesmente de conhecimento, "knowledge", um conhecimento inclassificável pelos acadêmicos. Mas é um conhecimento autêntico, uma apreensão genuína do real, que você pode perceber, de modo profundo e instantâneo, com sua intuição e sua sensibilidade.
O sucesso comercial dos livros de Castaneda é um dos resultados de sua impecabilidade na arte da espreita. Pode parecer que ele esteja, como dizia Jesus Cristo, simplesmente jogando suas pérolas aos porcos - e, em nosso mundo, como se sabe, porco é o que não falta. Mas Castaneda é, de fato, um mestre, deve saber o que está fazendo. As consequências de sua magia, de sua espreita, ainda são imprevisíveis. Prestem atenção.
(MACIEL, Luiz Carlos. Da espreita ao sonho: a doutrina de Castaneda. Revista Ano Zero. Rio de Janeiro, 1992, p. 4-11).

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda VI


OS PRINCÍPIOS DA ESPREITA

Em THE EAGLE'S GIFT, Florinda, uma das guerreiras do grupo de Don Juan, expõe os seis princípios da Arte da Espreita:
1. O guerreiro conhece e escolhe o seu campo de batalha.
2. O guerreiro considera que toda batalha é mortal e, por isso, ele está preparado para morrer a qualquer momento.
3. O guerreiro descarta tudo o que não é necessário porque isso significa um desperdício de energia.
4. O guerreiro relaxa e se abandona, não dando importância ao medo nem se paralisando por causa dele.
5. Quando diante de uma situação que não sabe resolver, o guerreiro se poupa, dedicando sua atenção a alguma outra coisa.
6. O guerreiro condensa o tempo; cada minuto é absoluto. Um guerreiro não tem tempo.
A intenção, por sua vez, é o poder que torna efetivo tudo o que existe, é a força que move todas as coisas. É incomensurável e indiscritível. O guerreiro procura efetivar plenamente sua conexão com a intenção, ou intento, conforme é explicado em THE POWER OF SILENCE. Os ensinamentos anteriores já haviam enfatizados a importância de um "propósito inflexível" no aprendizado mas, agora, nesse livro, revela-se sua conexão essencial com o conhecimento silencioso, pois o conhecimento do intento é direto, sem a intervenção da linguagem falada. Naturalmente, a expansão da consciência é necessária ao domínio da intenção pois ela é o elo vivo que "acende" o campo das emanações da Águia. O conhecimento silencioso, portanto, é o contato direto com a intenção. O domínio dessa força misteriosa, mas absoluta, parece ser a derradeira exigência a que o discípulo se submete para alcançar o conhecimento final e poder, finalmente, focalizar a Terceira Atenção.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda V


A CIÊNCIA TOLTECA

No quinto livro, THE SECOND RING OF POWER, entretanto, revela-se que o conhecimento de Don Juan vem de uma antiquíssima tradição esotérica, que remonta, na civilização pré-colombiana, a uma cultura a que a investigação arqueológica dá o nome de Tolteca. Os toltecas desapareceram muito antes da chegada dos europeus ao Novo Mundo, mas possuíam o conhecimento do domínio da consciência, em especial a manipulação da Segunda Atenção e, consequentemente, da ação mágica.
A ciência tolteca vem sendo transmitida oralmente através dos séculos e, em especial, nos últimos tempos, por grupos de "guerreiros", sob a liderança de um deles, a quem a doutrina chama de NAGUAL, por sua identificação com a realidade infinita e desconhecida. Nagual e Tonal, por sinal, são termos toltecas. Quando Don Juan resolve ensinar seu conhecimento ao antropólogo Castaneda, ele está, na verdade, atraindo um novo membro para seu grupo de "guerreiros" ou, mais exatamente, o futuro Nagual de um novo grupo de guerreiros encarregado de dar continuidade à tradição e tornar-se capaz, ele próprio, de entrar na Terceira Atenção. Essas revelações são feitas nos últimos quatro livros ( THE SECOND RING OF POWER, THE EAGLE'S GIFT, THE FIRE FROM WITHIN e THE POWER OF SILENCE) e colocam a história de Castaneda em nova e aparentemente mais fantástica perspectiva. Os dois últimos volumes relatam ensinamentos de Don Juan ministrados ao autor, nos anos 60, em estado de consciência intensificada, e que, por isso, haviam sido esquecidos e omitidos nos quatro primeiros livros.
O objetivo final é a expansão, o enriquecimento, a intensificação da consciência além de todos os limites concebíveis, O sentido do ser é a plenitude da consciência.
A consciência não "reflete" o mundo, nem o "projeta". A ideia de alinhamento supera as posições filosóficas tradicionais, permitindo ao conhecimento manifestar-se finalmente como poder, sem mediações. O domínio da Segunda Atenção possibilita a ação mágica, mas esse poder limitado é uma armadilha capaz de interromper o caminho do discípulo até a última meta. A possibilidade mais alta da consciência individual é, conforme o exposto em THE EAGLE'S GIFT, a de enganar a Águia, escapar do destino aparentemente inexorável de servir-lhe de alimento e aceitar o seu "presente", que é o da preservação da individualidade da consciência, na focalização plena da Terceira Atenção, quando há o alinhamento de toda as emanações da Águia a partir de um determinado ponto de aglutinação. Tanto as emanações quanto os alinhamentos são ordens, ou comandos, da Águia; é a Águia, portanto, que cria a consciência com o objetivo de devorá-la, pois a consciência é o alimento da Águia. O "presente" da Águia é permitir ao ser humano, por seu próprio esforço, escapar de seu bico voraz. O objetivo da doutrina é ensinar a aceitar esse presente, pois a Águia o oferece com o objetivo de preservar e ampliar a consciência.
O aprendizado visa o domínio da consciência, mas também do que Castaneda chama de "espreita" e de "intenção", como meios para atingir a meta. A espreita, ou a "arte da espreita", é o controle adequado da Primeira Atenção, no TONAL, e um de seus conceitos fundamentais é o de "loucura controlada", o comportamento adequado a cada circunstância que o guerreiro é obrigado a enfrentar.

domingo, 2 de janeiro de 2011

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda IV


UMA OUTRA CULTURA
Os livros de Castaneda, antropólogo e feiticeiro, são, na verdade, um único e inacabado livro, uma obra que está sendo criada ao longo dos anos, a cuja elaboração estamos assistindo, "pari passu", há mais de duas décadas. Esta obra, ao que tudo indica, ainda está longe de seu término. A experiência descrita por ela confunde-se com a própria vida de seu escritor, como aprendiz de feiticeiro ou, melhor dito, como um homem em busca do conhecimento pleno e até da superação de sua própria condição humana. O objetivo final, a Terceira Atenção, é um estado de consciência que envolve uma transmutação física radical, uma verdadeira vitória sobre a morte. A audácia e a originalidade dessa visão são, sem dúvida, totalmente alheias à nossa cultura.
Como os ensinamentos de Don Juan vem sendo transmitidos ao leitor à medida em que vão sendo assimilados pelo aprendiz, os livros de Castaneda revelam uma interdependência mútua cada vez mais acentuada. A compreensão adequada dos últimos volumes; por exemplo, exige a leitura dos anteriores, ao mesmo tempo que o sentido destes só é realmente elucidado por aqueles. Por isso, muitos dos novos leitores de Castaneda têm preferido começar o exame da obra pelos últimos volumes. Na verdade, todos esses livros lançam luz crescente uns sobre os outros, apesar de algumas pequenas incongruências que são bastante irrelevantes ou, quem sabe, um mistério ainda a ser estudado. Devem ser lidos como um todo, é a sua unidade que leva à compreensão correta.
Nos quatro primeiros livros THE TEACHINGS OF DON JUAN ( A erva do diabo), A SEPARATE REALITY ( Uma estranha realidade), JOURNEY TO IXTLAN ( Viagem a Ixtlan) e TALES OF POWER ( Porta para o infinito), trata-se de um aprendizado estritamente individual. Don Juan, o velho mestre, ensina sua sabedoria ao jovem discípulo porque este foi "escolhido pelo poder". Ele deve abandonar sua antiga visão-de-mundo e passar a viver "como um guerreiro". Aqui, a doutrina ressoa outros ecos de Heráclito, para quem a guerra era "o pai de todas as coisas", pois, para ele, só como um "guerreiro" é possível avançar no caminho do conhecimento. E é como um guerreiro que o discípulo enfrenta o abismo e o desconhecido no final de TALES OF POWER.

sábado, 1 de janeiro de 2011

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda III


SÓ A MAGIA É NATURAL
A filosofia do Ocidente é, primeiro, dominada pelo objeto, a partir do período pós-socrático; isso se verifica na filosofia grega clássica, de Platão e Aristóteles, na filosofia de medieval, cristã, de Santo Agostinho e Tomás de Aquino; e até no materialismo mecanicista que é o fundamento da ciência ocidental. Depois, é dominada pelo sujeito, no seu período moderno, com Descartes e Spinosa, tanto em suas expressões racionalistas (Kant, Hegel) quanto irracionalistas (Nietzche, Kierkegaard). Esse processo histórico de errância foi chamado por Heidegger de "esquecimento do ser" e envolve a perda progressiva da intuição mais profunda dos filósofos pré-socráticos. A necessidade mais crucial do pensamento contemporâneo é a de recuperar o que foi perdido em tal processo. A doutrina de Castaneda nos restitui à perspectiva correta.
Em seu mundo, a magia é mais do que possível, é natural. Tudo se faz por mágica; as aparências em contrário são apenas distorcentes. Por isso, o aprendizado do discípulo com Don Juan termina com um salto sobre um abismo, episódio de importância central em toda a saga e narrado pelo menos três vezes, nos finais de THE SECOND RING OF POWER (O segundo círculo do poder), THE EAGLE'S GIFT (O presente da Águia) e THE FIRE FROM WITHIN (O fogo interior). O discípulo não morre no fundo do abismo porque, no meio do salto, sua capacidade para realinhar as emanações, ou refocalizar a consciência, simplesmente leva-o a ressurgir em outro lugar. Consciência e ser - esses dois são um só alinhamento.
Como seres perceptivos, não passamos de um ponto de aglutinação para o alinhamento das emanações da Águia; é a posição desse ponto, que determina a natureza do alinhamento.
Conforme já vimos, a constituição do pólo objetivo se faz através de uma focalização específica da consciência que se chama atenção. Há diferentes "atenções", que correspondem a diferentes alinhamentos. Nossa consciência comum está fixada no que Castaneda chama Primeira Atenção, ligada ao TONAL, à vigília e ao mundo material familiar a que nos acostumamos a considerar como a única e absoluta "realidade". Mas o movimento do ponto de aglutinação à outra posição e consequentemente realinhamento de emanações, leva a focalização da consciência na Segunda Atenção, a uma outra "realidade" desconhecida, mas igualmente "real" e que pode ser dominada no sonho. O aprendizado a que Castaneda se submete, sob a orientação de Don Juan visa, acima de tudo, ao domínio da consciência para que finalmente o discípulo, unindo a Primeira e a Segunda Atenção, atinja um estágio superior, a "totalidade de si mesmo", tornando-o capaz de focalizar a Terceira Atenção e entrar na "liberdade total", o incognoscível. O processo de crescimento e conhecimento do discípulo é o de uma contínua expansão da consciência. Aprender é alcançar estados mais compreensivos da consciência.