
SÓ A MAGIA É NATURAL
A filosofia do Ocidente é, primeiro, dominada pelo objeto, a partir do período pós-socrático; isso se verifica na filosofia grega clássica, de Platão e Aristóteles, na filosofia de medieval, cristã, de Santo Agostinho e Tomás de Aquino; e até no materialismo mecanicista que é o fundamento da ciência ocidental. Depois, é dominada pelo sujeito, no seu período moderno, com Descartes e Spinosa, tanto em suas expressões racionalistas (Kant, Hegel) quanto irracionalistas (Nietzche, Kierkegaard). Esse processo histórico de errância foi chamado por Heidegger de "esquecimento do ser" e envolve a perda progressiva da intuição mais profunda dos filósofos pré-socráticos. A necessidade mais crucial do pensamento contemporâneo é a de recuperar o que foi perdido em tal processo. A doutrina de Castaneda nos restitui à perspectiva correta.
Em seu mundo, a magia é mais do que possível, é natural. Tudo se faz por mágica; as aparências em contrário são apenas distorcentes. Por isso, o aprendizado do discípulo com Don Juan termina com um salto sobre um abismo, episódio de importância central em toda a saga e narrado pelo menos três vezes, nos finais de THE SECOND RING OF POWER (O segundo círculo do poder), THE EAGLE'S GIFT (O presente da Águia) e THE FIRE FROM WITHIN (O fogo interior). O discípulo não morre no fundo do abismo porque, no meio do salto, sua capacidade para realinhar as emanações, ou refocalizar a consciência, simplesmente leva-o a ressurgir em outro lugar. Consciência e ser - esses dois são um só alinhamento.
Como seres perceptivos, não passamos de um ponto de aglutinação para o alinhamento das emanações da Águia; é a posição desse ponto, que determina a natureza do alinhamento.
Conforme já vimos, a constituição do pólo objetivo se faz através de uma focalização específica da consciência que se chama atenção. Há diferentes "atenções", que correspondem a diferentes alinhamentos. Nossa consciência comum está fixada no que Castaneda chama Primeira Atenção, ligada ao TONAL, à vigília e ao mundo material familiar a que nos acostumamos a considerar como a única e absoluta "realidade". Mas o movimento do ponto de aglutinação à outra posição e consequentemente realinhamento de emanações, leva a focalização da consciência na Segunda Atenção, a uma outra "realidade" desconhecida, mas igualmente "real" e que pode ser dominada no sonho. O aprendizado a que Castaneda se submete, sob a orientação de Don Juan visa, acima de tudo, ao domínio da consciência para que finalmente o discípulo, unindo a Primeira e a Segunda Atenção, atinja um estágio superior, a "totalidade de si mesmo", tornando-o capaz de focalizar a Terceira Atenção e entrar na "liberdade total", o incognoscível. O processo de crescimento e conhecimento do discípulo é o de uma contínua expansão da consciência. Aprender é alcançar estados mais compreensivos da consciência.
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