quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda VII


EGOMANIA - O GRANDE VILÃO

A Arte da Espreita apresenta ainda quatro exigências: impiedade, astúcia, paciência e doçura. Destas, a fundamental é a "impiedade" que não significa crueldade mas firmeza, rigor consigo próprio. O inimigo que deve ser vencido pelo guerreiro é a própria autoindulgência, o sentimento de autopiedade fundado na importância indevida que atribuímos ao nosso autoreflexo. Espreitar a si próprio significa reconhecer nessa egomania o tirano que deve ser derrubado. Segundo Don Juan, o homem dos tempos antigos, imemoriais, descobriu que, além de agir, podia prever e planejar seus atos; assim, apareceu a ideia de "eu". Quanto mais esta ideia se fixou, fortalecendo um pretenso "eu individua", mais o homem perdeu sua conexão natural com todas as coisas, através do conhecimento silencioso, em favor de um domínio cada vez maior da razão e do conceito. A guerra do guerreiro, portanto, é uma luta total, de vida ou morte, contra esse "eu individual", que privou o homem de seu poder. Para o guerreiro que busca, e portanto espreita, a impiedade é uma expressão da necessidade de eliminar a autopiedade, quebrar o espelho do autoreflexo e destruir a autoimagem, raízes de todo extravio egocêntrico.
Em suma, o fenômeno Carlos Castaneda é um dos paradoxos mais curiosos de nosso tempo. As revelações esotéricas mais sutis e detalhadas de que se tem notícia, em quaisquer círculos do exo ou esotéricos, estão sendo generosamente divulgadas para todo o mundo. Os grandes segredos estão ao alcance de todos. E o sucesso comercial dos livros é espantoso: além de se tornar feiticeiro, Castaneda ficou rico.
A contradição é apenas natural num mundo, como o nosso, cuja lei fundamental parece ser o paradoxo. E, rico ou não, Castaneda é provavelmente o mestre espiritual mais importante de nosso século. Sua doutrina está livre das heranças pesadas, eivadas de equívocos, das tradições ocidental e oriental. É uma revelação original, que brotou no Novo Mundo, para um florescimento imprevisível. Não há dúvidas que sua influência, por mais persistente que tenha parecido nas duas últimas décadas, está ainda no começo de uma ação que, certamente, se estenderá pelos anos por vir.
O impacto dessa doutrina em nossos formatos de conhecimento é inevitável. Em nossa cultura, uma visão-de-mundo é sempre expressa em prismas, ou gêneros literários, específicos. São descrições mitológicas, relgiosas, filosóficas ou científicas. A cabeça das pessoas é moldada por essas categorias e, por isso, pode ter dificuldades em entender uma visão-de-mundo que não seja vazada numa delas. A doutrina de Castaneda não é mitologia, nem religião, nem filosofia, nem ciência. Ela a chama simplesmente de conhecimento, "knowledge", um conhecimento inclassificável pelos acadêmicos. Mas é um conhecimento autêntico, uma apreensão genuína do real, que você pode perceber, de modo profundo e instantâneo, com sua intuição e sua sensibilidade.
O sucesso comercial dos livros de Castaneda é um dos resultados de sua impecabilidade na arte da espreita. Pode parecer que ele esteja, como dizia Jesus Cristo, simplesmente jogando suas pérolas aos porcos - e, em nosso mundo, como se sabe, porco é o que não falta. Mas Castaneda é, de fato, um mestre, deve saber o que está fazendo. As consequências de sua magia, de sua espreita, ainda são imprevisíveis. Prestem atenção.
(MACIEL, Luiz Carlos. Da espreita ao sonho: a doutrina de Castaneda. Revista Ano Zero. Rio de Janeiro, 1992, p. 4-11).

Nenhum comentário:

Postar um comentário