
Por José Benedito dos Santos
Escrever para algumas pessoas se parece com um gracioso jogo de palavras, um brincar com os significados que elas têm, já para outras, torna-se um grande desafio. No meu caso específico, a dificuldade de relatar minhas experiências com a palavra escrita, reside no fato de que eu nunca registrei no papel os fatos mais relevantes corridos ao longo de 50 anos da minha existência.
Nasci numa cidadezinha do interior de Alagoas, Região Nordeste, a qual tem o maior índice de analfabetos do Brasil. Para quem nasceu ali, saber ler e escrever, infelizmente, ainda é considerado um privilégio de poucos. No filme "Central do Brasil" (1998), Dora, personagem vivida pela atriz Fernanda Montenegro, lê e redige cartas para pessoas que não sabem ler e nem escrever. Inúmeras cenas do filmes exemplificam muito bem a condição de analfabetismo de uma considerável parcela da população nordestina.
Minha mãe era analfabeta, porém fazia com que os seus filhos estudassem para ser "alguém na vida". Por conta dessa preocupação, quando entrei na escola já sabia soletrar, ler e escrever as primeiras letras da cartilha. Além disso, minha avó era uma ótima contadora de histórias. Ela tinha uma enorme habilidade para contar as histórias fantásticas dos folhetins da literatura de Cordel. Que talento ela possuía para contar essas histórias, com seu jeito admirável de falar, dar vozes aos personagens. Eu passava horas ouvindo histórias de princesas que dormiam durante cem anos, de príncipes que viravam sapos, as façanhas de Lampião, a lenda do Pavão Misterioso... Ouvir essas histórias narradas por minha avó, era uma delícia. Essas narrativas orais da minha infância aguçaram o meu interesse pelo reino das palavras.
Na pequena escola que havia na fazenda onde minha família morava, os alunos estudavam até a terceira série. Se alguém quisesse estudar mais um pouco, teria que se deslocar até a cidade, que ficava distante da fazenda a cerca de dois quilômetros. Para que eu pudesse cursar a quarta série, minha mãe escolheu uma boa escola na cidade.
No primeiro dia de aula, a professora de Língua Portuguesa pediu que a turma escrevesse uma redação narrando as aventuras ocorridas nas férias. Num primeiro momento fiquei tenso. Mas, em seguida, chamei a professora e disse que eu não tinha assunto para escrever o texto. Ela ficou meio decepcionada, porém não disse nada.
Alguns meses depois, a mesma professora pediu que a turma fosse à biblioteca da escola e que cada um de nós escolhêssemos um livro de aventura para ler. A obra escolhida por mim foi "As Vinte Mil Léguas Submarinas" de Julio Verne, que tem como personagens o Capitão Nemo e o submarino Nautillus. A partir da leitura desse livro, comecei a alimentar o sonho de viajar pelo mundo e conhecer pessoas que falassem outras línguas.
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Em julho de 1980, minha mãe veio a falecer. Chorar a morte daqueles que amamos, é o que resta para os que ficaram na periferia da vida. Além de equilibrar a dor, a saudade, com as lições de vida que essa pessoa nos legou. Entretanto, essa estratégia não funcionou comigo. Recorri à produção de textos, a qual me serviu como válvula de escape para liberar a dor pela morte repentina de minha mãe. Escrevia compulsivamente para não enlouquecer. Nessa fase, imitei Álvares de Azevedo, pois o tema que brotava de cada texto era o da morte. Isso parece mórbido talvez, mas funcionou como terapia.
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Em agosto de 1983, resolvi sair de Alagoas, pois a atmosfera provinciana de Maceió estava me sufocando. Larguei o emprego de balconista numa loja de produtos para panificadora e, com o dinheiro da rescisão de contrato, comprei uma passagem só de ida para Porto Velho-Rondônia. No dia 13 de agosto, num sábado à tarde, despedi-me da minha família, dos amigos e embarquei no avião da VASP, rumo ao desconhecido.
Ao desembarcar em Porto Velho, após 12 horas de voo, finalmente, eu estava realizando o sonho de conhecer a Amazônia. Sonho esse acalentado desde que fui "fisgado" pelas histórias narradas por alguns amigos da minha família que trabalharam na construção da Transamazônica na década de 70. Quando eles retornaram para Alagoas, relataram histórias fantásticas sobre o tamanho dos rios, da floresta, da estrada...
Ao longo dos três anos em que morei na cidade de Porto Velho, procurei ler autores/obras da região. Os primeiros romances que li, foram: "Mad Maria" e "Galvez, Imperador do Acre", de Marcio Souza.
Cansei da vidinha que estava levando em Porto Velho, resolvi conhecer Roraima. Cheguei em Boa Vista em Abril de 1986. Após três dias em busca de emprego, finalmente, consegui uma vaga de Apontador de Campo, na Constutora Mendes Jr., pois a mesma estava construindo a Usina Hidroéletrica de Roraima. No final de maio, começou o período das chuvas, todos os funcionários foram demitidos. E, por esse motivo, no dia 22 de junho, peguei um avião em Boa Vista, uma hora depois, eu desembarcava no Aeroporto Internacinal Eduardo Gomes, em Manaus.
Cheguei em Manaus com pouca grana, por isso resolvi dormir na Rodoviária até conseguir um trabalho. Durante quinze dias, o banco de madeira, sujo, áspero, gasto pelo tempo, foi a minha cama. As quatro horas da manhã, o segurança pedia que eu me levantasse. No décimo quinto dia, consegui um emprego. O fato de eu ter trabalhado na Mendes Jr., em Roraima, ajudou-me bastante. Fui trabalhar numa construtora, mais um vez, como Apontador de Campo.
No primeiro dia de trabalho, conheci uma quantidade enorme de nordestinos que trabalhavam na empresa. Dois dias depois, fiz amizade com um rapaz, que era maranhense. Na hora do almoço, ele me perguntou onde eu morava. Respondi-lhe que estava dormindo na Rodoviária. Ele num gesto de boa vontade me convidou para dormir em sua casa. Todavia, quando recebi o salário da primeira quinzena, aluguei um quarto. A partir daí comecei organizar minha vida.
Em setembro de 1986, prestei concurso para os Correios. Fui aprovado em primeiro lugar para exercer o cargo de carteiro. Trabalhei nos Correios durante sete anos. Em 1993, fui demitido. Com uma parte do dinheiro da rescisão de contrato, comprei uma casa, no bairro da Alvorada I.
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Em 1996, depois de 14 anos sem estudar, resolvi voltar à sala de aula, para me atualizar e, futuramente ingressar na Universidade. Refiz as três séries do Ensino Médio(1996-1998). O sonho de ingressar na universidade teve que ser adiado por dois anos, pois na época da inscrição do vestibular, eu sempre estava sem dinheiro.
Em 2001, finalmente, prestei vestibular na Universidade Federal do Amazonas e fui aprovado no Curso de Letras-Língua Portuguesa. A minha escolha pelo Curso de Letras teve como objetivo ampliar os meus conhecimentos em literatura e, principalmente, na produção textual. Já no primeiro período da graduação, tive a grata surpresa de ter como professor Odenildo Sena, na disciplina "Comunicação em Prosa Moderna I". Ao produzir os meus primeiros textos, e ao apresentá-los na sala de aula, obtive uma ótima recepção por parte da turma e do mestre. Foi uma verdadeira massagem para o meu ego de aspirante a escritor. Porém, na avaliação intermediária da referida disciplina cometi uma gafe, quando escrevi "A maioria são...." Odenildo Sena não perdoou e escreveu "O que é isso, companheiro?" Foi a segunda trapaça que a palavra escrita me aprontou.
O meu último encontro acadêmico com a palavra escrita foi no Curso de Especialização em Língua Portuguesa com Ênfase em Produção Textual. Ao iniciar a minha produção de textos, levei algum tempo para me adequar à maneira como o professor queria que os mesmos fossem escritos na fôrma/forma de parágrafo-padrão. Todavia, fui capaz de produzir dezessete textos-filhos, os quais pari, e este foi o último rebento daquela numerosa prole. Mas também foi o que mais me causou dor/angústia/ansiedade/insônia, pois se tratava das minhas experiências com palavra escrita. Em outras palavras, para alguém que é formado em Letras, revelar publicamente que tem dificuldade para escrever, é meio constrangedor, já que é prática comum entre os professores de Língua Portuguesa reclamar, diariamente, que os seus alunos não sabem ler e nem escrever.
Nossas memórias, por mais que sejam escritas na solidão, nunca são as lembranças de uma única pessoa. Tudo que nos vem ao pensamento, sejam ideias, sejam simples anotações guardadas em alguma gaveta, estão repletas de experiências pessoais de familiares, amigos, até mesmo de pessoas desconhecidas, que em determinado momento de suas vidas, compartilharam conosco suas alegrias e tristezas. São histórias que pulsam à nossa frente, para que as recolhamos, atribuindo-lhes vidas através do sopro da escrita.
Como diria D. Juan, personagem dos livros de Carlos Castañeda "estou longe do céu onde nasci, uma imensa nostalgia invade o pensamento. Agora que estou tão só e triste, qual a folha ao vento, às vezes quero chorar, às vezes quero rir de saudade". Essa perspectiva, a do passado, no ato de ser rememorado, perde sua pureza de ter sido e torna-se presente. As experiências ocorridas no passado, ao serem lembradas, não podem ser recuperadas na sua integridade, porque se transformaram no decorrer do tempo. O que resta, portanto, é apenas o presente existencial, convergência do passado modificado pela memória.
Este é o relato da volta de um homem, após longos anos de existência, à memória de sua infância, adolescência... Uma dolorosa viagem da memória a uma ilha esquecida para resgatar a importância da leitura e da escrita na sua formação como ser humano. E, contudo, essas memórias já não são as minhas memórias. O tempo flui nelas, arrasta-as. Portanto, já não são as mesmas experiências de quando as vivi; pois a fugacidade do tempo e o fatal envelhecimento do humano fragmentaram essas lembranças no tempo e no espaço.

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