sexta-feira, 19 de setembro de 2014





A literatura negra é um imaginário que se forma, articula e transforma no curso do tempo. Não surge de um momento para outro, nem é autônoma desde o primeiro instante. Sua história está assinalada por autores, obras, temas, invenções literárias. É um imaginário que se articula aqui e ali, conforme o diálogo de autores, obras, temas e invenções literárias. É um movimento, um devir, no sentido de que se forma e transforma. Aos poucos, por dentro e por fora da literatura brasileira, surge a literatura negra, como um todo com perfil próprio, um sistema significativo (IANNI, 1988, p. 11). IANNI, Octavio. Literatura e consciência. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. Edição Comemorativa do Centenário da Abolição da Escravatura. N. 28. São Paulo: USP, 1988.   

“A literatura atua em determinados momentos históricos no sentido da união da comunidade em torno de seus mitos fundadores, de seu imaginário ou de sua ideologia, tendendo a uma homogeneização discursiva, à fabricação de uma palavra exclusiva, ou seja, aquela que pratica uma ocultação sistemática do outro, ou uma representação inventada do outro. No caso da Literatura Brasileira, este outro é o negro cuja representação é frequentemente ocultada, ou o índio cuja representação é, via de regra, inventada” (BERND, 1992, p. 21). BERND, Zilá. Literatura e identidade nacional. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1992.

Quem Morre?



Martha Medeiros

Morre lentamente Quem não viaja, Quem não lê, Quem não ouve música, Quem não encontra graça em si mesmo Morre lentamente Quem destrói seu amor próprio, Quem não se deixa ajudar. Morre lentamente Quem se transforma em escravo do hábito Repetindo todos os dias os mesmos trajeto, Quem não muda de marca, Não se arrisca a vestir uma nova cor ou Não conversa com quem não conhece. Morre lentamente Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções, Justamente as que resgatam o brilho dos Olhos e os corações aos tropeços. Morre lentamente Quem não vira a mesa quando está infeliz Com o seu trabalho, ou amor, Quem não arrisca o certo pelo incerto Para ir atrás de um sonho, Quem não se permite, pelo menos uma vez na vida, Fugir dos conselhos sensatos... Viva hoje ! Arrisque hoje ! Faça hoje ! Não se deixe morrer lentamente ! Não esqueça de ser feliz.


“É preciso não aceitar o não-lugar da África em um país como o nosso” (Laura Padilha, 2007, p. 13).
“A questão é que nós continuamos a pensar a África a partir do olhar da ex-metrópole. Estudar a África pelo prisma do ex-colonizador é um crime intelectual” (Inocência Mata, 2009, p. 6).

Palestra



Publicado em 22 Maio 2014

A conferência de abertura do evento promovido pelo Programa Nossa África, intitulada ‘A influência do modernismo brasileiro na construção da identidade literária dos países africanos de língua portuguesa’, foi proferida pelo professor José Benedito dos Santos. O palestrante destacou as influências modernistas, especialmente de autores como Jorge Amado, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Rachel de Queiroz na formação da elite intelectual de diversos países africanos de língua portuguesa.
O destaque foi para Cabo Verde, Angola, e Moçambique. Um exemplo citado pelo professor foi José Luandino Vieira, que publicou o livro de contos Luuanda. O autor chegou a enviar textos para apreciação de Jorge Amado, tal era a influência do escritor baiano em sua obra. Ernesto Lara Filho, outro escritor angolano, dizia-se capaz de “sentir” o Brasil. “Nas décadas de 1950, 1960 e 1970, obras dos escritores modernistas brasileiros entraram na imaginação coletiva dos letrados africanos”, pontuou o palestrante. “São Tomé e Príncipe é outro exemplo de literatura poderosa”, acrescentou ele, cujo destaque é Alda do Espírito Santo, dona de uma obra de enfrentamento social. Ela é autora do livro 1973, intitulado ‘É nosso o solo sagrado: poesia de protesto e luta. Disponível em:http://portal.ufam.edu.br/index.php/2013-04-29-19-37-05/noticia/2403-nossa-africa-encerra-primeiro-dia-com-palestras-sobre-literatura-e-etnobiologia.







"As literaturas africanas contemporâneas escritas em língua portuguesa, em particular a ficção de Mia Couto, ressuscitaram o herói cultural como modelo, ao mergulharem nas raízes lendárias e heroicas das nacionalidades após a descolonização do continente africano" (SANTOS, 1014, p. 1). "A construção do herói cultural em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto". In: Simpósio Nacional do Gepelip: Interculturalidade nas Literaturas de Língua Portuguesa, Jun/2014. Universidade Federal do Amazonas - UFAM.

Mia Couto

"A escrita não é uma função nem uma missão. Escrevo para ser feliz. A poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner contava histórias para que seus filhos doentes adormecessem. Escrevo para adormecer o mundo que me parece doente. E assim invento histórias". Mia Couto.

Palestra - A PRESENÇA DA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA ATRAVÉS DOS TEXTO



Desde muito cedo na história da literatura brasileira, a figura do negro foi vítima de um verdadeiro apagamento, pois a pouca referência a sua existência fixou-se apenas na sua condição de cativo. Na literatura que era aqui produzida, ainda no período colonial, e que foi escolhida pelos críticos como oficial, o negro, ativo participante do processo de formação do povo brasileiro, permaneceu por muito tempo esquecido, ou melhor, relegado à condição de um simples objeto da crueldade e da tortura de seus opressores (CAPUANO, 2008, p. 1).

FICÇÃO vs. REALIDADE

 

By JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

O que é fato e o que é invenção? Há três anos, o escritor Milton Hatoum deu conferência magistral sobre a fronteira porosa entre ficção e realidade na abertura do V Encontro de Letras e Artes em Campos dos Goytacazes (RJ), cujo tema era territórios da memória. Tive a sorte de ouvi-lo, porque os organizadores também me convidaram para falar sobre a história da língua esua relação com a identidade. Fomos juntos. No caminho, na estrada, relembramos fatos vividos desde 1981, quando nós dois, amazonenses, nos conhecemos – incrível! – em Paris, num jantar na casa do escritor peruano Julio Ramón Ribeyro.
Mas a história inacreditável que Milton Hatoum narrou para um auditório lotado que se deslumbrou, essa eu não conhecia. Foi assim. Quando ele era professor na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em 1984, foi procurado pelo conhecido jornalista inglês, Bob Misleading, da BBC, que preparava reportagem sobre o cientista britânico Joseph Oversea, assassinado por um índio, em meados do século XIX, nos arredores de Manaus. Milton conhecia muito bem relatos de vários naturalistas que viajaram pela Amazônia, mas nunca ouvira falar naquele nome:
- Joseph Ovearsea? I don't know.
Bob explicou que o cientista era desconhecido porque era gay e viveu em plena era vitoriana. Por isso, foi censurado pelo puritanismo dominante e condenado ao anonimato. A rainha Vitória, nos 64 anos de seu reinado, manteve-o no ostracismo, apagou-o dos arquivos e até proibiu a publicação do seu livro, onde havia um desenho a bico de pena que retratava uma cachoeira em Manaus.
- Quero localizar esta cachoeira, que é o túmulo do Oversea, morto, em 1850, com uma flechada que lhe perfurou o coração, atirada por um índio Passé – disse Bob, exibindo para Milton a gravura dentro do livro. Acrescentou que a reportagem que preparava para a BBC era a forma de tornar conhecido o injustiçado cientista.
A cachoeira
Não foi tarefa fácil. Hatoum conhece bem Manaus, mas a cidade mudou muito depois de século e meio de história. De lá pra cá, igarapés foram aterrados, rios morreram e viraram esgoto, ruas ocuparam o lugar da floresta, carros substituíram canoas. O escritor convidou o jornalista a percorrer os bairros em busca de cachoeiras. Passaram pela Cachoeirinha na terceira ponte, visitaram o Tarumã, o Mindu, as Pedreiras, observando tudo, até que na subida do bairro de São Jorge, se detiveram na Cachoeira Grande, que serviu ao primeiro sistema de captação de água de Manaus.
- Foi aqui – gritou Hatoum, animado.
O jornalista Bob Misleading confirmou, depois de comparar a paisagem que via com a gravura antiga. Fez, então, ali mesmo, várias tomadas para a BBC: shots, takes and the devil at four. À noite, jantaram uma costela de tambaqui no Canto da Peixada. O gringo, que era chegado numa cachaça, emborcou dez caipirinhas. Chegou no hotel catando cavaco. No dia seguinte, voltou pra Londres, Milton foi dar aulas na Universidade e os dois não se falaram mais.
Cinco anos depois, Milton Hatoum decidiu fazer uma biografia do naturalista assassinado. Entrou em contato com uma amiga que morava em Washington, pedindo que buscasse dados sobre Joseph Ovearsea na Biblioteca do Congresso, que tem tudo o que foi publicado no planeta terra. No entanto, no acervo com 160 milhões de títulos, entre os quais 40 milhões de livros catalogados e 70 milhões de manuscritos em mais de 500 idiomas, nada havia sobre o mencionado cientista. Nem uma vírgula. A férrea censura vitoriana tinha sido eficaz.
Intrigado, Hatoum viajou a Londres e procurou o jornalista no endereço da BBC, em Portland Place, mas Bob havia sido demitido. Uma secretária chamada Scarlett forneceu o telefone da Bloomberg TV, onde ele agora fazia uns bicos. Marcaram um encontro num pub em Portobello Road, no bairro Notting Hill. Lá, numa taverna hash house, que é o nosso popular dirty foot, Milton falou de seu projeto literário e perguntou onde podia consultar documentos relativos a Oversea. A resposta foi uma gargalhada de Bob, que continuava cachaceiro e já estava na décima dose de dry gim:
- Milton, eu não te falei? Joseph Oversea foi uma invenção minha, eu criei o personagem e a história.
- E a imagem da cachoeira?
- Ah, essa foi uma gravura que retirei do livro A narrative of travels of the Amazon and Rio Negro do botânico Alfred Russel Wallace.

Caboco Suburucu

O auditório, hipnotizado, escutava Milton Hatoum, que discorreu sobre a ambiguidade entre o real e o ficcional sempre presente na literatura. Comentou que um texto ficcional não é um relato factual do que aconteceu, mas aquilo que poderia ter acontecido, que explode na consciência e na memória do escritor e toma forma de discurso. Concluiu sua conferência com frase de impacto:
- Oversea não existia, mas passou a existir depois que Bob o inventou e existe agora, para vocês, neste momento em que acabo de contar sua história.
O público aplaudiu efusivamente o conferencista, grato pelo sopro que deu vida a Oversea. Fiquei tão maravilhado, achei tão engenhosa a forma de expor a questão que sai repetindo a história em minhas aulas, nas rodas de conversa e nos mares da vida. Um mês depois, viajo a Brasília e encontro lá Thiago de Mello, para quem faço um resumo da conferência, ainda embriagado de entusiasmo. O poeta me ouve com um sorriso moleque e quando termino diz:
- O Milton já tinha me contado. Mas ele não te falou que esse jornalista da BBC também não existe? Nunca existiu, nem o cientista, nem o jornalista. Ambos são personagens do Milton Hatoum, essa história nunca aconteceu, é tudo invenção do escritor.
Fiquei mais maravilhado ainda com esse final e o incorporei à narrativa que costumo fazer em sala de aula. Numa das vezes, uma aluna me perguntou:
- Professor, e o Thiago de Mello? Ele existe mesmo?
Com o espírito do Milton Hatoum, respondi que se o Thiago de carne e osso existe, eu não sei e também não importa. Sei que ele é um personagem, uma invenção dos cabocos amazonenses e dos leitores espalhados pelo mundo, incluindo a própria aluna perguntadora, que conhecia "Os Estatutos do Homem" traduzido para mais de 30 idiomas. Thiago de Mello existe porque é lido com prazer e, agora, aos 88 anos, surge como candidato a uma vaga na Academia Brasileira de Letras que nunca abrigou um amazonense e, portanto, não será inteiramente brasileira, enquanto uma de suas cadeiras não for ocupada por um caboco suburucu popa de lancha, bandeira azul.
P.S. Como o tema se prestava para tal, preenchi com a imaginação as lacunas da memória sobre a conferência, que foi efetivamente dada em outubro de 2011, em Campos. Invoco o testemunho do próprio Milton e da professora de literatura brasileira da Universidade Federal Fluminense, Stefania Chiarelli, presente no carro na viagem para Campos e que também deu uma conferência sobre o seu livro Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum publicado em 2007. O referido é verdade e dou fé.
http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2014/08/24/o-poeta-thiago-de-mello-existe/

sábado, 7 de junho de 2014

Novelas brasileiras passam imagem de país branco, critica escritora moçambicana

Novelas brasileiras passam imagem de país branco, critica escritora moçambicana

17/04/2012 - 16h35
Alex Rodrigues
Repórter da Agência Brasil

Brasília - "Temos medo do Brasil." Foi com um desabafo inesperado que a romancista moçambicana Paulina Chiziane chamou a atenção do público do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF). Ela se referia aos efeitos da presença, em Moçambique, de igrejas e templos brasileiros e de produtos culturais como as telenovelas que transmitem, na opinião dela, uma falsa imagem do país.
"Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo", criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país.
"De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal", sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país.  
A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora. "Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular", destacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições.
Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir.
"Gosto muito dos poetas de meu país, mas nunca encontrei na literatura que os homens escrevem o perfil de uma mulher inteira. É sempre a boca, as pernas, um único aspecto. Nunca a sabedoria infinita que provém das mulheres", disse Paulina, lembrando que, até a colonização europeia, cabia às mulheres desempenhar a função narrativa e de transmitir o conhecimento.  
"Antes do colonialismo, a arte e a literatura eram femininas. Cabia às mulheres contar as histórias e, assim, socializar as crianças. Com o sistema colonial e o emprego do sistema de educação imperial, os homens passam a aprender a escrever e a contar as histórias. Por isso mesmo, ainda hoje, em Moçambique, há poucas mulheres escritoras", disse Paulina.
"Mesmo independentes [a partir de 1975], passamos a escrever a partir da educação europeia que havíamos recebido, levando os estereótipos e preconceitos que nos foram transmitidos. A sabedoria africana propriamente dita, a que é conhecida pelas mulheres, continua excluída. Isso para não dizer que mais da metade da população moçambicana não fala português e poucos são os autores que escrevem em outras línguas moçambicanas", disse Paulina.
Durante a bienal, foi relançado o livro Niketche, uma história de poligamia, de autoria da escritora moçambicana.

quinta-feira, 27 de março de 2014




"Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de idade. Está com quarenta, quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde está a sua babá fazendo tricô. Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco e a babá.
Tem uma vaga lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é o tempo. Como eu era inocente. Como meus olhos eram limpos. O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás. O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos anos, como eu vou ser sentimental!" (VERÍSSIMO, Luís Fernando. História estranha. In: Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004, p. 17).

terça-feira, 25 de março de 2014

“Há frases assim felizes. Nascem modestamente,  como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo, à semelhança das idéias. As próprias idéias nem sempre conservam o nome do pai; 
muitas aparecem órfãs, nascidas de nada e de ninguém.  Cada um pega delas, verte-as como pode, e vai levá-las à feira, onde todos as têm por suas" (ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: edições de Ouro.(biografia , introdução e  notas de M. Cavalcanti Proença).

sábado, 15 de março de 2014




A natureza ri da cultura - Milton Hatoum

Para Benedito Nunes 

"Naquela época me pareceu um texto enigmático, mas a leitora de 1959 não é a leitora desta noite. Hoje, ao relê-lo tantas vezes, soa como um manifesto poético de um narrador-personagem que abandona um país europeu para morar numa região equatorial. com o passar do tempo, o personagem percebe, apreensivo, que o estigma de ser estrangeiro já menos visível: algo no seu comportamento ou na sua voz se turvou, perdeu um pouco do relevo original. Nesse momento, as origens do estrangeiro sofreu um abalo. A viagem permite a convivência com o outro, e aí reside a confusão, a fusão de origens, perda de alguma coisa, surgimento de um outro olhar. Viajar, pergunta o personagem de Delatour, não é canibalismo?Todo viajante, mesmo o mais esclarecido, corre o risco de julgar o outro. Consciente ou não, intencional ou superficial, tal julgamento quase sempre deforma o rosto alheio, e esse rosto deformado espelha os horrores do estrangeiro. Nesse convívio com o estranho, o narrador privilegia o olhar: o desejo de possuir e de ser possuído, a entrega e a rejeição, o temor de se perder no outro" HATOUM, Milton. "A natureza ri da cultura". In: A cidade Ilhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 95-103.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014


CANÇÃO PARA LUANDA - Luandino Vieira

A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
– Luanda onde está?
Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

– Xê
mana Rosa peixeira

– Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!

“Ola almoço, ola amoçoéé
matona calapau
ji ferrera ji ferrerééé”
– E você
mana Maria quitandeira
vendendo maboque
os seios-maboque
gritando
saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
“maboque m’boquinha boa
dóce dócinha”

– Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!

Zefa mulata
o corpo vendido
batom nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo seu corpo

– seu corpo-cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
– Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
– precisa comer!

– Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casas antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
trator derrubou?

Meninos nas ruas
caçambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?
– Manos
Rosa peixeira

quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
– Luanda onde está?

Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira

quitandeira Maria
Zefa mulata
– os panos pintados
garridos
caídos
mostraram o coração.
– Luanda está aqui!

(1957).

sábado, 22 de fevereiro de 2014



Motivo- Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

“Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é recordar-se
ao que em nosso redor gira.
Mesmo quando alguém acorda
para um fiapo de vida,
como o que, tanto aparato
que me cerca me anuncia:
esse bosque de espingardas
mudas, mas logo assassinas,
sempre à espera dessa voz
que autorize o que é sua sina,
esses padres que as invejam
por serem mais efetivas
que os sermões que passam largo
dos infernos que anunciam.”

 João Cabral de Mello Neto. O Auto do Frade. 1984, p. 3.
Quase - Mário de Sá-Carneiro

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

HABITAÇÃO - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (poeta portuguesa)

Muito antes do chalé
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada 
Isto é habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses

Isso depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas

Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

"A globalização, falsa universalização do mundo pela economia, tende não a unir, mas a unificar (a indiferenciar) os repertórios pelos meios de comunicação. E, quaisquer que sejam as reivindicações particularistas, essa unificação se faz em termos de des-cultura. Cultura implica seleção, atribuição de sentido e de valor. Uma cultura universal, que consistisse na comunicação entre as culturas particulares sem que estas fossem brutalmente abafadas, parece um ideal impossível” (PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 204).
Fanatismo - Florbela Espanca

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

(Livro de Soror Saudade, 1923).

Canção do Mar - Dulce Pontes



Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo

Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo

Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo.
É de Manuel Bandeira (1975, p. 39) o seguinte comentário: “[...] a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia."

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase, 
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar. 
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. 
só quero torná-la grande, 
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma)

a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
Fernando Pessoa



"Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 a C., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu].
MAR PORTUGUÊS - Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, 
Quantos filhos em vão rezaram! 
Quantas noivas ficaram por casar 
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Rios sem discurso - João Cabral de Melo Neto



Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma se comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.