segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Aves de arribação – Antônio Sale




Capítulo 1

“Ele pratica em seu eu a mutilação da consciência, …”
“…, manchas de ricos são enfeites, …”

Capítulo 2

“… fora daquelas tristes paredes onde enjaulavam a sua jovem carne dolorosa.”

Capítulo 3

“Isso de começar em meio modesto para transportar-se depois aos grandes centros era um processo bom para os timoratos e medíocres. As águias começam a voar do alto das montanhas.”
“– Tinha graça se eu fosse enrabichar-me por aquela matutinha! É chic o diabinho! Boa pele, lindos olhos, bons dentes e uma boca! Corpo delicioso! Um bocado de rei, caramba! E nada estúpida; com alguns meses de regime mundano dava uma mulherzinha muito apresentável. Acerca de dinheiro e família, temos conversado. Excelente para encher os ócios de um exilado; mas quanto a casamento, livra! Fora a pieguice! Preciso de mulher que tenha chelpa e pai alcaide. Casamento de amor já não se usa. O idiota que cair ali terá que, mais dias menos dias, aguentar com o peso daquele exército de crianças de nomes arrevesados. Isso de casar com matutas é bom para o pobre do Gomes da Costa, que tem os pulmões tão fracos como o espírito. O pobre-diabo só fala em bois, veste calça branca com fraque preto e está perdendo as noções do alfabeto. E olhem que deixou um nome na Faculdade! Enfim, como a mulher é rica e ele tísico(…)”

Capítulo 5

“Nada existia de comum entre os dois senão essa sentimentalidade artificial que nasce de enxerto no espírito e só produz flores híbridas, incapazes de simbolizar o afeto humano em sua formosa simplicidade. Eram dois atores …, em plena vida real, no cenário … de um passatempo sem consequência.”

Capítulo 7

“Os homens engraçados nunca são muito felizes em amores porque sua índole brincalhona prejudica as afeições profundas. Às vezes mais ganha quem faz chorar do que quem faz rir.”

Capítulo 8

“O – amo-te – requer a afonia ciciante dos segredos, devendo a distância da boca ou ouvido ser tão curta que as palavras parecem suspiros articulados.”
“… na sua admiração pelos fortes, precocemente procurou tornar-se invulnerável às pieguices da vida.”
“-… O ser tem três pavimentos – cabeça, coração e carne. – A arte de ser forte consiste em tornar interdito o pavimento médio e transformar os seus habitantes – os sentimentos – em puras entidades cerebrais, como as ideias, as ambições, os raciocínios. O pavimento inferior é, por sua natureza, o mais exposto às influências da baixa camada da vida, camada que é feita de animalidades. Vocês, sentimentais, não se governam absolutamente pela cabeça: fazem da poesia e do instinto um misto a que dão o nome de amor, com exclusão da pura função genésica, sem ilusão, sem compaixão, sem responsabilidade moral. Nós outros, os cerebrais, damos ao coração a mínima importância possível e repelimos toda a identificação dele com o instinto que governamos à vontade como animais inteligentes que somos. Napoleão, por ser um general de gênio, nunca deixou de ser um homem, mas nem por isso mulher alguma conseguiu atrapalhar a sua carreira, como aconteceu com Marco Antônio.
– Então … a mulher é um instrumento de prazer.
– Não, é um animal como o homem: o nosso comércio é uma troca de sensações; nenhum fica a dever nada um ao outro por isso. Se ela é fraca, nós não temos nada com isso; faça-se forte, torne-se nossa igual, mas não nos venha entibiar o ânimo com a sua perniciosa sentimentalidade.”

Capítulo 9

“Egoísmo, ceticismo e audácia, tais são os três ângulos sobre os quais a inteligência se levanta para apoderar-se da massa fetichista da turba ignara.”
“Estava com uma como saudade de seus olhos cândidos, de seu rostozinho rosado, infantil ainda, e onde seria divinamente grato colher um beijo, sem malícia, naturalmente, como se colhe de passagem o fruto de uma planta criada por Deus para regalo dos homens. Por que haviam estes de torturar a si mesmos, arquitetando essa moral opressora e mesquinha, tão contrária aos instintos, tão incompatível com as leis naturais que regem a missão natural da espécie?”
“Em substância um amante amado é mais legítimo do que um marido que se tolera para ter uma posição respeitável na sociedade.”
“Nessa noite foi para a casa de Bilinha numa excitação que reclamava sensações fortes, expansões brutais e implacáveis.”

Capítulo 10

“Que diabo! há tanto meio de gozar sem responsabilidades e sem consequências!”

Capítulo 12

“A imaginação de Florzinha voava penosamente, produzindo uma dor em cada surto das asas que uma farsa fizera sangrar.”
Capítulo 13
“… como se um corpo em fúria de amor palpitasse insaciado por baixo daquela túnica translúcida.”
Capítulo 15
“O que nós precisávamos era de um ditador inteligente por dez anos.”

Capítulo 17

“… evitando descer ao âmago do sentimento, onde a dor latente latejava, pronta a sangrar ao primeiro contato da realidade.”
“Os seus soluços valiam por juramentos de um pacto de vida e morte, contra o qual nada pode uma vontade estranha.”

Capítulo 18


“Para o nosso egoísmo, a dor própria é a única que nos interessa, e, fora dela, todas as outras se amesquinham, se diluem, tornando-nos surdos aos reclamos da solidariedade humana. Mendigo não dá esmola a mendigo.”
“Há sempre no homem uma persistência sensível dos traços morais da infância; na mulher, porém, esses traços, como as folhas iniciais das plantas cotiledôneas, nada deixam antever do que será a individualidade futura, e mesmo os progenitores e pessoas íntimas experimentam grandes surpresas verificando a profunda transformação moral por que passa uma menina que se faz mulher.”
“… expondo-a sem véu aos olhos sem venda.”
“…leira arroteada, tépida e úmida, sucessivamente aquecida pelo sol da esperança e rorejada das lágrimas condensadas no cérebro, como vapores que subissem da efervescência do sangue.”
“A princípio lhe era indiferente e até preferível que ele não voltasse; mas agora o seu amor próprio, a sua carne desejavam o contrário.”
“O coração das virgens morre sem testamento, porque morrem com ele todos os seus dons e graças.”
“E ela ficara ali, no fundo daquele triste lar povoado dos espectros dos seus sonhos, para ser um dia conduzida, mutilada d’alma, inútil para a vida, à cela fria de um claustro como uma inválida do amor…”

sexta-feira, 28 de agosto de 2015



Colheita
Nélida Piñon

Um rosto proibido desde que crescera. Dominava as paisagens no modo ativo de agrupar frutos e os comia nas sendas minúsculas das montanhas, e ainda pela alegria com que distribuía sementes. A cada terra a sua verdade de semente, ele se dizia sorrindo. Quando se fez homem encontrou a mulher, ela sorriu, era altiva como ele, embora seu silêncio fosse de ouro, olhava-o mais do que explicava a história do universo. Esta reserva mineral o encantava e por ela unicamente passou a dividir o mundo entre amor e seus objetos. Um amor que se fazia profundo a ponto de se dedicarem a escavações, refazerem cidades submersas em lava.

A aldeia rejeitava o proceder de quem habita terras raras. Pareciam os dois soldados de uma fronteira estrangeira, para se transitar por eles, além do cheiro da carne amorosa, exigiam eles passaporte, depoimentos ideológicos. Eles se preocupavam apenas com o fundo da terra, que é o nosso interior, ela também completou seu pensamento. Inspirava-lhes o sentimento a conspiração das raízes que a própria árvore, atraída pelo sol e exposta à terra, não podia alcançar, embora se soubesse nelas.

Até que ele decidiu partir. Competiam-lhe andanças, traçar as linhas finais de um mapa cuja composição havia se iniciado e ele sabia hesitante. Explicou à mulher que para a amar melhor não dispensava o mundo, a transgressão das leis, os distúrbios dos pássaros migratórios. Ao contrário, as criaturas lhe pareciam em suas peregrinações simples peças aladas cercando alturas raras.

Ela reagiu, confiava no choro. Apesar do rosto exibir naqueles dias uma beleza esplêndida a ponto de ele pensar estando o amor com ela por que buscá-lo em terras onde dificilmente o encontrarei, insistia na independência. Sempre os de sua raça adotaram comportamento de potro. Ainda que ele em especial dependesse dela para reparar certas omissões fatais.

Viveram juntos todas as horas disponíveis até a separação. Sua última frase foi simples: com você conheci o paraíso. A delicadeza comoveu a mulher, embora os diálogos do homem a inquietassem. A partir desta data trancou-se dentro de casa. Como os caramujos que se ressentem com o excesso da claridade. Compreendendo que talvez devesse preservar a vida de modo mais intenso, para quando ele voltasse. Em nenhum momento deixava de alimentar a fé, fornecer porções diárias de carpas oriundas de águas orientais ao seu amor exagerado.

Em toda a aldeia a atitude do homem representou uma rebelião a se temer. Seu nome procuravam banir de qualquer conversa. Esforçavam-se em demolir o rosto livre e sempre que passavam pela casa da mulher faziam de conta que jamais ela pertencera a ele. Enviavam-lhe presentes, pedaços de toicinho, cestas de pêra, e poesias esparsas. Para que ela interpretasse através daqueles recursos o quanto a consideravam disponível, sem marca de boi e as iniciais do homem em sua pele.

A mulher raramente admitia uma presença em sua casa. Os presentes entravam pela janela da frente, sempre aberta para que o sol testemunhasse a sua própria vida, mas abandonavam a casa pela porta dos fundos, todos aparentemente intocáveis. A aldeia ia lá para inspecionar os objetos que de algum modo a presenciaram e eles não, pois dificilmente aceitavam a rigidez dos costumes. Às vezes ela se socorria de um parente, para as compras indispensáveis. Deixavam eles então os pedidos aos seus pés, e na rápida passagem pelo interior da casa procuravam a tudo investigar. De certo modo ela consentia para que vissem o homem ainda imperar nas coisas sagradas daquela casa.

Jamais faltou uma flor diariamente renovada próxima ao retrato do homem. Seu semblante de águia. Mas, com o tempo, além de mudar a cor do vestido, antes triste agora sempre vermelho, e alterar o penteado, pois decidira manter os cabelos curtos, aparados rentes à cabeça — decidiu por eliminar o retrato. Não foi fácil a decisão. Durante dias rondava o retrato, sondou os olhos obscuros do homem, ora o condenava, ora o absolvia: porque você precisou da sua rebeldia, eu vivo só, não sei se a guerra tragou você, não sei sequer se devo comemorar sua morte com o sacrifício da minha vida.

Durante a noite, confiando nas sombras, retirou o retrato e o jogou rudemente sobre o armário. Pôde descansar após a atitude assumida. Acreditou deste modo poder provar aos inimigos que ele habitava seu corpo independente da homenagem. Talvez tivesse murmurado a algum dos parentes, entre descuidada e oprimida, que o destino da mulher era olhar o mundo e sonhar com o rei da terra.

Recordava a fala do homem em seus momentos de tensão. Seu rosto então igualava-se à pedra, vigoroso, uma saliência em que se inscreveria uma sentença, para permanecer. Não sabia quem entre os dois era mais sensível à violência. Ele que se havia ido, ela que tivera que ficar. Só com os anos foi compreendendo que se ele ainda vivia tardava a regressar. Mas, se morrera, ela dependia de algum sinal para providenciar seu fim. E repetia temerosa e exaltada: algum sinal para providenciar meu fim. A morte era uma vertente exagerada, pensou ela olhando o pálido brilho das unhas, as cortinas limpas, e começou a sentir que unicamente conservando a vida homenagearia aquele amor mais pungente que búfalo, carne final da sua espécie, embora tivesse conhecido a coroa quando das planícies.

Quando já se tornava penoso em excesso conservar-se dentro dos limites da casa, pois começara a agitar nela uma determinação de amar apenas as coisas venerandas, fossem pó, aranha, tapete rasgado, panela sem cabo, como que adivinhando ele chegou. A aldeia viu o modo de ele bater na porta com a certeza de se avizinhar ao paraíso. Bateu três vezes, ela não respondeu. Mais três e ela, como que tangida à reclusão, não admitia estranhos. Ele ainda herói bateu algumas vezes mais, até que gritou seu nome, sou eu, então não vê, então não sente, ou já não vive mais, serei eu logo o único a cumprir a promessa?

Ela sabia agora que era ele. Não consultou o coração para agitar-se, melhor viver a sua paixão. Abriu a porta e fez da madeira seu escudo. Ele imaginou que escarneciam da sua volta, não restava alegria em quem o recebia. Ainda apurou a verdade: se não for você, nem preciso entrar. Talvez tivesse esquecido que ele mesmo manifestara um dia que seu regresso jamais seria comemorado, odiaria o povo abundante na rua vendo o silêncio dos dois após tanto castigo.

Ela assinalou na madeira a sua resposta. E ele achou que devia surpreendê-la segundo o seu gosto. Fingia a mulher não perceber seu ingresso casa adentro, mais velho sim, a poeira colorindo original as suas vestes. Olharam-se como se ausculta a intrepidez do cristal, seus veios limpos, a calma de perder-se na transparência. Agarrou a mão da mulher, assegurava-se de que seus olhos, apesar do pecado das modificações, ainda o enxergavam com o antigo amor, agora mais provado.

Disse-lhe: voltei. Também poderia ter dito: já não te quero mais. Confiava na mulher; ela saberia organizar as palavras expressas com descuido. Nem a verdade, ou sua imagem contrária, denunciaria seu hino interior. Deveria ser como se ambos conduzindo o amor jamais o tivessem interrompido.

Ela o beijou também com cuidado. Não procurou sua boca e ele se deixou comovido. Quis somente sua testa, alisou-lhe os cabelos. Fez-lhe ver o seu sofrimento, fora tão difícil que nem seu retrato pôde suportar. Onde estive então nesta casa, perguntou ele, procure e em achando haveremos de conversar. O homem se sentiu atingido por tais palavras. Mas as peregrinações lhe haviam ensinado que mesmo para dentro de casa se trazem os desafios.

Debaixo do sofá, da mesa, sobre a cama, entre os lençóis, mesmo no galinheiro, ele procurou, sempre prosseguindo, quase lhe perguntava: estou quente ou frio. A mulher não seguia suas buscas, agasalhada em um longo casaco de lã, agora descascava batatas imitando as mulheres que encontram alegria neste engenho. Esta disposição da mulher como que o confortava. Em vez de conversarem, quando tinham tanto a se dizer, sem querer eles haviam começado a brigar. E procurando ele pensava onde teria estado quando ali não estava, ao menos visivelmente pela casa.

Quase desistindo encontrou o retrato sobre o armário, o vidro da moldura todo quebrado. Ela tivera o cuidado de esconder seu rosto entre cacos de vidro, quem sabe tormentas e outras feridas mais. Ela o trouxe pela mão até a cozinha. Ele não se queria deixar ir. Então, o que queres fazer aqui? Ele respondeu: quero a mulher. Ela consentiu. Depois porém ela falou: agora me siga até a cozinha.

— O que há na cozinha?

Deixou-o sentado na cadeira. Fez a comida, se alimentaram em silêncio. Depois limpou o chão, lavou os pratos, fez a cama recém-desarrumada, tirou o pó da casa, abriu todas as janelas quase sempre fechadas naqueles anos de sua ausência. Procedia como se ele ainda não tivesse chegado, ou como se jamais houvesse abandonado a casa, mas se faziam preparativos sim de festa. Vamos nos falar ao menos agora que eu preciso?, ele disse.

— Tenho tanto a lhe contar. Percorri o mundo, a terra, sabe, e além do mais...

Eu sei, ela foi dizendo depressa, não consentindo que ele dissertasse sobre a variedade da fauna, ou assegurasse a ela que os rincões distantes ainda que apresentem certas particularidades de algum modo são próximos a nossa terra, de onde você nunca se afastou porque você jamais pretendeu a liberdade como eu. Não deixando que lhe contasse, sim que as mulheres, embora louras, pálidas, morenas e de pele de trigo, não ostentavam seu cheiro, a ela, ele a identificaria mesmo de olhos fechados. Não deixando que ela soubesse das suas campanhas: andou a cavalo, trem, veleiro, mesmo helicóptero, a terra era menor do que supunha, visitara a prisão, razão de ter assimilado uma rara concentração de vida que em nenhuma parte senão ali jamais encontrou, pois todos os que ali estavam não tinham outro modo de ser senão atingindo diariamente a expiação.

E ela, não deixando ele contar o que fora o registro da sua vida, ia substituindo com palavras dela então o que ela havia sim vivido. E de tal modo falava como se ela é que houvesse abandonado a aldeia, feito campanhas abolicionistas, inaugurado pontes, vencido domínios marítimos, conhecido mulheres e homens, e entre eles se perdendo pois quem sabe não seria de sua vocação reconhecer pelo amor as criaturas. Só que ela falando dispensava semelhantes assuntos, sua riqueza era enumerar com volúpia os afazeres diários a que estivera confinada desde a sua partida, como limpava a casa, ou inventara um prato talvez de origem dinamarquesa, e o cobriu de verdura, diante dele fingia-se coelho, logo assumindo o estado que lhe trazia graça, alimentava-se com a mão e sentia-se mulher; como também simulava escrever cartas jamais enviadas pois ignorava onde encontrá-lo; o quanto fora penoso decidir-se sobre o destino a dar a seu retrato, pois, ainda que praticasse a violência contra ele, não podia esquecer que o homem sempre estaria presente; seu modo de descascar frutas, tecendo delicadas combinações de desenho sobre a casca, ora pondo em relevo um trecho maior da polpa, ora deixando o fruto revestido apenas de rápidos fiapos de pele; e ainda a solução encontrada para se alimentar sem deixar a fazenda em que sua casa se convertera, cuidara então em admitir unicamente os de seu sangue sob condição da rápida permanência, o tempo suficiente para que eles vissem que apesar da distância do homem ela tudo fazia para homenageá-lo, alguns da aldeia porém, que ele soubesse agora, teimaram em lhe fazer regalos, que, se antes a irritavam, terminaram por agradá-la.

— De outro modo, como vingar-me deles?

Recolhia os donativos, mesmo os poemas, e deixava as coisas permanecerem sobre a mesa por breves instantes, como se assim se comunicasse com a vida. Mas, logo que todas as reservas do mundo que ela pensava existirem nos objetos se esgotavam, ela os atirava à porta dos fundos. Confiava que eles próprios recolhessem o material para não deteriorar em sua porta.

E tanto ela ia relatando os longos anos de sua espera, um cotidiano que em sua boca alcançava vigor, que temia ele interromper um só momento o que ela projetava dentro da casa como se cuspisse pérolas, cachorros miniaturas, e uma grama viçosa, mesmo a pretexto de viver junto com ela as coisas que ele havia vivido sozinho. Pois quanto mais ela adensava a narrativa, mais ele sentia que além de a ter ferido com o seu profundo conhecimento da terra, o seu profundo conhecimento da terra afinal não significava nada. Ela era mais capaz do que ele de atingir a intensidade, e muito mais sensível porque viveu entre grades, mais voluntariosa por ter resistido com bravura os galanteios. A fé que ele com neutralidade dispensara ao mundo a ponto de ser incapaz de recolher de volta para seu corpo o que deixara tombar indolente, ela soubera fazer crescer, e concentrara no domínio da sua vida as suas razões mais intensas.

À medida que as virtudes da mulher o sufocavam, as suas vitórias e experiências iam-se transformando em uma massa confusa, desorientada, já não sabendo ele o que fazer dela. Duvidava mesmo se havia partido, se não teria ficado todos estes anos a apenas alguns quilômetros dali, em degredo como ela, mas sem igual poder narrativo.

Seguramente ele não lhe apresentava a mesma dignidade, sequer soubera conquistar seu quinhão na terra. Nada fizera senão andar e pensar que aprendeu verdades diante das quais a mulher haveria de capitular. No entanto, ela confessando a jornada dos legumes, a confecção misteriosa de uma sopa, selava sobre ele um penoso silêncio. A vergonha de ter composto uma falsa história o abatia. Sem dúvida estivera ali com a mulher todo o tempo, jamais abandonara a casa, a aldeia, o torpor a que o destinaram desde o nascimento, e cujos limites ele altivo pensou ter rompido.

Ela não cessava de se apoderar das palavras, pela primeira vez em tanto tempo explicava sua vida, tinha prazer de recolher no ventre, como um tumor que coça as paredes íntimas, o som da sua voz. E, enquanto ouvia a mulher, devagar ele foi rasgando o seu retrato, sem ela o impedir, implorasse não, esta é a minha mais fecunda lembrança. Comprazia-se com a nova paixão, o mundo antes obscurecido que ela descobriu ao retorno do homem.

Ele jogou o retrato picado no lixo e seu gesto não sofreu ainda desta vez advertência. Os atos favoreciam a claridade e, para não esgotar as tarefas a que pretendia dedicar-se, ele foi arrumando a casa, passou pano molhado nos armários, fingindo ouvi-Ia ia esquecendo a terra no arrebato da limpeza. E, quando a cozinha se apresentou imaculada, ele recomeçou tudo de novo, então descascando frutas para a compota enquanto ela lhe fornecia histórias indispensáveis ao mundo que precisaria apreender uma vez que a ele pretendia dedicar-se para sempre. Mas de tal modo agora arrebatava-se que parecia distraído, como pudesse dispensar as palavras encantadas da mulher para adotar afinal o seu universo.

“A palavra é sempre perseguida por aqueles que desejam impedir que ela seja arma do homem na sua luta por uma vida melhor, de paz, fartura e alegria". Jorge Amado, em o "Tempo Magazine", Portugal em 1979.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015






MONÓLOGO DE TUQUINHA BATISTA
Aníbal Machado (1894-1964)(In: A Morte da Porta-estandarte)

“ Não Mundinha pra Zona Sul eu não vou já disse que não vou pra lá não Betsy que não quero me perder e cá no meu subúrbio eu sou Tuquinha Tuquinha Batista T. B. meu nome em toda parte eu quase choro agradecida T. B. nos muros T. B. no tronco das árvores no mamoeiro na porta da igreja como largar minha gente ficar longe das letras de meu nome não Mundinha não me tentes mais estou quase noiva isto é não estou mas meu noivo vem vindo já apareceu na bola de cristal a cartomante disse que por enquanto ele aparece só pra ela todo dourado nadando num fundo azul e que é parecido com Clark Gable mas eu queria que ele parecesse com aquele que viajou no pingente uma vez na véspera do Ano-Bom ele me olhava de fora pela vidraça e o trem dava cada solavanco e ele se equilibrava a cara bonita atrás rindo tentando a gente rindo e cantando parecia até um demônio eu de repente fiquei apaixonada e até hoje quando vejo vidraça olha aquele lindo me tentando querendo se apossar da gente nunca mais que apareceu só a lembrança do rosto dele sorrindo sempre vai ver é um pilantra feito aquele “fala-macio” que levou Raimunda para Copacabana dizendo que lá sabiam apreciar uma morena feito ela que ela ia virar girl e arranjava um bom contrato que o subúrbio era triste e tia Milu uma chata não sei como você permitiu que esse atrevido ofendesse nossa tia querida e que aconteceu depois você passou de mão em mão mudou até de nome antes era Raimunda na água benta do vigário Mundinha pra nós e agora Betsy na televisão Betsy com ipicilone meu Deus e aquelas pernas e os peitos todos se mostrando se a titia visse apanhavas uma coça e você ainda veio me dizer ontem no telefone que os homens hoje só gostam é disso que sem-vergonheira
Mundinha pra lá não vou
já te disse que não vou
tinha até graça não é eu virar Betsy de jeito nenhum aqui sou a T. B. pra todo mundo a Tuquinha dos rapazes e até do barulho dos trens eu gosto passam tantos debaixo da minha janela eu vejo os passageiros num relâmpago tem um maquinista que diz adeus da janelinha nas noites de sábado os rapazes vêm me buscar e vamos seguindo o rumo de uma batucada lá em cima o morro é uma beleza depois vêm me trazer com todo o respeito tem alguns que querem me apertar me abraçar eu quase deixo depois eu entro correndo tiro a roupa pra dormir e eles ficam na esquina cantando abre a janela formosa mulher e eu durmo gostoso que nenhum trem me acorda mais do sonho ah Mundinha enquanto isso você está de Betsy em Copacabana usando piteira fingindo de tarada parecendo até mulher da vida com aquele decote que é só indecências e eu tive de esconder pra titia não morrer de vergonha ela viu nem percebeu graças a Deus que ela está enxergando mal embaixo estava escrito Betsy mas se via que era Mundinha mesmo coitada estavas até bonita Deus me perdoe eu acho que pecado dá uma animação no corpo um feitiço danado até que a Zona Sul embeleza as mulheres é a luz da boca do inferno e as moças daqui ficam só perguntando qual foi o filme que você apareceu ouviram dizer que você agora é estrela de cinema ah eu queria tanto ser estrela estrela de verdade lá no céu eu disse que não sabia Mun-dinha não me conta nada no telefone está só me tentando pra eu ir pra Copacabana perguntou se eu já vi a revista e que eu deixasse de ser boba minhas pernas ainda eram mais bonitas que as dela e eu devia de aproveitar pois hoje o que vale mesmo é perna bonita eu hein Rosa não Mundinha já disse que não vou pra Zona Sul ah não vou
elas lá só fazem botar biquíni se rebolar na areia depois o mar é que leva a culpa de jeito nenhum pra aqueles lados eu não vou nem de caixeirinha nem de costureira ficam insistindo que precisam de dactilógrafa eu disse que não sei eles respondem que até é melhor assim eu sei bem o que eles querem trabalhar não é então você trabalha Mundinha me diga francamente na fotografia só te vejo rindo rindo você está rindo por demais e que dentes bonitos mudou também de dentes tudo mudou na minha irmãzinha querida agora é Betsy na boite Betsy no Arpoador Betsy de motocicleta na garupa dos blue-jeans sorrindo pros fotógrafos Deus me livre só querem saber do corpo por que é que o “fala-macio” não quis levar a Mariazinha do bordado que sabe tanto e é trabalhadeira outro dia mesmo falou um tempão com uns americanos na língua deles só porque é desmilinguida de corpo ah eu sei o que eles querem eu sei o que está valendo praqueles lados os meus pés eu lá não ponho mais quando menos se espera a desinfeliz tá dentro de um carro que é uma beleza de carro subindo pra Tijuca com música no rádio e uma porção de mãos agarrando a gente o que eles querem é só pegar pegar no começo até que a gente gosta depois dá uma raiva uma aflição tenho até nojo dos homens minha tia sempre me preveniu que lá a gente perde a alma como aquela sem-vergonha da Luisinha que Deus tenha coitada bebeu formicida e se arrebentou na calçada em frente ao posto quatro toda descomposta e agora o que ficou dela
ah pra lá não vou não vou neem
vou me ficando por aqui mesmo perto dos meus canteiros e do mamoeiro ouvindo o barulho desses trens que um dia me acabarei debaixo de um se Deus me abandonar e esta vida não prestar mais pois você não vê Raimunda que é impossível tinha até graça Tuquinha de vedete os gaviões avançando querendo arrastar T. B. para a barra da Tijuca e o empresário chegando logo com a fita métrica no peito nas coxas pra tomar as medidas vou lá me deixar
pra Zona Sul
Mundinha nem que eu morra
e pelo amor de Deus não mande mais o “fala-macio” me procurar que ele sempre me deixa quebranto e eu amanheço amolengada aborrecida vai-te satanás que eu sou moça de princípios isto é não sou mais mas vou me arrepender o vigário limpa tudo na alma de uma conspurcada fita métrica são os braços de meu bem quando ele me abraçar oh quando será que ele vem tomara que o rosto seja parecido com o louro da vidraça me espiando me namorando os cabelos soltos na velocidade até Madureira ah eu quero amar muito amar pra valer muito mesmo estou ate apaixonada antes da hora sem saber ainda quem seja e eu gosto tanto quando desço pro trabalho de manhã cedinho ouvir o pessoal dizer T. B. alô Tuquinha e depois na retreta os rapazes cavando votos pra mim não que eu faça questão de ser rainha no começo eu queria só pra fazer raiva à Guitinha que quis tomar meu namorado e andou dizendo que eu era irmã de uma prostituta mas agora não me importo afinal de contas depois que a gente fica rainha de alguma coisa acho até que vai dar enjôo chegam os fotógrafos da cidade querem que a gente vá logo mostrando as pernas depois telefonam fazendo propostas indecentes não é à toa que estão dizendo que tudo agora no mundo é perna só perna não sei como isso vai acabar não maninha
pra Zona Sul jamais
jamais meu bem eu vou
lá só querem saber é do corpo mesmo quero só ver o dia que Deus castigar e o teu corpo envelhecer ninguém mais vai ler esse nome nas revistas enquanto T. B. está aqui no tijolo dos muros T. B. a canivete no tronco das árvores ah meu Deus tem horas debaixo do caramanchão quando a lua bate em cima dos trilhos que eu fico cismando casar para quê será que Betsy tem razão o “fala-macio” disse que ainda espera a minha resposta às vezes eu fico quase aquele sem-vergonha que pena ser tão bonito nunca vi olhos assim tão negros nem sabe se comportar no automóvel deixou a mão boba caída na minha barriga eu dei um tapa larguei ele empalidecido no meio do caminho ah acho que eu quero mesmo é chorar tem horas neste mundo que tudo fica triste triste sofrer é da vida eu também estou convencida hoje Tuquinha não está boa carece de um consolo eu ligo o rádio e cadê a voz de Ângela Maria só minha tia rezando e os trens passando tudo tão triste aquele demônio o pessoal está combinando uma surra nele quando vier caçar vedetes aqui no subúrbio minha irmãzinha eu gostaria tanto se tu me dissesse que Betsy é infeliz Tuquinha ficou tão triste mas já está passando o melhor é não pensar o louro da vidraça foi só um relâmpago e não quero me lembrar mais vou dar um jeito no vestido que o Dr. Santos proibiu que a filha usasse e ela me deu de presente e eu fui com ele no baile e fiquei que nem Lolobrígida que lindeza quase ganhei meu noivo aquela noite todo mundo queria ser mas eu não dei bola pra nenhum fiquei soberana acho que foi nesse momento que nasceu a idéia de me fazerem rainha tanto assim que no jogo de domingo me chamaram pra dar o primeiro chute e eu só ouvia as palmas e o pessoal gritando nas arquibancadas Tuquinha Tuquinha T. B. é a maior já ganhou vê lá Betsy se tem disso na Zona Sul eu sei que nunca mais voltarás ó maninha nem pra ver tia Milu se acabando mas eu gosto de você assim mesmo ouviu gosto até ainda mais depois que você foi se embora e está levando essa vida desbragada meu consolo é pensar que seu corpo é um e você é outra seu corpo é de Betsy e você é a irmãzinha querida eu às vezes também fico tentada pensando abraços imaginando coisas mas tomo logo um banho de chuveiro e passa outras vezes eu pego naquele vestido que você mandou pra mim nem parece que foi usado mas não vou botá-lo não quem disse você me desculpe Mundinha ele tem um perfume escuro esquisito que quando eu fui cheirar eu vi você nuinha dentro dele parece coisa que o vestido estava me chamando me chamando pros pecados da Zona Sul
e pra lá eu não vou
já disse que não vou
tou pensando num que vai ficar uma beleza no caso de eu sair eleita e é quase certo estão dizendo até que a Guitinha vai desistir graças a Deus que o nariz dela é grande demais mas eu não quero ser injusta ela dança melhor do que eu e a danada tem uma voz bonita ah isto tem sejamos justa eu fico tão aflita faltam apenas trinta e poucos dias e o desfile vai ser esplendoroso estou na dúvida mas acho que eu vou é de organdi mesmo eu queria musselina azul-celeste que é mais macia e torna a gente mais vaporosa quando o vento bate nas formas mas o dinheiro não vai dar que hei de fazer minhas amigas vêm ajudar as amigas aqui são amigas de verdade na Zona Sul não tem disso não tia Milu pediu pra eu não ir de tomara-que-caia mas esta noite estive pensando muito em botar uma faixa da cintura até às cadeiras por causa das curvas pois essas curvas eu já notei ajudam bastante o galeio do corpo na dança e os homens ficam impacientes na fila esperando a vez não deixam a gente descansar nem um minuto não sei ainda é a cor eu acho que vai ser solferino e lilás ainda vou pensar a costureira disse que se a faixa for bonita demais ninguém vai olhar pro meu busto que é o que eu tenho de mais bonito como já disse aquele sonso do “fala-macio” que Deus te livre e eu nem quero pensar nele mais pois não sou serelepe feito a Betsy que graças a Deus tenho consciência e sou de boa formação o meu corpo eu não vendo nem pro Ali-Khan há três meses deixei de jantar pra poder comprar o diadema a prestações talvez nem seja preciso no caso de eu sair rainha isso depende do resultado porque aí então eles oferecem a coroa que vai ser uma maravilha os rapazes vão fazer um comício monstro com a bateria na frente e uma porção de faixas com T. B. escrito já tem até uma letra de samba rimando com T. B. e a linda palavra coração no fim eu acho que estou eleita mesmo depois vou me esbaldar até cair tonta no meio das serpentinas que na batida do pandeiro ninguém sofre e eu não fico tão triste e hei de me lembrar por todo o sempre dessa noite que para ela só faltam trinta e poucos dias Virgem Santíssima trinta e poucos dias e estou até com medo parece o expresso da manhã que vem avançando e então vai ser a vitória e eu tenho que sorrir o tempo todo e jogar beijos sem conta pro povo ai meu Deus até que a vida aqui é bem boa e eu vou sair agorinha mesmo aproveitar o solzinho lá fora e comprar os aviamentos que esta manhã de tão bonita só ela já dá pra gente ser feliz não Mundinha não Betsy de jeito nenhum
pra Zona Sul
nem morta eles me levam núncaras o que eu quero é amar amar de verdade mas muito muito mesmo e eu tinha tanto que te contar minha irmãzinha
oh volta Raimunda
volta meu bem.”

domingo, 5 de julho de 2015



“Nada é novo, contudo. As histórias estão tatuadas nas gentes, talhadas nas pedras, calcadas nas árvores, delineadas na terra, submersas nas águas. Todos podem lê-las convenientemente. É questão de querer descer ao chão e escutar, com amor, os corações subterrâneos. Aí estão as legendas remotas, os mitos sagrados, os hieróglifos eternos, os totens propiciatórios. Aí estão os homens e os bichos, a música e as figuras, os hábitos e as cerimônias. Tudo é relevo quando conscientemente analisado. Não há mistérios. Há silêncio nas interpretações” (Abguar Bastos. Terra de Icamiaba. Rio de Janeiro: Andersen, 1934, p. 5). 

"A Amazônia é ainda uma das pátrias do mito, onde ainda existe uma unidade entre pensamento e a vida numa constante interação de estímulos e afirmação. A Amazônia estará livre quando reconhecermos definitivamente que essa natureza é a nossa cultura, onde uma árvore derrubada é como uma palavra censurada e um rio poluído é como uma página rasurada. A luta pela Amazônia está no processo geral de libertação dos povos oprimidos" (SOUZA, 1978, p. 39). 

“A Amazônia não nasce direta ou limpidamente brasileira. Começa por ser principalmente indígena, nativa. Aos poucos, revela-se portuguesa, colonial. Em seguida, afirma-se cabana, revolucionária. Depois, é definida como brasileira, nacional. Situa-se no mapa do Brasil com imensa geografia e surpreendente história. Mas continuará sendo simultaneamente indígena, portuguesa, cabana e brasileira; assim como um momento da sociedade mundial.
É assim que a Amazônia passa a fazer parte do mapa do mundo: como realidade geográfica e histórica. E também se constitui como fabulação mítica. São muitos, no Brasil, na América Latina e no mundo, os que elegeram a Amazônia como um momento especial, estranho ou fascinante, da natureza. São muitos os que preferem o mito, a metáfora do paraíso. Mas a Amazônia é principalmente história. História no sentido de atividades sociais, econômicas, políticas e culturais.
História no sentido de controvérsias, lutas e realizações. A própria geografia pode ser vista como uma sucessão de desenhos demarcando os movimentos da história. O que parece natureza é a figuração dos indivíduos e coletividades apropriando-se da terra, como objeto e meio de produção. A rigor, são as formas de organização social da vida e trabalho que criam e recriam a natureza, seja quando ela é embelezada, seja quando mutilada. Em todos os casos, está sendo humanizada, isto é, historicizada.
Esta é uma história fundamental. Nela, revelam-se tanto o colonialismo e o imperialismo quanto o nativismo e o nacionalismo. Aqui, revelam-se os ciclos, as lutas, as realizações e as perspectivas que constituem a Amazônia. Assim se podem visualizar as configurações e os movimentos que a inserem no mapa do Brasil e no mapa do mundo” (IANNI, 2004, p. 7- 8). 
IANNI, Octavio. Apresentação. IN; O paiz do Amazonas. SILVA, Marilene Corrêa da. Manaus: Editora Valer/Governo do Estado do Amazonas/Uninorte, 2004. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015





A ESCRAVIDÃO - Tobias Barreto
Se é Deus quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.
Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus,
Em delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!