FRAGMENTOS DE UMA
VIDA EM CONSTRUÇÃO
José Benedito dos Santos (UFAM)
Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com
sete anos de idade. Está com quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo
chutando uma bola perto de um banco [...] Não tem a menor dúvida de que é ele
mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco [...] Tem uma vaga
lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de
repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se,
põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de
lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é
o tempo. Como eu era inocente. Como os meus olhos eram limpos. O homem tenta
dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a si mesmo,
longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás.
O garoto fica
olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando,
aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos anos, como eu vou ser
sentimental (Luís Fernando Veríssimo)
.
Escrever
para algumas pessoas se parece com um gracioso jogo de palavras, um brincar com
os significados que elas têm, já para outras, torna-se um grande desafio. No
meu caso específico, a dificuldade de relatar minhas experiências com a palavra
escrita reside no fato de que eu nunca registrei no papel os fatos mais
relevantes ocorridos ao longo de 50 anos da minha existência.
Nasci numa
cidadezinha do interior de Alagoas, Região Nordeste, a qual tem o maior índice
de analfabetos do Brasil. Para quem nasceu ali, saber ler e escrever,
infelizmente, ainda é considerado um privilégio de poucos. No filme “Central do
Brasil” (1998), Dora, personagem vivida pela atriz Fernanda Montenegro lê e
redige cartas para dezenas de pessoas analfabetas. Algumas cenas dos filmes
exemplificam muito bem esta condição de analfabetismo de uma considerável parcela
da população nordestina.
Minha mãe
era analfabeta, porém, fazia com que os seus filhos estudassem para ser “alguém
na vida”. Por conta dessa preocupação, quando entrei na escola já sabia
soletrar, ler e escrever as primeiras letras da cartilha. Apesar de minha avó
materna ser, também, analfabeta, era uma ótima contadora de estórias. Ela tinha
uma enorme habilidade, para contar as dezenas de estórias dos folhetins da
Literatura de cordel. Que talento ela possuía para narrar essas estórias, com
seu jeito admirável de falar, dar vozes aos personagens. Eu passava horas
ouvindo estórias de princesas que dormiam durante cem anos, de príncipes que
viravam sapos, as façanhas do cangaceiro Lampião, a lenda do Pavão
Misterioso... Ouvir essas narrativas orais, durante minha infância, despertou o
meu interesse pelo reino das palavras.
Na pequena
escola que havia na fazenda, onde minha família morava, os alunos estudavam até
a terceira série primária. Se alguém quisesse estudar mais um pouco, teria que
se deslocar até a cidade, que ficava distante da fazenda acerca de dois
quilômetros. Para que eu pudesse cursar a quarta série, minha mãe escolheu uma
boa escola na cidade.
No primeiro
dia de aula, a professora de Língua Portuguesa pediu que a turma escrevesse uma
redação sobre as aventuras ocorridas nas férias. Num primeiro momento fiquei
tenso, mas em seguida, chamei a professora e disse que eu não tinha assunto,
para escrever o texto, ela ficou meio decepcionada, porém não disse nada. Alguns
meses depois, a mesma professora pediu que a turma fosse à biblioteca da escola
e que cada um de nós escolhesse um livro de aventura para ler. A obra escolhida
por mim foi “As vinte mil léguas submarinas”, de Júlio Verne, que tem como
personagens o Capitão Nemo e o submarino Nautillus.
A partir da leitura desse livro, comecei a alimentar o sonho de viajar pelo
mundo e conhecer pessoas que falassem outras línguas.
Em julho de
1980, minha mãe veio a falecer. Chorar a morte daqueles que amamos é o que
resta, para os que ficaram na periferia da vida. Além de equilibrar a dor, a
saudade, com as lições de vida que essa pessoa nos legou. Entretanto, essa
estratégia não funcionou comigo. Recorri à produção de textos, a qual me serviu
como válvula de escape, para liberar a dor pelo falecimento de minha mãe, escrevia
compulsivamente, para não enlouquecer. Nessa fase, imitei Álvares de Azevedo,
pois o tema que brotava de cada texto era o da morte. Isso parece mórbido talvez,
mas funcionou como terapia.
Em agosto de
1983, resolvi sair de Alagoas porque a atmosfera provinciana de Maceió estava
me sufocando. Larguei o emprego de balconista numa loja de produtos para
panificadora e, com o dinheiro da rescisão de contrato, comprei uma passagem só
de ida para Porto Velho-Rondônia. No dia 13 de agosto de 1983, num sábado à
tarde, despedi-me da minha família, dos amigos e embarquei em um avião da VASP,
rumo ao desconhecido.
Ao
desembarcar na cidade de Porto Velho, após 12 horas de voo, finalmente, eu
estava realizando o sonho de conhecer a Amazônia. Sonho esse acalentado, desde
que fui “fisgado” pelas histórias narradas por alguns amigos da minha família, que
trabalharam na construção da Transamazônica na década de 70. Quando voltaram
para Alagoas, eles relatavam histórias fantásticas sobre o tamanho dos rios, da
floresta, da estrada...
Ao longo dos
três anos em que morei na cidade de Porto Velho, procurei ler autores/obras da
região. Os primeiros romances que li, foram: “Mad Maria” e “Galvez, imperador
do Acre”, do escritor amazonense Márcio Souza.
Após três
anos morando em Porto Velho, cansei da vidinha que estava levando, resolvi
conhecer Roraima. Cheguei à cidade de Boa Vista, em abril de 1986. Após três
dias em busca de emprego, finalmente, consegui uma vaga de apontador de campo,
na Construtora Mendes Jr., pois a mesma estava construindo a Usina Hidrelétrica
de Roraima. No final de maio, começou o período das chuvas, por isso todos os
funcionários foram demitidos. E, por conta disso, no dia 22 de junho de 1986,
peguei um avião em Boa Vista, uma hora depois, eu desembarcava no Aeroporto
Internacional Eduardo Gomes em Manaus.
Cheguei a
Manaus com pouca grana, por isso, resolvi dormir na Rodoviária até conseguir um
trabalho. Durante quinze dias, o banco de madeira, sujo, áspero, gasto pelo
tempo, foi a minha cama. Às quatro horas da manhã, o segurança pedia que eu me
levantasse. No décimo quinto dia, finalmente, consegui um emprego. O fato de eu
ter trabalhado na construtora Mendes Jr., em Roraima, ajudou-me bastante. Fui
trabalhar, mais uma vez, como apontador de campo.
No primeiro
dia de trabalho, conheci uma quantidade enorme de nordestinos que trabalhava na
empresa. Dois dias depois, fiz amizade com um rapaz, que era do Maranhão. Na hora
do almoço, ele me perguntou onde eu morava. Respondi-lhe que estava dormindo na
Rodoviária. Ele num gesto de boa vontade me convidou para morar em sua casa.
Todavia, quando recebi o salário da primeira quinzena, aluguei um quarto. A
partir daí, comecei organizar minha vida.
Em setembro
de 1986, prestei concurso para a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos
(ECT), fui aprovado em primeiro lugar, para exercer o cargo de carteiro. Neste
mesmo ano, também, fui aprovado em segundo lugar no vestibular da Universidade
Federal do Amazonas, infelizmente, não pude cursar Ciências Contábeis porque
não tinha comigo o certificado do Ensino Médio. Trabalhei nos Correios durante
sete anos. Em 1993, fui demitido. Com uma parte do dinheiro da rescisão de
contrato, comprei uma casa no bairro da Alvorada I, onde resido até o presente
momento.
Em 1996,
depois de 15 anos sem estudar, resolvi voltar à sala de aula, para me atualizar
e, futuramente ingressar na Universidade. Refiz as três séries do Ensino Médio (1996-1998).
O sonho de ingressar na universidade teve que ser adiado, por dois anos, porque,
na época da inscrição do vestibular, eu nunca tinha dinheiro.
Em 2001,
finalmente, prestei vestibular na Universidade Federal do Amazonas e fui
aprovado no Curso de Letras – Língua e Literatura Portuguesa. A minha escolha
por este curso teve como objetivo ampliar meus conhecimentos literários e,
principalmente aprimorar a produção textual. Já no primeiro período da
graduação, tive a grata surpresa de ter como professor Odenildo Sena na
disciplina “Comunicação em Prosa Moderna I”. Ao produzir os meus primeiros
textos, e ao apresentá-los na sala de aula, obtive uma ótima recepção por parte
da turma e do mestre. Foi uma verdadeira massagem para o meu ego de aspirante a
escritor. Porém, na avaliação intermediária da referida disciplina, cometi uma
gafe, quando escrevi: “A maioria são...”. O professor Odenildo Sena não me
perdoou e escreveu: “O que é isso, companheiro?”.
O meu último
encontro acadêmico com a palavra escrita foi, no Curso de Especialização em
Língua Portuguesa com ênfase em produção textual, na Universidade Federal do
Amazonas, em 2007. Ao iniciar a minha produção de textos, levei algum tempo
para me adequar à maneira como o professor queria que os mesmos fossem escritos
na fôrma/forma de parágrafo-padrão. Todavia, fui capaz de parir dezessete
textos-filhos e, este, foi o último rebento daquela numerosa prole, mas também,
foi o que mais me causou dor, angústia, ansiedade, insônia, porque se tratava
das minhas experiências com palavra escrita. Em síntese, para alguém que é
formado em Letras – Língua e Literatura Portuguesa ─, revelar publicamente que
tem dificuldade com a escrita é meio constrangedor, já que é prática comum reclamarmos
que nossos alunos não sabem ler e nem escrever.
Nossas
memórias, por mais que sejam escritas na solidão nunca são as lembranças de uma
única pessoa. Tudo que nos vem ao pensamento, sejam ideias, sejam simples
anotações guardadas em alguma gaveta, elas estão repletas de experiências
pessoais, de familiares, amigos, companheiros, até mesmo de pessoas desconhecidas
que em determinado momento de suas vidas compartilharam conosco suas alegrias e
tristezas.
Como diria
D. Juan, personagem dos livros de Carlos Castañeda, “Estou longe do céu onde
nasci uma imensa nostalgia invade o pensamento. Agora que estou tão só e
triste, qual a folha ao vento, às vezes quero chorar, às vezes quero rir de
saudade”.
Essa perspectiva, a do passado, no ato de ser rememorado, perde sua pureza de
ter sido e torna-se presente. As experiências ocorridas no passado, ao serem
lembradas, não podem ser recuperadas na sua integridade porque se transformaram
no decorrer do tempo. O que resta, portanto, é apenas o presente existencial,
convergência do passado modificado pela memória.
Este é o
relato da volta de um homem, após longos anos de existência, à memória de sua
infância, adolescência, maturidade... Uma dolorosa viagem à memória, a uma ilha
esquecida e traiçoeira, para resgatar a importância da leitura e da escrita na
sua formação como ser humano. E, contudo, essas memórias já não são as minhas
memórias. O tempo flui nelas, arrasta-as. Portanto, já não são as mesmas
experiências de quando as vivi; pois a fugacidade do tempo e o fatal
envelhecimento do humano fragmentaram essas lembranças no tempo e no espaço.