quarta-feira, 14 de novembro de 2018




Marta Cortezao
O livro ficou lindo, por fora e, por dentro, mais ainda! Fragmentos do prefácio, escrito por mim. Parabéns aos organizadores José Benedito Dos Santos KenediAzevedo Francisca De LourdesLouro Elaine Andreatta e Rita Barbosa de Oliveira. Foi uma honra falar do trabalho de vocês. Sucesso!
A coletânea “Múltiplos olhares sobre a Literatura constitui-se de dezessete artigos e uma crônica, cuja coordenação pertence aos pesquisadores José Benedito dos Santos, Rita do Perpétuo Socorro Barbosa de Oliveira, Kenedi Santos Azevedo, Elaine Pereira Andreatta e Francisca de Lourdes Souza Louro. É um desses livros que, desse privilegiado mirante, possibilita ao leitor ou à leitora não apenas apreciar harmonioso Ajuri Literário, mas também sentir-se partícipe dele. É uma obra realizada a muitas e experientes mãos, em fértil solo acadêmico, onde o clima, propiciado por nobres gentilezas e sinceras amizades, sazonou significativa messe. Este afortunado ajuntamento literário é um convite a conhecer, provar, degustar e saborear precioso sumo (made in Amazonas) da ampla, dinâmica, caleidoscópica e diversa literatura produzida em solos brasileiro, lusitano, angolano e moçambicano”. 

terça-feira, 3 de julho de 2018



“Ser acusado de não ter ligação a este planeta e a seus povos pode ser surpreendente para uma considerável camada daqueles que nasceram em um país, foram criados em outro, educados em um terceiro, casaram-se, tiveram filhos e enterraram seus entes queridos em um quarto, um quinto e um sexto país. E ainda aos que viveram e trabalharam em sete e ou oito outros países e agora podem ser obrigado a pedir naturalização em um nono lugar devido ao Brexit. Pode também ser novidade para todos nós que fomos forçados a fugir, desesperados, de nossos países de origem em consequência de guerra, fome, doenças, terrorismo, perseguição e desastres de ordem tanto natural quanto financeira”. Bahiyyih Nakhjavani. O alforje. Tradução Rubens Figueiredo. Porto Alegre: Dublinense, 2017, p. 10.

terça-feira, 26 de junho de 2018


“Começar pelas palavras talvez não seja coisa vã. As relações entre os fenômenos deixam marcas no corpo da linguagem”. BOSI, Alfredo.  Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 11.   

sexta-feira, 22 de junho de 2018



FUGA DA MORTE - Paul Celan

Leite negro da aurora bebemos-te à tarde
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à noite
e bebemos bebemos
cavamos um túmulo no ar onde não se há de estar apertado
Mora um homem na casa que lida com cobras que escreve
quando descem as sombras escreve à Alemanha teu áureo cabelo Margarete
ele escreve e se afasta da casa e cintilam estrelas assovia chamando os mastins
e assovia judeus seus judeus cavem fundo uma cova na terra
agora nos manda tocar para a dança
Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à tarde
e bebemos bebemos
Mora um homem na casa ele brinca com cobras e escreve
quando baixam as sombras escreve à Alemanha teu áureo cabelo Margarete
Teu cabelo de cinza Sulamita cavamos um túmulo no ar onde não se há se estar apertado
Grita cavem mais fundo essa terra vocês acolá vocês cantem e toquem
pega o ferro do cinto balança-o seus olhos azuis
cavem fundo essas pás vocês estes aqueles não parem a música a dança
Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à tarde
e bebemos bebemos
mora um homem na casa teu áureo cabelo Margarete
teu cabelo de cinza Sulamita ele brinca com cobras
Grita toquem a morte mais doce é a morte um dos mestres senhor da Alemanha
grita toquem mais sombra os violinos depois subam como fumaça
e hão de ter uma cova nas nuvens que lá não se fica apertado
Leite negro da aurora bebemos-te à noite
bebemos-te à tarde é a morte um dos mestres senhor da Alemanha
bebemos-te à noite ou bem cedo e bebemos bebemos
a morte é um mestre senhor da Alemanha seu olho é azul
ele acerta-te a bala de chumbo te acerta na mosca
mora um homem na casa teu áureo cabelo Margarete
ele atiça os mastins contra nós e nos dá uma cova nos ares
ele lida com cobras e sonha é a morte um dos mestres senhor da Alemanha
teu áureo cabelo Margarete
teu cabelo de cinza Sulamita

(Tradução de Renato Suttana)
Nota do tradutor: Na tradução deste poema, tentei reproduzir o ritmo anapéstico do original. Onde isso não foi possível, optei pela fidelidade ao sentido. Os versos "dein goldenes Haar Margarete / dein aschenes Haar Sulamith" ("teus cabelos dourados Margarete / teus cabelos de cinza Sulamita"), tão importantes no contexto, são evidentemente intransponíveis para o português sem o sacrifício desse ritmo. 






"Tudo o que ele tem de especial, de anormal, de misterioso, fica reservado para a sua literatura e não para a sua vida. A obra de Machado de Assis esclareceu o "mistério" Machado de Assis. Os romances do Sr. Graciliano Ramos esclarecerão mais tarde o “mistério” Graciliano Ramos. Onde se encontra, pois, a dificuldade para essa analise esclarecedora? Encontra-se na circunstância de ser o Sr. Graciliano Ramos um autor contemporâneo, uma figura que encontramos nas ruas todos os dias. Essa proximidade determina a existência de obstáculos invencíveis. Outros obstáculos decorrem do respeito com que o crítico esta sempre obrigado a tratar a figura pessoal de um autor vivo, pois somente a morte confere o direito de um julgamento definitivo, de uma interpretação minuciosa e profunda. Acho que seria uma violência projetar sobre um autor ainda vivo todos os elementos de análise que a sua obra oferece. Não tanto pelo autor em si mesmo, com uma consciência literária capaz de aceitar todos os exercícios da crítica, como pelos rigores da vida ordinária. Imagine-se um ministro da Viação que suspeitasse da psicologia de Machado de Assis todo o conhecimento que a sua obra hoje revela com uma categoria de certeza...
Deixemos pois, para os dias de amanhã, o que pode emergir de mais sugestivo num estudo crítico sobre o Sr. Graciliano Ramos: a interpretação da sua figura psicológica através dos seus romances: o que nos fica permitido hoje, neste sentido, e uma análise limitada. Um estudo que se detêm mais sobre o romance do que sobre o romancista" (LINS, p. 72-94). LINS, Álvaro. "Valores e misérias das vidas secas". Posfácio. In: RAMOS, Graciliano. Vidas secas.

“A medida temporal da experiência simbólica é o instante místico, na qual o símbolo recebe o sentido em seu interior oculto e por assim dizer, verdejante. Por outro lado, a alegoria não está livre de uma dialética correspondente, e a calma contemplativa, com que ela mergulha no abismo que separa o Ser visual e a Significação, nada tem da autossuficiência desinteressada que caracteriza intenção significativa, e com a qual ela tem afinidades aparentes. [...] Ao passo que no símbolo, com a transfiguração do declínio, o rosto metamorfoseado da natureza se revela fugazmente à luz da redenção, a alegoria mostra ao observador a face hipócrita da história como protopaisagem petrificada. A história em tudo que nela desde o início é prematuro, sofrido e malogrado, se exprime num rosto não, numa caveira” (BENJAMIN, Walter. 1984, p. 187-188).


"Logo depois transferiram para o trapiche o depósito dos objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava. Estranhas coisas entraram então para o trapiche. Não mais estranhas, porém, que aqueles meninos, moleques de todas as cores e de idades as mais variadas, desde os nove aos dezesseis anos, que à noite se estendiam pelo assoalho e por debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que circundava o casarão uivando, indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava, mas com os olhos puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos presos às canções que vinham das embarcações..." (AMADO, 2003, p. 20). Jorge Amado. Capitães da areia. Rio de Janeiro: Record, 2003. 

“O poeta está fora da linguagem, vê as palavras do avesso, como se não pertencesse à condição humana, e, ao dirigir-se aos homens, logo encontrasse a palavra como uma barreira. Em vez de conhecer as coisas antes por seus nomes, parece que tem com elas um primeiro contato silencioso e, em seguida, voltando-se para essa outra espécie de coisas que são, para ele, as palavras, tocando-as, tateando-as, palpando-as, nelas descobre uma pequena luminosidade própria e afinidades particulares com a terra, o céu; a água e todas as coisas criadas. Não sabendo servir-se da palavra como signo de um aspecto do mundo, vê nela a imagem de um desses aspectos” (SARTRE, 2004, p. 14). 

sábado, 2 de junho de 2018




"A escrita é uma coisa, e o saber outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram. Assim o baobá já existe em potencial em sua semente" (Tierno Bokar, 2010, p. 167).
"Outra exigência imperativa é de que a história e a cultura da África devem pelo menos ser vistas de dentro, não sendo medidas por réguas de valores estranhos... Mas essas conexões têm que ser analisadas nos termos de trocas mútuas, e influências multilaterais em que algo seja ouvido da contribuição africana para o desenvolvimento da espécie humana" (Joseph Ki-Zerbo, 2010, p. 52).

“Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação” (Jorge Luís Borges).


"É difícil a gente compreender bem as criaturas e não creio que possamos conhecer ninguém a fundo, a não ser os nossos compatriotas. Pois os homens não somente eles; são também a região onde nasceram, a fazenda [...], onde aprenderam a andar, os brinquedos que brincaram quando crianças, as lendas que ouviram dos mais velhos, a comida de se alimentaram, as escolas que frequentaram, os esportes em que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que acreditaram. Todas essas coisas fizeram deles o que são, e estas coisas ninguém pode conhecê-las somente por ouvir dizer, e sim se as tiver sentido. Só pode conhecê-las quem é parte delas" (MAUGHAN, 2002, p. 17). 
MAUGHAN, W. Somerset. O fio da navalha. Tradução Lígia Junqueira Smith. São Paulo: Globo, 2002



Um dos últimos números de 2017 da revista científica Third World Quarterly, dedicada aos estudos pós-coloniais, incluía um artigo de autoria de Bruce Gilley, da Universidade Estadual de Portland, intitulado “Em defesa do colonialismo”.
Eis o resumo do artigo: “Nos últimos cem anos, o colonialismo ocidental tem sido muito maltratado. É chegada a hora de contestar esta ortodoxia. Considerando realisticamente os respectivos conceitos, o colonialismo ocidental foi, em regra, tanto objetivamente benéfico como subjetivamente legítimo na maior parte dos lugares onde ocorreu. Em geral, os países que abraçaram a sua herança colonial tiveram mais êxito do que aqueles que a desprezaram. A ideologia anticolonial impôs graves prejuízos aos povos a ela sujeitos e continua a impedir, em muitos lugares, um desenvolvimento sustentado e um encontro produtivo com a modernidade. Há três formas de Estados fracos e frágeis recuperarem hoje o colonialismo: reclamando modos coloniais de governação; recolonizando certas áreas; e criando novas colônias ocidentais”.


"Já não é pelo confronto com o retrato ou com a figura do duplo apresentada pelo espelho que o sujeito se põe à prova, mas pela construção de uma presença do sujeito mais próxima do decalque e do sombreado" . Claire Larsonneur [Org.], Le Sujet digital, Les Presses du Réel, Paris, 2015, p. 03.
 



"A partir das literaturas africanas de língua portuguesa e dos mecanismos por elas desenvolvidos para recuperar uma tradição que fora sufocada pelo colonialismo, é possível identificar uma acentuada tendência de se retomarem as representações do velho, o guardador da memória do povo, e com elas compreender peculiaridades da cultura ancestral, tal como se evidencia em projetos de nação e de nacionalidade, assumidos como plataforma das lutas pela independência, nos espaços africanos de língua portuguesa. É interessante observar que a passagem do sistema colonial a etapas de construção da identidade nacional, na maioria dos países africanos de língua portuguesa, marcou-se pela ênfase no resgate dos costumes típicos de cada povo, principalmente a tradição que reverencia a terra e os ancestrais. As diferentes expressões de terra e as figurações do espaço natural, a geografia, a paisagem, a flora e a fauna compõem, assim, o referencial identitário das novas nações. A terra é o topos da identidade cultural, modelada pelos costumes preservados pela palavra dos antepassados, ensinada aos vivos desde a infância. A ancestralidade é o referencial identitário que irmana as diferentes gerações. Neste contexto, a literatura acentua uma feição celebrativa ou evocativa, em que a infância, como metáfora da origem, torna-se o lugar da possibilidade de igualdade e a tradição ancestral é valorizada para recompor significados modelados pelos projetos de feição nacionalista” (Inocência Matta, 1997, p. 07-11). 




"Estão aqui pedaços de uma nação retalhada por um dos mais terríveis genocídios praticados em toda a História, imagens de um povo massacrado em que quatro dos treze milhões de habitantes tiveram que abandonar suas terras para encontrar refúgio dos bandidos armados, treinados e financiados a partir da República da África do Sul. Sentimento que caracteriza a nação moçambicana: uma terra livre capaz de construir o rosto de sua nascente identidade" (Mia Couto,1998, p. 97-98) 




Apesar de ter exercido o poder colonialista sobre parte do continente africano e de ter sido o centro de um império colonial, Portugal, segundo informa Boaventura de Sousa Santos, "foi, durante mais de um século, uma colônia informal da Inglaterra e foi descrito, ao longo de séculos, pelos países do norte da Europa, como um país com características semelhantes àquelas que os países europeus, incluindo os portugueses, atribuíam aos povos colonizados de Além-Mar" (SANTOS, 2004, p. 30). 

"Lacan me deixava atordoada. E aquela sua frase: “Ela não deve saber que escreve, nem aquilo que escreve. Porque ela se perderia. E isso seria uma catástrofe.” Esta frase tornou-se, para mim, uma espécie de identidade de princípio, um “direito de dizer” totalmente ignorado pelas mulheres". Marguerite Duras. Escrever. p. 19.



De acordo com Roland Barthes, em O grau zero da escritura (1971), a escrita possui uma função quando
Colocada no âmago da problemática literária, que só começa com ela, a escritura portanto é, essencialmente, a moral da forma, a escolha da área social no seio da qual o escritor decide situar a Natureza de sua linguagem. Mas esta área social não é a de um consumo efetivo. Para o escritor, não se trata de escolher o grupo social para que escreve: ele sabe perfeitamente que, a menos que se conte com uma Revolução, será sempre para a mesma sociedade [...]. Desse modo, a escritura é uma realidade ambígua: de um lado, nasce incontestavelmente de uma confrontação do escritor com a sociedade; de outro lado, por uma espécie de transferência mágica, ela remete o escritor, dessa finalidade social, para as fontes instrumentais de sua criação. Por não poder fornecer-lhe uma linguagem livremente consumida, a História lhe propõe a exigência de uma linguagem livremente produzida (BARTHES, 1971, p. 24-25). 


OLHOS D’ÁGUA (Conceição Evaristo)
Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando… De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?
Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo… Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela… Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lavalava, o passa-passa das roupagens alheias, se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo ela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela?
Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe.
Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nos dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. Aquelas flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria, de uma maneira triste e com um sorriso molhado… Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía.
Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se assentava na soleira da porta e juntas ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu. Umas viravam carneirinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos, e havia aquelas que eram só nuvens, algodão doce. A mãe, então, espichava o braço que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. Mas, de que cor eram os olhos de minha mãe?
Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva… Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, porque eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela?
E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs que tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e todas a mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?
E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento, resolvi deixar tudo e, no outro dia, voltar à cidade em que nasci. Eu precisava buscar o rosto de minha mãe, fixar o meu olhar no dela, para nunca mais esquecer a cor de seus olhos. E assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser descoberta da cor dos olhos de minha mãe.
E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi? Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face? E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.
Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas.
Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma são o espelho dos olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente o meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei, quando, sussurrando minha filha falou:
Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?

(Conto publicado em Cadernos Negros, vol. 28, 2005). 

segunda-feira, 16 de abril de 2018




FRAGMENTOS DE UMA VIDA EM CONSTRUÇÃO

José Benedito dos Santos (UFAM)[1]



Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de idade. Está com quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco [...] Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco [...] Tem uma vaga lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é o tempo. Como eu era inocente. Como os meus olhos eram limpos. O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás.
       O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos anos, como eu vou ser sentimental (Luís Fernando Veríssimo)[2].
Escrever para algumas pessoas se parece com um gracioso jogo de palavras, um brincar com os significados que elas têm, já para outras, torna-se um grande desafio. No meu caso específico, a dificuldade de relatar minhas experiências com a palavra escrita reside no fato de que eu nunca registrei no papel os fatos mais relevantes ocorridos ao longo de 50 anos da minha existência.
Nasci numa cidadezinha do interior de Alagoas, Região Nordeste, a qual tem o maior índice de analfabetos do Brasil. Para quem nasceu ali, saber ler e escrever, infelizmente, ainda é considerado um privilégio de poucos. No filme “Central do Brasil” (1998), Dora, personagem vivida pela atriz Fernanda Montenegro lê e redige cartas para dezenas de pessoas analfabetas. Algumas cenas dos filmes exemplificam muito bem esta condição de analfabetismo de uma considerável parcela da população nordestina.
Minha mãe era analfabeta, porém, fazia com que os seus filhos estudassem para ser “alguém na vida”. Por conta dessa preocupação, quando entrei na escola já sabia soletrar, ler e escrever as primeiras letras da cartilha. Apesar de minha avó materna ser, também, analfabeta, era uma ótima contadora de estórias. Ela tinha uma enorme habilidade, para contar as dezenas de estórias dos folhetins da Literatura de cordel. Que talento ela possuía para narrar essas estórias, com seu jeito admirável de falar, dar vozes aos personagens. Eu passava horas ouvindo estórias de princesas que dormiam durante cem anos, de príncipes que viravam sapos, as façanhas do cangaceiro Lampião, a lenda do Pavão Misterioso... Ouvir essas narrativas orais, durante minha infância, despertou o meu interesse pelo reino das palavras.
Na pequena escola que havia na fazenda, onde minha família morava, os alunos estudavam até a terceira série primária. Se alguém quisesse estudar mais um pouco, teria que se deslocar até a cidade, que ficava distante da fazenda acerca de dois quilômetros. Para que eu pudesse cursar a quarta série, minha mãe escolheu uma boa escola na cidade.
No primeiro dia de aula, a professora de Língua Portuguesa pediu que a turma escrevesse uma redação sobre as aventuras ocorridas nas férias. Num primeiro momento fiquei tenso, mas em seguida, chamei a professora e disse que eu não tinha assunto, para escrever o texto, ela ficou meio decepcionada, porém não disse nada. Alguns meses depois, a mesma professora pediu que a turma fosse à biblioteca da escola e que cada um de nós escolhesse um livro de aventura para ler. A obra escolhida por mim foi “As vinte mil léguas submarinas”, de Júlio Verne, que tem como personagens o Capitão Nemo e o submarino Nautillus. A partir da leitura desse livro, comecei a alimentar o sonho de viajar pelo mundo e conhecer pessoas que falassem outras línguas.
Em julho de 1980, minha mãe veio a falecer. Chorar a morte daqueles que amamos é o que resta, para os que ficaram na periferia da vida. Além de equilibrar a dor, a saudade, com as lições de vida que essa pessoa nos legou. Entretanto, essa estratégia não funcionou comigo. Recorri à produção de textos, a qual me serviu como válvula de escape, para liberar a dor pelo falecimento de minha mãe, escrevia compulsivamente, para não enlouquecer. Nessa fase, imitei Álvares de Azevedo, pois o tema que brotava de cada texto era o da morte. Isso parece mórbido talvez, mas funcionou como terapia.
Em agosto de 1983, resolvi sair de Alagoas porque a atmosfera provinciana de Maceió estava me sufocando. Larguei o emprego de balconista numa loja de produtos para panificadora e, com o dinheiro da rescisão de contrato, comprei uma passagem só de ida para Porto Velho-Rondônia. No dia 13 de agosto de 1983, num sábado à tarde, despedi-me da minha família, dos amigos e embarquei em um avião da VASP, rumo ao desconhecido.
Ao desembarcar na cidade de Porto Velho, após 12 horas de voo, finalmente, eu estava realizando o sonho de conhecer a Amazônia. Sonho esse acalentado, desde que fui “fisgado” pelas histórias narradas por alguns amigos da minha família, que trabalharam na construção da Transamazônica na década de 70. Quando voltaram para Alagoas, eles relatavam histórias fantásticas sobre o tamanho dos rios, da floresta, da estrada...
Ao longo dos três anos em que morei na cidade de Porto Velho, procurei ler autores/obras da região. Os primeiros romances que li, foram: “Mad Maria” e “Galvez, imperador do Acre”, do escritor amazonense Márcio Souza.
Após três anos morando em Porto Velho, cansei da vidinha que estava levando, resolvi conhecer Roraima. Cheguei à cidade de Boa Vista, em abril de 1986. Após três dias em busca de emprego, finalmente, consegui uma vaga de apontador de campo, na Construtora Mendes Jr., pois a mesma estava construindo a Usina Hidrelétrica de Roraima. No final de maio, começou o período das chuvas, por isso todos os funcionários foram demitidos. E, por conta disso, no dia 22 de junho de 1986, peguei um avião em Boa Vista, uma hora depois, eu desembarcava no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes em Manaus.
Cheguei a Manaus com pouca grana, por isso, resolvi dormir na Rodoviária até conseguir um trabalho. Durante quinze dias, o banco de madeira, sujo, áspero, gasto pelo tempo, foi a minha cama. Às quatro horas da manhã, o segurança pedia que eu me levantasse. No décimo quinto dia, finalmente, consegui um emprego. O fato de eu ter trabalhado na construtora Mendes Jr., em Roraima, ajudou-me bastante. Fui trabalhar, mais uma vez, como apontador de campo.
No primeiro dia de trabalho, conheci uma quantidade enorme de nordestinos que trabalhava na empresa. Dois dias depois, fiz amizade com um rapaz, que era do Maranhão. Na hora do almoço, ele me perguntou onde eu morava. Respondi-lhe que estava dormindo na Rodoviária. Ele num gesto de boa vontade me convidou para morar em sua casa. Todavia, quando recebi o salário da primeira quinzena, aluguei um quarto. A partir daí, comecei organizar minha vida.
Em setembro de 1986, prestei concurso para a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), fui aprovado em primeiro lugar, para exercer o cargo de carteiro. Neste mesmo ano, também, fui aprovado em segundo lugar no vestibular da Universidade Federal do Amazonas, infelizmente, não pude cursar Ciências Contábeis porque não tinha comigo o certificado do Ensino Médio. Trabalhei nos Correios durante sete anos. Em 1993, fui demitido. Com uma parte do dinheiro da rescisão de contrato, comprei uma casa no bairro da Alvorada I, onde resido até o presente momento.
Em 1996, depois de 15 anos sem estudar, resolvi voltar à sala de aula, para me atualizar e, futuramente ingressar na Universidade. Refiz as três séries do Ensino Médio (1996-1998). O sonho de ingressar na universidade teve que ser adiado, por dois anos, porque, na época da inscrição do vestibular, eu nunca tinha dinheiro.
Em 2001, finalmente, prestei vestibular na Universidade Federal do Amazonas e fui aprovado no Curso de Letras – Língua e Literatura Portuguesa. A minha escolha por este curso teve como objetivo ampliar meus conhecimentos literários e, principalmente aprimorar a produção textual. Já no primeiro período da graduação, tive a grata surpresa de ter como professor Odenildo Sena na disciplina “Comunicação em Prosa Moderna I”. Ao produzir os meus primeiros textos, e ao apresentá-los na sala de aula, obtive uma ótima recepção por parte da turma e do mestre. Foi uma verdadeira massagem para o meu ego de aspirante a escritor. Porém, na avaliação intermediária da referida disciplina, cometi uma gafe, quando escrevi: “A maioria são...”. O professor Odenildo Sena não me perdoou e escreveu: “O que é isso, companheiro?”.
O meu último encontro acadêmico com a palavra escrita foi, no Curso de Especialização em Língua Portuguesa com ênfase em produção textual, na Universidade Federal do Amazonas, em 2007. Ao iniciar a minha produção de textos, levei algum tempo para me adequar à maneira como o professor queria que os mesmos fossem escritos na fôrma/forma de parágrafo-padrão. Todavia, fui capaz de parir dezessete textos-filhos e, este, foi o último rebento daquela numerosa prole, mas também, foi o que mais me causou dor, angústia, ansiedade, insônia, porque se tratava das minhas experiências com palavra escrita. Em síntese, para alguém que é formado em Letras – Língua e Literatura Portuguesa ─, revelar publicamente que tem dificuldade com a escrita é meio constrangedor, já que é prática comum reclamarmos que nossos alunos não sabem ler e nem escrever.
Nossas memórias, por mais que sejam escritas na solidão nunca são as lembranças de uma única pessoa. Tudo que nos vem ao pensamento, sejam ideias, sejam simples anotações guardadas em alguma gaveta, elas estão repletas de experiências pessoais, de familiares, amigos, companheiros, até mesmo de pessoas desconhecidas que em determinado momento de suas vidas compartilharam conosco suas alegrias e tristezas.
Como diria D. Juan, personagem dos livros de Carlos Castañeda, “Estou longe do céu onde nasci uma imensa nostalgia invade o pensamento. Agora que estou tão só e triste, qual a folha ao vento, às vezes quero chorar, às vezes quero rir de saudade”[3]. Essa perspectiva, a do passado, no ato de ser rememorado, perde sua pureza de ter sido e torna-se presente. As experiências ocorridas no passado, ao serem lembradas, não podem ser recuperadas na sua integridade porque se transformaram no decorrer do tempo. O que resta, portanto, é apenas o presente existencial, convergência do passado modificado pela memória.
Este é o relato da volta de um homem, após longos anos de existência, à memória de sua infância, adolescência, maturidade... Uma dolorosa viagem à memória, a uma ilha esquecida e traiçoeira, para resgatar a importância da leitura e da escrita na sua formação como ser humano. E, contudo, essas memórias já não são as minhas memórias. O tempo flui nelas, arrasta-as. Portanto, já não são as mesmas experiências de quando as vivi; pois a fugacidade do tempo e o fatal envelhecimento do humano fragmentaram essas lembranças no tempo e no espaço.





[1] Mestre em Letras - Estudos Literários – Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Professor Substituto de Língua e Literatura Portuguesa – CLLP – FLet - Universidade Federal do Amazonas – UFAM. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Literaturas de Língua Portuguesa - GEPELIP.  Manaus – Amazonas - Brasil. CEP: 69077-000. E-mail: profbenesantos@hotmail.com.   
[2] “História estranha”. In: Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p, 43.
[3] Carlos Castañeda. Viagem a Ixtlan. Rio de Janeiro: Editora Record, 1983, p. 116.  




Literatura e Pós-colonialismo: a vez e a voz do subalterno

 2018-01-27
Concomitantemente ao desenvolvimento dos Estudos Culturais e Pós-Coloniais, pesquisas empreendidas por teóricos, como os indianos Homi Bhabha e Gayatri Spivak, o jamaicano Stuart Hall, o martinicano Frantz Fanon e o palestino Edward Said, recolocaram, no centro das discussões sociológicas, históricas e culturais, as formas da colonização europeia e novas estratégias de imperialismo e de exploração empreendidas por países economicamente desenvolvidos. Os debates promovidos por esses intelectuais oriundos da periferia foram capazes de gerar uma revisitação às formas de representação cultural, trazendo para a cena literária, por um lado, vozes que ficaram emudecidas, e, por outro, revelando as estratégias discursivas que estruturam as narrativas produzidas pelos detentores dos discursos dominantes. Nesse cenário, o velho cânone literário passou a ser relido e teve de ceder espaço a outras manifestações culturais. É assim que vozes encobertas (de autores, de personagens, de intelectuais) passam a ser buscadas, na tentativa de oferecer, ainda que tardiamente, outro ponto de vista aos discursos oficiais e de construir uma identidade mais democrática e diversificada, que contemple a diferença como um aspecto positivo e enriquecedor das culturas. Nessa perspectiva, este número 11 da Revista Decifrar espera receber artigos, em língua portuguesa, espanhola, francesa e inglesa, que investiguem temas, obras, personagens, autores, teorias produzidas antes e depois da independência política dos países da América, África, Ásia e Índia e que promovam uma revisão dos processos culturais e dos resquícios mentais da colonização e da descolonização.
  

Data limite para envio de artigos: 28 de fevereiro de 2018. 
Prorrogado: 30/04/2018
Responsáveis pela edição: Adriana Aguiar (UFAM/UNICAMP) e José Benedito dos Santos (UFAM/UNB) 



"O escritor de crônicas é um construtor efêmero. Seu texto vai ser esquecido no dia seguinte. Diferente do romancista, que possui a ânsia de imortalidade. A crônica de jornal, no mesmo dia em que nasce, já está a morrer. Como as flores, dizia Shakespeare. Nada mais virtual. É claro que existiram Rubem Braga e Machado. Mas gênio não conta. Estão fora da regra, fora do parâmetro humano. A crônica do acontecimento, principalmente, morre logo cedo. "Eu não sabia que você gostava de escrever crônica” .
Rogel Samuel. 




"O papel do intelectual é, antes de mais nada, o de apresentar leituras alternativas e perspectivas da história outras que aquelas oferecidas pelos representantes da memória oficial e da identidade nacional – que tendem a trabalhar em termos de falsas unidades, da manipulação de representações distorcidas ou demonizadas de populações indesejadas ou excluídas e da propagação de hinos heroicos cantados para varrer todos que estiverem em seu caminho" (SAID, 2003b, p. 39).
 




MBEMBE, Achille. "Sair da grande noite. Ensaio sobre a descolonização da África". 2014.

"Desde a sua eclosão, esse pensamento foi objeto de interpretações muito diversas e suscitou, em intervalos relativamente frequentes, vagas polémicas e controversas — que aliás persistem — e mesmo contestações totalmente contraditórias entre si. Também engendrou práticas intelectuais, políticas e estéticas tão profusas quanto divergentes, a ponto de, por vezes, se questionar acerca dos elementos constitutivos da unidade. Não obstante essa fragmentação pode afirmar-se que, no seu núcleo central, a crítica pós-colonial visa aquilo que poderia designar-se pela interpolação das histórias e a concatenação dos mundos. Dado que a escravatura, e sobretudo a colonização (mas também as migrações, a circulação das formas e dos imaginários, dos bens, das ideias e das pessoas) desempenhou um papel decisivo nesse processo de colisão e de imbricação dos povos, não é surpreendente que as tenha convertido nos objetos privilegiados dos seus estudos" (MBEMBE, 2014, p. 101-102).
Ademais, escreve ainda o autor,
"O sumo do pensamento pós-colonial não considera a colonização nem como uma estrutura imutável e anistórica, nem como uma entidade abstracta, mas como um processo complexo de invenção de fronteiras e intervalos, de zonas de passagem e espaços intersticiais ou de trânsito. Paralelamente, sustenta que, enquanto força histórica e moderna, uma das suas funções consistia na produção da subalternidade. Nos seus impérios, várias potências coloniais tinham instaurado uma subordinação assente em bases raciais e estatutos jurídicos por vezes diferenciados, mas sempre, e em última instância, inferiorizantes. Em contrapartida, com vista a articular as suas reivindicações à luz da igualdade, muitos sujeitos coloniais procederam à crítica dos erros que a lei da raça e a raça da lei (e a do gênero e a da sexualidade) tinham contribuído para criar. Logo, o pensamento pós-colonial analisa o trabalho concretizado pela raça bem como as diferenças assentes no género e na sexualidade no imaginário colonial, as suas funções no processo de subjetivação dos subjugados coloniais. Paralelamente, debruça-se sobre a análise dos fenómenos de resistência que marcaram a história colonial, as diversas experiências de emancipação e os seus limites, tal como os povos oprimidos se constituíram sujeitos históricos e influenciaram muito caracteristicamente a constituição de um mundo transnacional e diaspórico. Por fim, incide sobre a forma como os vestígios do passado colonial são atualmente objeto de um trabalho simbólico e prático, bem como as condições segundo as quais esse trabalho produz formas inéditas, híbridas ou cosmopolitas, na via e na política, na cultura e na modernidade" (MBEMBE, 2014, p. 102).

O mito de um mundo africano
"Sou um escritor ibo, porque essa é minha cultura básica; nigeriano, africano e escritor... não, primeiro negro, depois escritor. Cada uma dessas identidades efetivamente invoca um certo tipo de compromisso de minha parte. Devo enxergar o que é ser negro - e isso significa ser suficientemente inteligente para saber como gira o mundo e como se saem os negros no mundo. É isso que significa ser negro. Ou africano - dá no mesmo: que significa a África para o mundo? Quando se vê um africano, que significa isso para um homem branco? Chinua Achebe" . 



"Ser Sábio não é ser diplomado; ter conhecimento não é ter diploma; ser inteligente não vem escrito em títulos. A sabedoria, o conhecimento e a inteligência fundamentam-se na maneira como tratamos nossos semelhantes, revelam-se na verdade dos fatos sobre os quais tratamos e demonstram-se com a criatividade em lidar com os diferentes de nós e com as adversidades". 


"Aqueles que assentam cada vez mais longe do lugar onde nasceram, aqueles que guiam o seu barco para outras margens, sabem cada vez melhor o curso das coisas ilegíveis; e subindo os rios até a sua nascente, entre as verdes aparências, são invadidos subitamente por esse brilho austero onde toda a língua perde as suas armas" Saint-John Perse (apud MBEMBE, 2014).