sexta-feira, 28 de outubro de 2016



Em 1994, um cartaz espalhado pelas ruas de Berlim ridicularizava a lealdade a estruturas que não eram mais capazes de conter as realidades do mundo: "Seu cristo é judeu. Seu carro é japonês. Sua pizza é italiana. Sua democracia, grega. Seu café, brasileiro. Seu feriado, turco. Seus algarismos, arábicos. Suas letras, latinas. Só o seu vizinho é estrangeiro" (ZYGMUNT, 2005, p. 33).


Civilização é barbárie - Renato Tapado
Não há a menor diferença entre a degeneração social atual e o cenário de horror e decadência de várias épocas da história. Num certo sentido – mas esse sentido é fundamental –, não houve degeneração nenhuma, pois as comunidades humanas sempre se pautaram pela violência, a intolerância e a má-fé. Jamais algum grupo humano dito “civilizado”, desde os primeiros textos que conhecemos, que datam de mais de três mil anos, até hoje, se orientou pela paz, pelo respeito à diferença e pela honestidade. O que estamos vivendo neste século XXI é a repetição, já desgastada de tão velha, do espírito que já animava as primeiras “civilizações” da região dos rios Tigre e Eufrates. Por isso, é demasiada pretensão alguém falar hoje em “progresso”, “melhoria”, “ética” ou qualquer outra ficção – que, aliás, são igualmente antigas, tanto quanto o descalabro da conduta humana. Os três pilares ideológicos mais importantes que sustentam as mentalidades ocidentais contemporâneas são religiões milenares: o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. Essas três tradições sempre se basearam no segregacionismo, na violência contra o diferente, no conservadorismo mais pesado, na repressão, no estímulo à guerra. Isso, desde seu nascimento. O que se chama de “civilização ocidental” nada mais é do que o acúmulo de “barbárie” sobre “barbárie”, termo, aliás, inadequado, pois nunca houve a menor diferença entre os chamados “bárbaros” e os chamados “civilizados”.
Disponível em:
Site do escritor Renato Tapado
RENATOTAPADO.COM|POR ALEPH OZUAS (WWW.DZO.COM.BR)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016



Imigrante Seringueiro /autor:  Henrique de Salles.


De um tempo, de onde não sei.
De terras vermelhas, a morros de areia,
um tempo sem vida, de caatinga seca.
De rios mortos, barcos sem beira,
sem esperança, no sertão de olheiras.

E de uma hora pra outra,
um verde nasceu, e rios diferentes ali se encontraram.
De duvidas e incertezas, se angustiaram,
não fugimos da foice, só do carrasco.
O que era de seco, agora e de casco.

De dia, de noite, seringueiras procuramos,
mas no final ,só agonia achamos.
Filhos e filhas do nordeste.
agora, um novo sertão, um novo chão.
O ouro branco, a borracha do ladrão,
Que nos explorava, em troca de pão.

Mas em pouco tempo, ao tocar o chão.
Estrangeiros puxados plantaram em sua
Mão, borracha boa, sem trabalho ou exploração,
 longe da mãe Amazônia.
E assim se acabava nosso ganho pão,
de poucas décadas, e muita construção.
E a beira do rio da fome, do rio da vida,
minha paris dos trópicos foi construída.



domingo, 9 de outubro de 2016




Retrato - Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?




EU SOU AQUELE MENINO
Paulo Bomfim

Eu sou aquele menino
Que o tempo foi devorando,
Travessura entardecida,
Pés inquietos silenciando
Na rotina dos sapatos,
Mãos afagando lembranças,
Olhos fitos no horizonte
À espera de outras manhãs
-Ai paletós,ai gravatas,
Ai cansadas cerimônias,
Ai rituais de espera-morte!
Quem me devolve o menino
Sem estes passos solenes,
Sem pensamentos grisalhos,
Sem o sorriso cansado!
Que varandas me convidam
A ser criança de novo,
Que mulheres, só meninas,
Me tentam cabular
As aulas do dia a dia?
Eu sou aquele menino
Que cresceu por distração. 



A POÉTICA DE SOPHIA ANDRESEN: UM OLHAR DE JUSTIÇA E REALIDADE NO POEMA CATARINA EUFÉMIA

Caroline Silva Muniz, José Benedito dos Santos

RESUMO: Sophia Andresen é uma das figuras mais emblemáticas da poesia portuguesa. Engajada com a realidade, uma das temáticas que buscava tratar em seus poemas eram as coisas que estavam à mercê de seus olhos, bem como a profundidade dos elementos físicos, a sensibilidade feminina para expressar a ordem do universo. Também buscava poetizar os acontecimentos, cantar e explicitar o mundo belo ordenado, como também denunciar a injustiça que era imposta pela ditadura salazarista. No presente artigo será analisado o poema “Catarina Eufémia” que irá discorrer a respeito de como as questões de realidade e justiça são observadas pela autora.

PALAVRAS-CHAVE: Poética andreseniana; Poema; Ditadura Salazarista; Realidade; Justiça.

Texto completo: In:Revista Decifrar (ISSN 2318-2229) Vol. 04, nº 07 (Jan/Jun-2016). Manaus – Amazonas - Brasil 


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Referências


BOECHAT, Virgínia Bazzetti, Antígona e Catarina Eufémia: Figurações da justiça em Sophia de Mello Breyner Andresen. USP, p. 126 e 133, 2011.
CATARINA EUFÉMIA – 50 anos depois da morte. Disponível em
FELIZARDO, Alexandre Bonafim. O lugar do ser: Topoanálise em Sophia de Mello Breyner Andresen. In: Simpósio Internacional de Letras e Linguística, 2; 2011, Uberlândia. Anais. Uberlândia: USP/UEG, 2011, p. 1 – 2.
LIMA, Renata Ribeiro; FEITOSA, Marcia Manir Miguel. Os lugares de Sophia de Mello Breyner Andresen. Revista Caderno de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas, São Luís, n. 1, p. 36, 2010.
MOISÉS, Massaud. A Criação Literária: poesia. – São Paulo: Cultrix, 1993.
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. – São Paulo: Cultrix, 2008.
OLIVEIRA, Rita Barbosa de. Sophia: Reinvenções poéticas do feminino. UFAM
OLIVEIRA, Rita Barbosa de. Sophia: poema de mil faces transbordantes. Manaus: Editora Travessia, 2012.
PRATA Nair & CASTELHANO Glória. Ditadura censura e o rádio: uma história de semelhanças entre Brasil e Portugal. CAPES, Universidade do Minho.
QUARESMA, Bento Rodrigues. Memórias das lutas antifascistas de 1954. Artigo. Maio. 2012. Disponível em
ROANI Gerson Luiz & MACHADO Rodrigo Corrêa (Orgs.). A emergência de abril em o nome das coisas (1977), de Sophia de Mello Breyner Andresen. Estudos linguísticos e Literários, n. 51, p. 3 -4, 2015.
TORGAL, Luís Reis. Histórias de Portugal. – São Paulo: Unesp, 2001.




A DESINTEGRAÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL E A VIOLÊNCIA NO CONTO A CALIGRAFIA DE DEUS, DE MÁRCIO SOUZA E NO DOCUMENTO HISTÓRICO MURAIDA, DE JOÃO HENRIQUE WILKENS

Monike Rabelo da Silva; José Benedito dos Santos

Resumo


Este artigo tem como objetivo discutir sobre “A desintegração da identidade e a violência no conto A Caligrafia de Deus, de Márcio Souza e no documento histórico Muraida, de João Henrique Wilkens”. Para isso, adotam-se como bases teóricas os trabalhos de: Hall (2005); Rincon (2012); Guedelha (2012); Souza (2010); Ramos (2015), os quais servem de escopo para a leitura dessas temáticas recorrentes. Para tanto, o trabalho dividiu-se em dois tópicos: no primeiro, tratou-se brevemente a respeito da concepção de identidade e da desintegração da identidade cultural brasileira resultante da modernidade tardia, conforme Stuart Hall (2005). Após isso, realizou-se um paralelo da perda da identidade cultural da etnia indígena e ribeirinha, no que tange às personagens Izabel Pimentel e Alfredo Silva, da obra A Caligrafia de Deus, de Márcio Souza (2008), e da tribo indígena Muhra, da obra Muraida, de João Henrique Wilkens (2012); e no segundo, estudam-se as manifestações de violência presentes nas duas obras analisadas. A pesquisa confirma o processo de desintegração da identidade indígena e ribeirinha e a violência contra as personagens das obras literárias supracitadas, decorrentes dos processos de aculturação, marginalização e extermínio, empregados pelos jesuítas no século XVIII, o qual continua vigorando, em pleno século XX, cometido por uma modernidade tardia, capitalista e opressora.

Texto completo: In: Revista Decifrar (ISSN 2318-2229) Vol. 04, nº 07 (Jan/Jun-2016). Manaus – Amazonas - Brasil 


Referências


ARAÚJO, Marcos Elias Cláudio de; PASQUALI, Luiz. Histórico dos Processos de Identificação. Brasília: Instituto Nacional de Identificação, s/d.
BÍBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
CANDIDO, A. Literatura e Sociedade. 9 ed. - Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
____________. Direitos Humanos e literatura. In: FESTER, A.C.R. (Org.). Direitos Humanos e... . São Paulo: Brasiliense, 1989.
COSTA; Mariza Domingos da; COSTA, Célio Juvenal. Catequese e Educação dos Indígenas na Colônia – Alguns Apontamentos. Maringá; Seminário de Pesquisa do PPE, 2009.
GRAÇA, Paulo. Uma poética do genocídio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998.
GUEDELHA, Carlos Antônio Magalhães. Poema Muhuraida, a glória do extermínio de uma nação. Goiás: RevLet – Revista Virtual de Letras, 2012.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10 ed. - Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
MEGEERS, Betty J. Amazônia, a ilusão de um paraíso. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1977.
NETO, Alexandre; MACIEL, Lizete. O ensino jesuítico no período colonial brasileiro: algumas discussões. Revista Educar. Curitiba: Editora UFPR, 2008.
ODALIA, N. O que é violência? São Paulo: Brasiliense, 1983.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Terra à vista. Campinas: Cortez/ Unicamp, 1990.
RAMOS, Cláudia de Socorro Simas. “A perda da identidade cultural no espaço urbano, no conto “A Caligrafia de Deus”, de Márcio Souza”. In: GUEDELHA, Carlos A. M.; PENA, Thays F. de A. (Orgs.). Expressões Amazonenses na Literatura. 1 ed. - Curitiba, PR: CRV, 2015.
RINCON, Neire Márcia. A Caligrafia de Deus e a Cidade Ilhada: imagens da cidade de Manaus. Goiás, 2012. Dissertação (Mestrado em Litras) – Universidade Federal de Goiás.
SOUZA, Márcio. A expressão amazonense – do colonialismo ao neocolonialismo. 3 ed. - Manaus: Valer, 2010.
_____________. A caligrafia de Deus. 3 ed. - Manaus: Valer, 2008.
WILKENS, Henrique João. Muraida. Tenório Telles e José Almeida A. da Rosa (Org.). Manaus: Valer, 2012.

A ESCRITURA DA HISTÓRIA EM UM HOMEM: KLAUS KLUMP, DE GONÇALO M. TAVARES

João Paulo Cardoso Alves, José Benedito Dos Santos

Resumo: Este artigo visa a analisar o romance Um homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares, a partir da perspectiva de que este romance pode ser encarado como uma alegoria da escritura da História, tendo em vista a virada conceitual provocada por eventos de extermínio e destruição em massa ocorridos no século XX (SELLIGMANN-SILVA, 2000). Com base em pensadores como Sigmund Freud, Márcio Selligmann-Silva e Giorgio Agamben, pretende-se interpretar a obra de Gonçalo M. Tavares à luz dos conceitos de trauma e testemunho a fim de demonstrar como o conteúdo da narrativa é apropriado pela forma literária, que o reelabora problematizando a impossibilidade de se pensar a História à revelia da catástrofe. Em vista disso, compreende-se que o romance provoca um choque entre o estético e o político ao reservar à arte a “memória do sofrimento acumulado” (ADORNO, 2008, p. 392), rompendo, assim, com o pensamento hegemônico, que tenta apagar os rastros da barbárie empreendida em nome da noção de progresso.

Texto completo. In:Revista Decifrar (ISSN 2318-2229) Vol. 04, nº 07 (Jan/Jun-2016). Manaus – Amazonas - Brasil 

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Referências


ADORNO, Theodor W. Teoria estética. Lisboa: Edições 70, 2008.
ADORNO, W. Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha (Homo Sacer III). São Paulo: Boitempo, 2008.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas V. 1. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
______________. Totem e tabu. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
HAISKI, Vanderleia de Andrade. “Os limites da representação: narrativas da Shoah”. Revista Nau Literária: crítica e teoria de literaturas. Vol. 10 N. 1, jan/jun. 2014 Disponível em: http://www.seer.ufrgs.br/NauLiteraria/article/viewFile/46892/30153
LEVI, Primo. É isto um homem? São Paulo: Rocco, 1988.
MARCUSE, Herbert. A dimensão estética. Lisboa: Edições 70, 2007.
NÓBREGA, Francisco Pereira. Compreender Hegel. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2005.
SELLIGMANN-SILVA, Márcio. “A era do trauma”. In: Cult – revista brasileira de cultura. Nº 205, ano 18, setembro de 2015.
__________________________. “Literatura e trauma”. Revista Pro-Posições Vol. 13, N. 3 (39) – set/dez. 2002. Disponível: http://www.proposicoes.fe.unicamp.br/proposicoes/textos/39-dossie-silvams.pdf
__________________________. “A história como trauma”. In: NESTROVSKI, A.; SELLIGMANN-SILVA, Márcio (Org.). Catástrofe e representação. São Paulo: Escuta, 2000.
__________________________. “Narrar o trauma – a questão dos testemunhos de catástrofes históricas”. Revista Psic. Clínica, Rio de Janeiro, Vol. 20, N. 1, p. 65 – 82, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pc/v20n1/05.pdf
TAVARES, Gonçalo M. Um homem: Klaus Klump. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
ZIZEK, Slavoj. Violência: seis reflexões laterais. São Paulo: Boitempo, 2014.



Vale a reflexão e o debate.
"As faces do mito na ficção de Mia Couto", de José Benedito dos Santos
"Então, por que a mitologia grega e a latina são consideradas pela crítica especializada com sendo portadoras de mitos literários, e todavia a africana é analisada por essa mesma crítica apenas como 'fantástica', 'mágica', 'maravilhosa' e 'insólita'? Ora, uma leitura mais aprofundada da 'História das religiões afro - brasileiras' leva o pesquisador a descobrir que a mitologia afro-brasileira e as africanas têm com deuses os orixás, o que nos autoriza a afirmar que o panteão dos deuses africanos é tão mitológico quanto o grego e o latino. Esses orixás das culturas africanas de tradição banta e iorubá, que vieram acompanhando os negros escravizados da África para o Brasil, têm uma existência milenar no continente africano" (2015, p. 112).
Kenedi Azevedo
Vale a reflexão e o debate.
"As faces do mito na ficção de Mia Couto", de José Benedito dos Santos
"Então, por que a mitologia grega e a latina são consideradas pela crítica especializada com sendo portadoras de mitos literários, e todavia a africana é analisada por essa mesma crítica apenas como 'fantástica', 'mágica', 'maravilhosa' e 'insólita'? Ora, uma leitura mais aprofundada da 'História das religiões afro - brasileiras' leva o pesquisador a descobrir que a mitologia afro-brasileira e as africanas têm com deuses os orixás, o que nos autoriza a afirmar que o panteão dos deuses africanos é tão mitológico quanto o grego e o latino. Esses orixás das culturas africanas de tradição banta e iorubá, que vieram acompanhando os negros escravizados da África para o Brasil, têm uma existência milenar no continente africano" (2015, p. 112).







Mais um capítulo de livro publicado - Editora Bagaço Recife/PE.


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MIA COUTO: A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE LITERÁRIA E NACIONAL DE MOÇAMBIQUE
TERCEIRO ANO – TURMA OITO

INTRODUÇÃO
Este trabalho sobre a obra literária do escritor moçambicano Mia Couto apresentado pelos alunos do 3º ano turma oito da Escola Estadual Senador Petrônio Portella tem como objetivo propiciar aos discentes e à comunidade, em geral, a compreensão sobre a importância da cultura africana na construção da identidade brasileira, assim como atender a obrigatoriedade do ensino da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, na grade curricular do Ensino Médio. Além disso, visa divulgar a vida e a obra do escritor moçambicano Mia Couto e as Literaturas Africanas contemporâneas escritas em Língua Portuguesa.
Mia Couto (Antonio Emílio Leite Couto) nasceu em Beira, capital da Província de Sofala, à beira do Oceano Índico, no dia 5 de julho de 1955. Escritor internacionalmente conhecido, com trabalhos traduzidos e publicados em vários países. Além da obra ficcional, o autor publica ensaios, artigos e crônicas jornalísticas em torno dos mais variados assuntos. Neles, Couto discute as relações de poder no continente africano e as relações de cultura e política na sociedade contemporânea. Conhecido até então por seu trabalho como jornalista e poeta, o autor é considerado um dos mais influentes romancistas das literaturas africanas contemporâneas escritas em língua portuguesa.
Eis a produção literária desse autor que navega pelas águas da poesia, da crônica, dos textos de opinião, do conto e do romance. Além de Raiz de orvalho (1983), Raiz de orvalho e outros poemas (1999) Idades Cidades Divindades (2007) seus três livros de poemas, publicou quatro livros de crônicas, Cronicando (1998), O país do queixa andar (2003), Pensatempos: textos de opinião (2005) E se o Obama fosse africano? e outras interinvenções (2009), seis livros de contos: Vozes anoitecidas (1986), Cada homem é uma raça (1990), Estórias abensonhadas (1994), Contos do nascer da terra (1997), Na berma de nenhuma estrada (1999) e O fio das missangas (2003). Escreveu dez romances: Terra sonâmbula (1992), A varanda do frangipani (1996), Mar me quer (1998), Vinte e zinco (1999), O último voo do flamingo (2001), O gato e o escuro (2001), Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002), A chuva pasmada (2004), O outro pé da sereia (2006), Venenos de Deus, remédios do diabo (2008), Jesusalém (2009) que, na edição para o Brasil recebeu o título de Antes de nascer o mundo (2009) e A confissão da leoa (2012).
Mia Couto é considerado um dos mais premiados autores das literaturas africanas contemporâneas escritas em língua portuguesa. Em maio de 2013, ele recebeu o Prêmio Camões, o mais importante de língua portuguesa. Em outubro desse mesmo ano, o autor foi o vencedor do prêmio 2014 Neustadt International Prize for Literature, considerado o "Nobel americano". Com um total de 30 livros publicados, esse prêmio distingue toda a obra de Mia Couto ao longo da sua vida, incluindo os romances, as crônicas, os contos e a poesia. Sua prosa ficcional já foi traduzida para mais de 20 línguas. Terra Sonâmbula (1992), seu primeiro romance é considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.
Dentre as inúmeras obras escritas, desde o início da década de 80 do século XX, pelo jornalista, poeta, contista, cronista e romancista Mia Couto, selecionamos alguns livros, os quais serão apresentados ao público, através de resumos ilustrados, com suas respectivas capas.
Vozes anoitecidas (1986 - contos) esta obra publicada em 1986, projetou o escritor moçambicano Mia Couto para o mundo. Nessa obra, o autor lança as bases daquela que viria a ser uma das principais características de sua obra ficcional: a reconstrução de laços entre registro oral e escrito. Em doze pequenos contos, uma galeria de personagens esfarrapadas e alheias aos acontecimentos narrados, de seu ponto de vista marginal, histórias que flertam com o mágico e com o absurdo sem, no entanto, desviarem-se completamente do plano real.
Cada homem é uma raça (1990 - contos) reúne onze contos, m que os indivíduos são sempre objeto de fascínio e a descrição de suas vidas jamais traz qualquer julgamento. Com sua escrita poética inconfundível, que resulta num português com a melodia das línguas africanas, ele apresenta um rico universo de vivências de figuras moçambicanas. Se no conto “A Rosa Caramela” acompanhamos os dissabores de uma mulher corcunda que enlouqueceu depois de ter sido abandonada ao pé do altar, em “A princesa russa” a situação é de uma estrangeira que se vê num país desconhecido e com um marido hostil, e se alia a um de seus empregados nativos para sobreviver.
Terra sonâmbula (1992) é o primeiro romance de Mia Couto, publicado em Lisboa em 1992; alcançou grande repercussão de público e crítica. Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, que fogem da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial (1964-1974), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1975 a 1992. O ônibus está cheio de corpos carbonizados. Mas também, há um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os "cadernos de Kindzu", o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga, e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra.
Estórias abensonhadas (1994 - contos) publicada em Lisboa em 1994, traz um prefácio em que o autor localiza os contos da coletânea no tempo pós-guerra, em que a esperança retorna à terra moçambicana. Depois de quase trinta anos de guerra, Moçambique vive agora um período de paz. Nestas Estórias abensonhadas, o premiado escritor Mia Couto capta um país em transição. Numa prosa poética e carregada das tradições orais africanas, o autor tece pequenas fábulas e registros que, sem irromper em grandes acontecimentos, capturam os movimentos íntimos dessa passagem. Aqui, fantasia e realidade se entrelaçam e se impõem uma à outra, como num reflexo do próprio continente africano. O rio que atravessa essas veredas é a prosa de Mia Couto, frequentemente, comparada à de Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Márquez, sua escrita transforma o falar das ruas em poesia, e carrega de magia a dura realidade de seu país. Na Moçambique recriada literariamente por Mia Couto, cada porta entreaberta revela outra faceta de um mundo novo e vibrante, mas repleto de tradição e história.
A varanda do frangipani (1996 - romance) é uma narrativa policial, na qual o investigador Izidine Naíta busca desvendar um crime cometido num asilo de velhos; entretanto, a narrativa dá margem para que surja uma segunda história, metaforizada pelas estórias dos anciãos, que se constitui como um delito mais grave a ser reparado “O verdadeiro crime que está a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente...” (COUTO, 1996, p. 59). Refere-se à sabedoria dos ancestrais, extinguindo-se sob a égide da modernidade. história de A varanda do frangipani se passa vinte anos após a Independência, depois dos acordos de paz de 1992. O romance é narrado pelo carpinteiro Ermelindo Mucanga, que morreu às vésperas da Independência, quando trabalhava nas obras de restauração da Fortaleza de S. Nicolau, onde funciona um asilo para velhos. Ele é um "xipoco", um fantasma que vive numa cova sob a árvore de frangipani na varanda da fortaleza colonial. As autoridades do país querem transformar Mucanga em herói nacional, mas ele pretende, ao contrário, morrer definitivamente. Para tanto, precisa "remorrer". Então, seguindo conselho de seu pangolim (uma espécie de tamanduá africano), encarna no inspetor de polícia Izidine Naíta, que está a caminho da Fortaleza para investigar a morte do diretor. Mais de vinte anos depois da independência de Moçambique, quando a guerra civil já arrefeceu, a Fortaleza é um lugar em que convergem heranças, memórias e contradições de um país novo e, ao mesmo tempo, profundamente ligado às tradições e aos mitos ancestrais. Da sua varanda se pode enxergar o horizonte. O romance de Mia Couto esboça, assim, uma saída utópica para um país em reconstrução.
O último voo do flamingo (2000 – romance) foi lançado quando Moçambique comemorava 25 anos de independência de Portugal. Depois de um longo tempo de guerra civil, soldados das Nações Unidas estão em Moçambique para acompanhar o processo de paz. O romance narra estranhos acontecimentos de uma pequena vila imaginária, Tizangara, ao sul do país, onde militares da ONU começam a explodir subitamente. O autor elabora uma crítica ácida aos semeadores da guerra e da miséria, mas também uma história em que poesia e esperança dependem da capacidade narrativa de contar a própria história com vozes africanas autênticas. Só elas sabem que o voo do flamingo faz o sol voltar a brilhar depois de um período de trevas e opressão.
Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002 - romance) foi publicado em Lisboa, em 2002, apresenta a saga da família Malilanes ou Marianos, na qual o autor retrata as contradições entre as tradições arraigadas no território africano e a sua condição pós-colonial. O retorno da personagem Marianinho à Ilha de Luar-do-Chão é exatamente uma volta às suas origens. Ao chegar à ilha natal, tem como tarefa comandar as cerimônias fúnebres do seu avô, Dito Mariano - de quem recebeu o mesmo nome e de quem era o neto favorito -, ele se descobre um estranho tanto entre os de sua família quanto entre os de sua raça, pois na cidade adquiriu hábitos de um branco. Aos poucos, Marianinho percebe que voltou à ilha para um renascimento tanto pessoal como familiar. Uma série de intrigas e de segredos familiares envolvem o pai do protagonista, Fulano Malta, sua avó Dulcineusa, os tios Abstinêncio, Ultímio e Admirança, e também as nebulosas circunstâncias em torno da morte de sua mãe, Mariavilhosa. O rapaz descobre também que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto. Trata-se de um momento de passagem, crucial para o protagonista e para o seu lugar de origem. A Ilha de Luar-do-Chão encontra-se num estado de abandono, decadência e miséria. Trata-se também de um impasse cultural, religioso e político, que guarda correspondência com a situação social da África pós-colonial. Na enigmática Ilha de Luar-do-Chão, onde um rio Madzimi armazena a memória dos espíritos e a terra sofre com feitiços arcaicos e modernos, a tarefa de Marianinho é encontrar uma forma de levar adiante uma história que, além de pessoal e familiar, na África pós-colonial, é também política e de destino humano.
O fio das missangas (contos - 2003). "A missanga, todos a veem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo." "A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas as missangas." É assim que o donjuanesco personagem do conto "O fio e as missangas" define a sua existência. Fazendo jus a essa delicada metáfora, cada uma das 29 histórias aqui agrupadas, alia sua carga poética singular à forma abrangente do livro como um todo - vale dizer, ao colar em questão. Com um texto de intensidade ficcional e condensação formal raras na literatura contemporânea, Mia Couto demora-se em lirismos que a sua maestria de ourives da língua consegue extrair de uma escrita simples, calcada em grande parte na fala do homem da sua terra, Moçambique, um pouco à maneira de Guimarães Rosa, ídolo confesso do autor.
A brevidade das pequenas tramas e sua aparente desimportância épica estão focadas na contemplação de situações, de personagens, ou simples estados de espírito plenos de significados implícitos, procedimento típico da poesia. Os neologismos do autor, a que os leitores já se habituaram, para além de mera experimentação formalista revelam-se chaves fundamentais de interpretação da leitura.
Não por acaso, a maioria dos contos de O fio das missangas adentram com fina sensibilidade o universo feminino, dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, uma vez, esgotado seu valor de uso, as mulheres são aqui equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas.
O outro pé da sereia (2006 - romance) nesta obra, Mia Couto realiza retrato poético, alegórico e crítico de Moçambique contemporâneo, a imagem de uma santa católica que encanta e perturba todos que dela se aproximam é o centro de uma trama dividida em dois momentos históricos, ligados por questões étnicas, religiosas e de destino familiar. Em 2002, dez anos depois do Acordo de Paz entre governo e as forças rebeldes, Moçambique é um país em recuperação. Um pastor e sua mulher, Mwadia Malunga, encontram uma imagem de Nossa Senhora nas margens de um rio da pequena localidade de Antigamente. O curandeiro do lugar diz que eles conspurcaram o espírito do rio e correm grande perigo. Mwadia decide então voltar a Vila Longe, onde deixara a família, para abrigar a estátua. Curiosamente, esta é a estátua que segue, em 1560, com o jesuíta Gonçalo da Silveira, ao partir de Goa, na Índia, para converter ao cristianismo o imperador do Reino do Ouro, ou Monomotapa, situado na região fronteiriça entre os atuais Zimbábue e Moçambique. A imagem de Nossa Senhora é chamada pelos escravos da nau portuguesa de Kianda, uma divindade das águas; e os africanos a tratam por Nzuzu, rainha das águas doces. De volta ao século XXI, a pequena Vila Longe agora se articula para receber a visita de um casal de antropólogos americanos, revelando personagens exemplares e muito divertidas do cotidiano moçambicano - e do universo literário de Mia Couto. As relações de sincretismo religioso e o choque cultural entre portugueses, indianos e africanos estão presentes o tempo todo na narrativa, e os estrangeiros completam o caldeirão cultural e religioso do local, num retrato ao mesmo tempo cômico e desolador do mundo globalizado.
Venenos de Deus, remédios do Diabo (2008 - romance) narra a história de Bartolomeu Sozinho que é um velho mecânico naval moçambicano, aposentado do trabalho, mas não dos sonhos ardentes e dos pesadelos ressentidos que elabora em seu escuro quarto de doente terminal. Ele é atendido em domicílio por Sidónio Rosa, médico português. A narrativa entrelaça a vida de Bartolomeu, de sua rancorosa mulher, Munda, da ausente e quase mitológica Deolinda, filha do casal, do dedicado Doutor "Sidonho", bem como de Suacelência, o suarento e corrupto administrador de Vila Cacimba, um lugarejo imerso em poeira e cacimbos (neblinas) enganadores. São vidas feitas de mentiras e ilusões que tornam difícil diferenciar o sonho da realidade. Aparentemente, Sidónio veio de Lisboa para curar a vila de uma epidemia. Mas é o amor pela desaparecida Deolinda, por quem se apaixonara em Lisboa, que impulsiona seus passos mais íntimos. Quando Deolinda voltou para sua terra natal, Sidónio viu-se teleguiado pelo sonho de reencontrá-la. Mas Vila Cacimba não é o lugar do médico, nem poderá ser jamais.
Em Portugal, Moçambique e Angola o livro recebeu o título de Jesusalém, já na edição brasileira foi publicado com o título de Antes de nascer o mundo (2009). Jesusalém é um lugar ermo encravado na savana, em Moçambique, abriga cinco almas apartadas das gentes e cidades do mundo. Ali, ensaiam um arremedo de vida: Silvestre e seus dois filhos, Mwanito e Ntunzi, mais o Tio Aproximado e o serviçal Zacaria. O passado para eles é pura negação recortada em torno da figura da mãe morta em circunstâncias misteriosas. E o futuro se afigura inexistente. Silvestre afiança aos filhos e ao criado que o mundo acabou e que a mulher - qualquer mulher - é a desgraça dos homens. Mas um belo dia os donos do mundo voltarão para reivindicar a terra de Jesusalém. E não só isso: uma bela mulher também virá para agitar a inércia dos dias solitários daqueles homens. Mia Couto é um dos maiores expoentes da literatura africana de expressão portuguesa. Moçambicano e amante confesso da escrita inventiva do brasileiro Guimarães Rosa, ele é um artista investido do poder mágico e poético das palavras. Mas é da alma do povo de seu país, bela, trágica, alegre, sofrida, enigmática, que este poeta da prosa extrai seu ouro universal.
A confissão da leoa (2012 - romance) esta obra narra a história de uma aldeia moçambicana que é alvo de ataques mortais de leões provenientes da savana. O alarme chega à capital do país e um experimentado caçador, Arcanjo Baleiro, é enviado à região. Chegando lá, porém, ele se vê emaranhado numa teia de relações complexas e enigmáticas, em que os fatos, as lendas e os mitos se misturam. Uma habitante da aldeia, Mariamar, em permanente desacordo com a família e os vizinhos, tem suas próprias teorias sobre a origem e a natureza dos ataques das feras. A irmã dela, Silência, foi a vítima mais recente. O livro é narrado alternadamente pelos dois, Arcanjo Baleiro e Mariamar, sempre em primeira pessoa. Ao longo das páginas, o leitor fica sabendo que eles já tiveram um primeiro encontro muitos anos atrás, quando Mariamar era adolescente e o caçador visitou a aldeia. O confronto com as feras leva os personagens a um enfrentamento consigo mesmos, com seus fantasmas e culpas. A situação de crise põe a nu as contradições da comunidade, suas relações de poder, bem como a força, por vezes libertadora, por vezes opressiva, de suas tradições e mitos.
Com base na leitura dos resumos de algumas obras de Mia Couto, selecionadas por nós, depreende-se que a literatura do referido autor volta-se, para o passado colonial e pós-colonial moçambicano na tentativa de resgatar a “identidade negada e o rosto desfigurado do povo africano” por cinco séculos de colonização europeia. Mia Couto tece história, mito e ficção na construção de sua prosa ficcional. Assim, as personagens criadas por ele, sua literatura, e a de Moçambique são projetadas, para além das fronteiras do continente africano.
REFERÊNCIAS
COUTO, Mia. Vozes anoitecidas. Lisboa; Caminho, 1986.
__________. Cada homem é uma raça. Lisboa: Caminho, 1990
__________. Terra sonâmbula. Lisboa: Caminho, 1992.
__________. Estórias abensonhadas. Lisboa: Caminho, 1994.
__________. A varanda do frangipani. Lisboa: Caminho, 1996.
__________. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Lisboa: Caminho, 2002.
__________. O ultimo voo do flamingo. Lisboa: Caminho, 2000.
__________. O outro pé da sereia. Lisboa: Caminho, 2006.
__________. Venenos de Deus, remédio do Diabo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
__________. A confissão da leoa. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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