
A CONSCIÊNCIA É UMA SÓ
De qualquer maneira, o conteúdo doutrinário da obra independe dessa circunstância. Ficção ou realidade - para o admirador típico de Castaneda, trata-se de um dilema irrelevante. O que importa, aqui, é o conteúdo, a visão-de-mundo, a perspectiva aberta de um sentido para a compreensão e a evolução espiritual. A doutrina exposta por Castaneda é o valor principal de seus livros, pela profundidade, sutileza e exatidão de suas intuições fundamentais. O chamado "mundo", pode-se afirmar, é bem como Castaneda diz que ele é.
O fundamento da doutrina é o fenômeno da consciência, o fato de que somos seres perceptivos e de que sabemos que o somos.
Desde suas primeiras lições, Don Juan, o mestre, trata as realidades percebidas em diferentes estados de consciência como realidades separadas mas tão "reais" quanto a que costumamos, em nossa vigília cotidiana, considerar normal. A equação entre o interno e o externo fundamental de todo conhecimento esotérico comunicado por Don Juan. O mundo é assim como pensamos que é, só porque nos dizemos, todo o tempo, que ele é assim; se pararmos de nos dizer que o mundo é assim, ele deixará de ser assim - diz o mestre. A interrupção do diálogo interno implica em "parar o mundo" - e esta é a condição necessária de toda ação mágica.
Segundo Castaneda, a realidade depende de uma localização da consciência, de certa maneira, ela é essa focalização. A consciência de um bebê ainda não está focalizada, está no infinito indeterminado, o desconhecido, que Castaneda chama o NAGUAL( Leia naual). A focalização é feita nos primeiros anos de vida através de uma capacidade estruturante da consciência que é a atenção. A atenção seletiva, ensinada aos filhos pelos pais, é uma focalização particular, a que a doutrina dá o nome de Primeira Atenção, e a realidade particular que ela constitui chama-se TONAL. Assim, nossa realidade familiar, que julgamos única e absoluta, é apenas uma criação particular da consciência focalizada pela Primeira Atenção. Essa focalização, diz Don Juan, é uma proeza admirável do ser humano - que, provavelmente, levou muitos séculos para realizá-la - mas fixada, também é uma camisa-de-força que impede outras focalizações e, portanto, a experiência de outras realidades.
Os feiticeiros trabalham para escapar dessa camisa-de-força, desmanchando essa focalização e desenvolvendo procedimentos capazes de estabelecer novas focalizações, no NAGUAL, às quais a doutrina chama de Segunda Atenção. As "plantas de poder" são, nos primeiros livros, o principal recurso utilizado pelo mestre para afrouxar, no discípulo, a focalização da Primeira Atenção e, assim, abrir a possibilidade de novas focalizações da Segunda Atenção. Nos livros seguintes, entretanto, a tarefa é confiada a uma técnica conhecida como "a arte de sonhar". Quando adormecemos, desmancha-se naturalmente a focalização da Primeira Atenção; a consciência afunda-se no NAGUAL, de maneira não-focalizada; o que chamamos de "sonhos" são as lembranças da consciência refocalizada na Primeira Atenção, de suas experiências não- focalizadas no NAGUAL; o domínio do "sonho" permite a focalização da Segunda Atenção, um procedimento semelhante ao que chamam de "sonhos lúcidos" e "projeção astral". O domínio da consciência, através de sua expansão, ou domínio da Segunda Atenção, não visa, apenas, a ação mágica dos feiticeiros, mas o conhecimento.
Para a doutrina, a gnoseologia realista, substancialista ou materialista, é ingênua excessivamente parcial. Não há uma realidade objetiva, em si, a ser refletida pela consciência; entretanto, ela não é um produto constituinte absoluto, como no idealismo filosófico. As duas posições clássicas, privigeliando um dos pólos da relação ontológica - o sujeito ou o objeto - são igualmente rejeitadas. A cada estado da consciência corresponde uma realidade ontologicamente correlata mas nenhum dos dois pólos está em destaque. O ser não se reduz à consciência,apenas, mas só se expressa através dela. O que há é o ser; o que há é a consciência; esses dois são um só.
O conceito utilizado por Castaneda, a partir de THE FIRE FROM WITHIN ( O fogo interior), para descrever o que se passa, é o de "alinhamento".
Os diferentes "alinhamentos" entre ser e consciência dão conta, não só dos diferentes estados subjetivos mas também das diferentes realidades objetivas. Pode-se, para usar uma linguagem acadêmica, falar de uma espécie de "ontopsicologia" em Castaneda, desde que, para ele, essas duas áreas da realidade, supostamente distintas, são, em verdade, a mesma.
Pode-se também dizer que a doutrina concebe a realidade à maneira da Física contemporânea, como um campo unificado de energia, a que chama "o campo das emanações da Águia". Temos, aqui, a metáfora básica do sistema para designar, nos livros THE EAGLE'S GIFT ( O presente da Águia) e THE FIRE FROM WITHIN ( O fogo interior), o poder supremo que "governa todas as coisas". Tal poder é absoluto. Nada existe, na verdade, exceto a Águia e suas emanações. A percepção e a consciência(ambos os termos são sinônimos, em Castaneda) surgem como um determinado alinhamento dessas emanações, alinhamento que também determina, ao mesmo tempo, o objeto delas. Esta ideia é fundamental, na doutrina, porque é o alinhamento de emanações que constitui toda realidade perceptível, isto é, percebida, criando a aparente polaridade entre sujeito e objeto. A mudança de alinhamento, o que pode ser feito pelo emprego de uma quantidade adequada de energia, é uma operação cosmotrópica, instauradora do real.
Este é o ponto básico. A visão de Castaneda fundamenta-se nessa compreensão ontológica, que não encontra paralelo na tradição filosófica ocidental, a não ser nos chamados filosóficos pré-socráticos gregos, na própria aurora do pensamento do Ocidente. É uma compreensão do ser como "presença do presente", para usar os termos de Heidegger.




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