quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda II


A CONSCIÊNCIA É UMA SÓ

De qualquer maneira, o conteúdo doutrinário da obra independe dessa circunstância. Ficção ou realidade - para o admirador típico de Castaneda, trata-se de um dilema irrelevante. O que importa, aqui, é o conteúdo, a visão-de-mundo, a perspectiva aberta de um sentido para a compreensão e a evolução espiritual. A doutrina exposta por Castaneda é o valor principal de seus livros, pela profundidade, sutileza e exatidão de suas intuições fundamentais. O chamado "mundo", pode-se afirmar, é bem como Castaneda diz que ele é.
O fundamento da doutrina é o fenômeno da consciência, o fato de que somos seres perceptivos e de que sabemos que o somos.
Desde suas primeiras lições, Don Juan, o mestre, trata as realidades percebidas em diferentes estados de consciência como realidades separadas mas tão "reais" quanto a que costumamos, em nossa vigília cotidiana, considerar normal. A equação entre o interno e o externo fundamental de todo conhecimento esotérico comunicado por Don Juan. O mundo é assim como pensamos que é, só porque nos dizemos, todo o tempo, que ele é assim; se pararmos de nos dizer que o mundo é assim, ele deixará de ser assim - diz o mestre. A interrupção do diálogo interno implica em "parar o mundo" - e esta é a condição necessária de toda ação mágica.
Segundo Castaneda, a realidade depende de uma localização da consciência, de certa maneira, ela é essa focalização. A consciência de um bebê ainda não está focalizada, está no infinito indeterminado, o desconhecido, que Castaneda chama o NAGUAL( Leia naual). A focalização é feita nos primeiros anos de vida através de uma capacidade estruturante da consciência que é a atenção. A atenção seletiva, ensinada aos filhos pelos pais, é uma focalização particular, a que a doutrina dá o nome de Primeira Atenção, e a realidade particular que ela constitui chama-se TONAL. Assim, nossa realidade familiar, que julgamos única e absoluta, é apenas uma criação particular da consciência focalizada pela Primeira Atenção. Essa focalização, diz Don Juan, é uma proeza admirável do ser humano - que, provavelmente, levou muitos séculos para realizá-la - mas fixada, também é uma camisa-de-força que impede outras focalizações e, portanto, a experiência de outras realidades.
Os feiticeiros trabalham para escapar dessa camisa-de-força, desmanchando essa focalização e desenvolvendo procedimentos capazes de estabelecer novas focalizações, no NAGUAL, às quais a doutrina chama de Segunda Atenção. As "plantas de poder" são, nos primeiros livros, o principal recurso utilizado pelo mestre para afrouxar, no discípulo, a focalização da Primeira Atenção e, assim, abrir a possibilidade de novas focalizações da Segunda Atenção. Nos livros seguintes, entretanto, a tarefa é confiada a uma técnica conhecida como "a arte de sonhar". Quando adormecemos, desmancha-se naturalmente a focalização da Primeira Atenção; a consciência afunda-se no NAGUAL, de maneira não-focalizada; o que chamamos de "sonhos" são as lembranças da consciência refocalizada na Primeira Atenção, de suas experiências não- focalizadas no NAGUAL; o domínio do "sonho" permite a focalização da Segunda Atenção, um procedimento semelhante ao que chamam de "sonhos lúcidos" e "projeção astral". O domínio da consciência, através de sua expansão, ou domínio da Segunda Atenção, não visa, apenas, a ação mágica dos feiticeiros, mas o conhecimento.
Para a doutrina, a gnoseologia realista, substancialista ou materialista, é ingênua excessivamente parcial. Não há uma realidade objetiva, em si, a ser refletida pela consciência; entretanto, ela não é um produto constituinte absoluto, como no idealismo filosófico. As duas posições clássicas, privigeliando um dos pólos da relação ontológica - o sujeito ou o objeto - são igualmente rejeitadas. A cada estado da consciência corresponde uma realidade ontologicamente correlata mas nenhum dos dois pólos está em destaque. O ser não se reduz à consciência,apenas, mas só se expressa através dela. O que há é o ser; o que há é a consciência; esses dois são um só.
O conceito utilizado por Castaneda, a partir de THE FIRE FROM WITHIN ( O fogo interior), para descrever o que se passa, é o de "alinhamento".
Os diferentes "alinhamentos" entre ser e consciência dão conta, não só dos diferentes estados subjetivos mas também das diferentes realidades objetivas. Pode-se, para usar uma linguagem acadêmica, falar de uma espécie de "ontopsicologia" em Castaneda, desde que, para ele, essas duas áreas da realidade, supostamente distintas, são, em verdade, a mesma.
Pode-se também dizer que a doutrina concebe a realidade à maneira da Física contemporânea, como um campo unificado de energia, a que chama "o campo das emanações da Águia". Temos, aqui, a metáfora básica do sistema para designar, nos livros THE EAGLE'S GIFT ( O presente da Águia) e THE FIRE FROM WITHIN ( O fogo interior), o poder supremo que "governa todas as coisas". Tal poder é absoluto. Nada existe, na verdade, exceto a Águia e suas emanações. A percepção e a consciência(ambos os termos são sinônimos, em Castaneda) surgem como um determinado alinhamento dessas emanações, alinhamento que também determina, ao mesmo tempo, o objeto delas. Esta ideia é fundamental, na doutrina, porque é o alinhamento de emanações que constitui toda realidade perceptível, isto é, percebida, criando a aparente polaridade entre sujeito e objeto. A mudança de alinhamento, o que pode ser feito pelo emprego de uma quantidade adequada de energia, é uma operação cosmotrópica, instauradora do real.
Este é o ponto básico. A visão de Castaneda fundamenta-se nessa compreensão ontológica, que não encontra paralelo na tradição filosófica ocidental, a não ser nos chamados filosóficos pré-socráticos gregos, na própria aurora do pensamento do Ocidente. É uma compreensão do ser como "presença do presente", para usar os termos de Heidegger.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

DA ESPREITA AO SONHO: a doutrina de Castaneda I



O lançamento do primeiro livro de Carlos Castaneda, THE TEACHINGS OF DON JUAN, em 1968, foi um fenômeno editorial. Apresentado como uma tese para um grau universitário em Antropologia, o livro virou um best-seller mundial. Não se falava em outra coisa e, pouco depois já era o assunto da reportagem de capa da revista TIMES - o que, no início dos anos 70, pelo menos, era prova definitiva de sucesso. Com os três livros seguintes, o êxito foi semelhante. Castaneda era o portador da sabedoria pré-colombiana, que muitos ligavam a doutrinas orientais, como o ZEN, ou a escolas esotéricas ocidentais, como a de GURDJIEF. Com a vantagem de que o mestre de Castaneda, o velho feiticeiro índio a quem chama de Don Juan, era mais simpático, mais espirituoso, mais engraçado, além de ser dono um carisma que despertava nos leitores a mais absoluta confiança.
Mas havia, também, a moda das drogas. Thimothy Leary apregoava as virtudes religiosas do LSD. A experiência dos chamados estados alterados da consciência, induzidos por agentes químicos, passara a fazer parte da formação dos jovens e Don Juan utilizava, para comunicar seus ensinamentos, três plantas alucinógenas- o estramônio, o cogumelo mágico mexicano e o peiote - que ele chama "plantas de poder". Depois, porém, verificou-se que este era um detalhe pouco importante no contexto da doutrina que estava sendo transmitida. Dos oitos livros publicados por Castaneda até hoje os únicos que tratam das "plantas de poder" são o primeiro, cujo título foi inexplicavelmente traduzido no Brasil para A ERVA DO DIABO, e o segundo, A SEPARATE REALITY - que, aqui, virou UMA ESTRANHA REALIDADE. A partir do terceiro livro, JOURNEY TO IXTLAN (Viagem a Ixtlan), o assunto é abandonado, exceto por breves observações corretivas, e relegado a uma posição secundária no sistema de crenças e práticas descrito pelo escritor. Os livros não se classificam na literatura sobre drogas, características dos anos 60, nem a prática de Don Juan tem qualquer semelhança com a de seitas religiosas que incluem alucinógenos em seus cultos, como a Igreja-Nativista Americana, com o peiote, ou o Santo- Daime, no Brasil, com a AYAHUASCA. A imagem popular de Castaneda e Don Juan como grandes tomadores de drogas é mera distorção. Não tem a nada a ver.
Por outro lado, a questão sobre a veracidade da história é um pouco mais complexa. Castaneda é acusado de "impostor" por ter pretendido passar mera ficção, produto de sua imaginaçao, por relato verídico, reportagem e estudo científico. Alguns críticos norte-americanos ficaram logo muito preocupados com isso; contudo, apesar, de surgirem vários livros para demonstrar a alegada farsa, como THE JOURNEY OF CASTANEDA, de Richard De Mille, o próprio Castaneda continua a insistir vigorosamente na veracidade de sua narrativa.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

DIAS DE CHUVAS EM MANAUS SÃO ASSIM MESMO


By Michelle Souza

Até duas semanas atrás, o calor era insuportável, chegando à casa dos 38 graus com sensação térmica de 40. Não havia maquiagem que durasse muito, ou banho que se sustentasse por duas ou três horas. Em questão de minutos, mesmo no mormaço, era muito fácil suar as bicas e sentir o ardume do sol na pele. A cidade, por estar se preparando para a Copa de 2014, e para virar num futuro bem próximo uma metrópole, ficou coberta de poeira das construções e da fumaça das queimadas. O resultado disso, era uma mistura de sal, óleo e pó no corpo não muito confortável que, talvez, se pudéssemos ser fritos, acabaríamos em um tacho juntos com jaraquis e tucunarés, para sermos servidos com vinagrete e farinha uarini.
A chuva que deveria ter chegado no Dia de Finados, segundo os mais velhos, estava prevista para fevereiro, de acordo com as previsões dos meteorologistas. E, para surpresa de todos, chegou no início de Dezembro, não dando tempo de comprar guarda-chuva e nem de terminar aquela reforma da casa com o décimo terceiro. Chegou também com toda a força que não estava prevista, pois é o ano de EL ÑINO. E por causa dela, muitos passaram a reclamar.
O trânsito caótico, a sujeira das ruas, a roupa molhada, o frio ganhou um novo Judas: a chuva. O trânsito que não era de um fluxo de dar inveja ao Japão ficou atrás de São Paulo, com engarrafamento de 600 metros. A sujeira das ruas que foram meticulosamente acumuladas durante os dias de seca, passaram a entupir os bueiros da cidade. A roupa molhada, o cheiro de macaco suado, morto à tapa passou a ser muito comum em ônibus lotados, porque fica difícil, nesses dias, enxugar a roupa. Além disso, o frio de 24 graus faz o mais calorento manauara ficar chocando e espantando carapanã na rede.
Dias de chuva em Manaus são assim mesmo. Poderia ser o contrário. Pessoas andando mais de bicicleta e o poder público agindo de forma mais preventiva para evitar o RUSH de uma cidade em crescimento. O povo jogando seu lixo em locais adequados e sem ficar sob a ameaça de pagar mais uma taxa. Aliás, o aterro sanitário da cidade já tem condições de ser auto-sustentável com energia limpa que é o gás metano.
Para evitar a roupa molhada seria bom adotar capas de chuvas e, de quebra, para os pés, galochas. Infelizmente, não temos esse hábito. E, claro, uma ou duas horas de sol para secarmos nossas roupas. Quanto ao frio, ele pode ficar em paz. Serve para aconchegar os corpos e para dormir em conchinha. O problema é só os carapanãs, que insistem em dizer que estão ali zunindo e beliscando. Como não dá para acender uma fogueira embaixo da rede como nossos antepassados, serve uma utilidade moderna: BAYGON em espiral, é fedorento para ele e muito mais para nós, mas ajuda.
Dias de chuva em Manaus são assim mesmo. E em meio a tantas reclamações, o bom é saber que lá pra maio, começa novamente o verão amazônico pra gente sentir falta da chuva e falar mal do período de estiagem. Esse movimento de eterno retorno foi percebido no tempo dos gregos e, oxalá, que permaneça até que a Natureza permita ou que os homens não atrapalhem de vez. (Michelle Souza- dezembro de 2009- Blog Casanumato)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

CAMÕES

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata a lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

ESPARSA AO DESCONCERTO DO MUNDO - Camões

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
assim que só para mim
anda o mundo concertado.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ismália - Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu.
pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
viu outra lua no mar.

E no sonho em que se perdeu,
banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
queria descer ao mar..

E, no desvario seu,
na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
as asas para voar...
Queria a lua do céu,
queria a lua do mar...

E como um anjo pendeu
as asas para voar...
Queria a lua do céu,
queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
seu corpo desceu ao mar...

Versos Íntimos - Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que te afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém pena inda causa a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Porta para o Infinito

" O silêncio em volta de nós era assustador. O vento soprava suavemente e aí ouvi o latido distante de um cão solitário. [...] O latido daquele cão solitário era tão triste e a quietude em volta de nós era tão intensa que senti uma angústia entorpecente. Aquilo me pensar em minha própria vida, minha tristeza, o meu não-saber para onde ir, o que fazer.
- O latido daquele cão é a voz noturna do homem - disse D. Juan. - Vem de uma casa naquele vale para o Sul. Um homem está gritando por intermédio de seu cão, pois são escravos e companheiros de toda a vida, sua tristeza, o seu tédio. Ele está implorando à morte que vá libertá-lo das correntes cacetes e feias de sua vida.[...]
Aquele latido e a solidão que ele provoca falam dos sentimentos dos homens.[...]. Homens para quem uma vida inteira foi como uma tarde de domingo, uma tarde que não foi de todo desgraçada, mas meio quente e incômoda e vazia. Eles suaram e se afligiram muito. Não sabiam para onde ir, nem o que fazer. Aquela tarde deixou-os apenas com a recordação de aborrecimentos mesquinhos e tédio, e depois de repente passou; já era noite." (CASTANEDA,Carlos. Porta para o Infinito. Rio de Janeiro: Nova Era/Record, 1974. p.257)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Autopsicografia (Fernando Pessoa - Ele-Mesmo)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve
Na dor lida sentem bem,
Não as suas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

segunda-feira, 29 de março de 2010

DISPERSÃO- Mário de Sá- Carneiro

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudade de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem
Não tenho amanhã nem hoje
Cai sobre mim feito ontem.
.............................................................
(MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO)

sexta-feira, 26 de março de 2010

TROVA À MANEIRA ANTIGA ( Século XV)

Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assim crescesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho imigo de mim?
(Francisco Sá de Miranda)

1.Desavim: desentendi, desencontrei.
2.Imigo: forma arcaica de inimigo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

POEMA SEM TÍTULO

"... este incessante morrer obstinado,
esta morte vivente,
que te retalha, oh, Deus,
em tua rigorosa obra
nas rosas, nas pedras,
nos astros indomáveis
e na carne que se queima,
como uma fogueira acesa por uma música,
um sonho,
um matiz que atinge o olho.

... e tu, tu próprio,
talvez tenhas morrido eternidades de eras aí fora,
sem que saibamos a respeito,
nos refugos, nas migalhas, nas cinzas de ti;
tu que ainda estás presente,
como um astro imitado por sua própria luz,
uma luz vazia sem astros
que nos alcança,
escondendo
sua infinita catástrofe."
(José Gorostiza. In O poder do silêncio. Carlos Castaneda. Rio de Janeiro: Record,2ooo. p.117)

EL VIAJE DEFINITIVO

"... e eu partirei. Mas os pássaros ficarão, cantando:
e meu jardim ficará, com sua árvore verdejante,
com seu poço dágua.
Em muitas tardes os céus serão azuis e plácidos,
e os sinos da torre repicarão,
como repicam esta tarde.
Aqueles que me amaram passarão,
e a cidade explodirá de novo cada ano.
Mas meu espírito sempre vagará nostálgico
no mesmo recanto escondido de meu jardim florido."
(Juan Ramon Jimenez. In Viagem a Ixtlan. Carlos Castaneda. Rio de Janeiro: Record, 1986. p. 253)

ORAÇÃO AO TEMPO

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
Vou te fazer um pedido.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
Entro num acordo contigo.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
Eis um dos deuses mais lindo.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
Ouve bem o que eu te digo.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
Quando o tempo for propício
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
E eu espalhe benefícios
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
Apenas contigo e migo.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
Num outro nível de vínculo.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
Nas rimas do meu estilo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo.
( Oração ao Tempo- Caetano Veloso)

RETRATO

"Eu não tinha esse rosto hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha esse coração que nem se mostra.
Eu não dei por essa mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
( Retrato - Cecília Meirelles)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

FRAGMENTOS....



Por José Benedito dos Santos

Escrever para algumas pessoas se parece com um gracioso jogo de palavras, um brincar com os significados que elas têm, já para outras, torna-se um grande desafio. No meu caso específico, a dificuldade de relatar minhas experiências com a palavra escrita, reside no fato de que eu nunca registrei no papel os fatos mais relevantes corridos ao longo de 50 anos da minha existência.
Nasci numa cidadezinha do interior de Alagoas, Região Nordeste, a qual tem o maior índice de analfabetos do Brasil. Para quem nasceu ali, saber ler e escrever, infelizmente, ainda é considerado um privilégio de poucos. No filme "Central do Brasil" (1998), Dora, personagem vivida pela atriz Fernanda Montenegro, lê e redige cartas para pessoas que não sabem ler e nem escrever. Inúmeras cenas do filmes exemplificam muito bem a condição de analfabetismo de uma considerável parcela da população nordestina.
Minha mãe era analfabeta, porém fazia com que os seus filhos estudassem para ser "alguém na vida". Por conta dessa preocupação, quando entrei na escola já sabia soletrar, ler e escrever as primeiras letras da cartilha. Além disso, minha avó era uma ótima contadora de histórias. Ela tinha uma enorme habilidade para contar as histórias fantásticas dos folhetins da literatura de Cordel. Que talento ela possuía para contar essas histórias, com seu jeito admirável de falar, dar vozes aos personagens. Eu passava horas ouvindo histórias de princesas que dormiam durante cem anos, de príncipes que viravam sapos, as façanhas de Lampião, a lenda do Pavão Misterioso... Ouvir essas histórias narradas por minha avó, era uma delícia. Essas narrativas orais da minha infância aguçaram o meu interesse pelo reino das palavras.
Na pequena escola que havia na fazenda onde minha família morava, os alunos estudavam até a terceira série. Se alguém quisesse estudar mais um pouco, teria que se deslocar até a cidade, que ficava distante da fazenda a cerca de dois quilômetros. Para que eu pudesse cursar a quarta série, minha mãe escolheu uma boa escola na cidade.
No primeiro dia de aula, a professora de Língua Portuguesa pediu que a turma escrevesse uma redação narrando as aventuras ocorridas nas férias. Num primeiro momento fiquei tenso. Mas, em seguida, chamei a professora e disse que eu não tinha assunto para escrever o texto. Ela ficou meio decepcionada, porém não disse nada.
Alguns meses depois, a mesma professora pediu que a turma fosse à biblioteca da escola e que cada um de nós escolhêssemos um livro de aventura para ler. A obra escolhida por mim foi "As Vinte Mil Léguas Submarinas" de Julio Verne, que tem como personagens o Capitão Nemo e o submarino Nautillus. A partir da leitura desse livro, comecei a alimentar o sonho de viajar pelo mundo e conhecer pessoas que falassem outras línguas.
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Em julho de 1980, minha mãe veio a falecer. Chorar a morte daqueles que amamos, é o que resta para os que ficaram na periferia da vida. Além de equilibrar a dor, a saudade, com as lições de vida que essa pessoa nos legou. Entretanto, essa estratégia não funcionou comigo. Recorri à produção de textos, a qual me serviu como válvula de escape para liberar a dor pela morte repentina de minha mãe. Escrevia compulsivamente para não enlouquecer. Nessa fase, imitei Álvares de Azevedo, pois o tema que brotava de cada texto era o da morte. Isso parece mórbido talvez, mas funcionou como terapia.
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Em agosto de 1983, resolvi sair de Alagoas, pois a atmosfera provinciana de Maceió estava me sufocando. Larguei o emprego de balconista numa loja de produtos para panificadora e, com o dinheiro da rescisão de contrato, comprei uma passagem só de ida para Porto Velho-Rondônia. No dia 13 de agosto, num sábado à tarde, despedi-me da minha família, dos amigos e embarquei no avião da VASP, rumo ao desconhecido.
Ao desembarcar em Porto Velho, após 12 horas de voo, finalmente, eu estava realizando o sonho de conhecer a Amazônia. Sonho esse acalentado desde que fui "fisgado" pelas histórias narradas por alguns amigos da minha família que trabalharam na construção da Transamazônica na década de 70. Quando eles retornaram para Alagoas, relataram histórias fantásticas sobre o tamanho dos rios, da floresta, da estrada...
Ao longo dos três anos em que morei na cidade de Porto Velho, procurei ler autores/obras da região. Os primeiros romances que li, foram: "Mad Maria" e "Galvez, Imperador do Acre", de Marcio Souza.
Cansei da vidinha que estava levando em Porto Velho, resolvi conhecer Roraima. Cheguei em Boa Vista em Abril de 1986. Após três dias em busca de emprego, finalmente, consegui uma vaga de Apontador de Campo, na Constutora Mendes Jr., pois a mesma estava construindo a Usina Hidroéletrica de Roraima. No final de maio, começou o período das chuvas, todos os funcionários foram demitidos. E, por esse motivo, no dia 22 de junho, peguei um avião em Boa Vista, uma hora depois, eu desembarcava no Aeroporto Internacinal Eduardo Gomes, em Manaus.
Cheguei em Manaus com pouca grana, por isso resolvi dormir na Rodoviária até conseguir um trabalho. Durante quinze dias, o banco de madeira, sujo, áspero, gasto pelo tempo, foi a minha cama. As quatro horas da manhã, o segurança pedia que eu me levantasse. No décimo quinto dia, consegui um emprego. O fato de eu ter trabalhado na Mendes Jr., em Roraima, ajudou-me bastante. Fui trabalhar numa construtora, mais um vez, como Apontador de Campo.
No primeiro dia de trabalho, conheci uma quantidade enorme de nordestinos que trabalhavam na empresa. Dois dias depois, fiz amizade com um rapaz, que era maranhense. Na hora do almoço, ele me perguntou onde eu morava. Respondi-lhe que estava dormindo na Rodoviária. Ele num gesto de boa vontade me convidou para dormir em sua casa. Todavia, quando recebi o salário da primeira quinzena, aluguei um quarto. A partir daí comecei organizar minha vida.
Em setembro de 1986, prestei concurso para os Correios. Fui aprovado em primeiro lugar para exercer o cargo de carteiro. Trabalhei nos Correios durante sete anos. Em 1993, fui demitido. Com uma parte do dinheiro da rescisão de contrato, comprei uma casa, no bairro da Alvorada I.
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Em 1996, depois de 14 anos sem estudar, resolvi voltar à sala de aula, para me atualizar e, futuramente ingressar na Universidade. Refiz as três séries do Ensino Médio(1996-1998). O sonho de ingressar na universidade teve que ser adiado por dois anos, pois na época da inscrição do vestibular, eu sempre estava sem dinheiro.
Em 2001, finalmente, prestei vestibular na Universidade Federal do Amazonas e fui aprovado no Curso de Letras-Língua Portuguesa. A minha escolha pelo Curso de Letras teve como objetivo ampliar os meus conhecimentos em literatura e, principalmente, na produção textual. Já no primeiro período da graduação, tive a grata surpresa de ter como professor Odenildo Sena, na disciplina "Comunicação em Prosa Moderna I". Ao produzir os meus primeiros textos, e ao apresentá-los na sala de aula, obtive uma ótima recepção por parte da turma e do mestre. Foi uma verdadeira massagem para o meu ego de aspirante a escritor. Porém, na avaliação intermediária da referida disciplina cometi uma gafe, quando escrevi "A maioria são...." Odenildo Sena não perdoou e escreveu "O que é isso, companheiro?" Foi a segunda trapaça que a palavra escrita me aprontou.
O meu último encontro acadêmico com a palavra escrita foi no Curso de Especialização em Língua Portuguesa com Ênfase em Produção Textual. Ao iniciar a minha produção de textos, levei algum tempo para me adequar à maneira como o professor queria que os mesmos fossem escritos na fôrma/forma de parágrafo-padrão. Todavia, fui capaz de produzir dezessete textos-filhos, os quais pari, e este foi o último rebento daquela numerosa prole. Mas também foi o que mais me causou dor/angústia/ansiedade/insônia, pois se tratava das minhas experiências com palavra escrita. Em outras palavras, para alguém que é formado em Letras, revelar publicamente que tem dificuldade para escrever, é meio constrangedor, já que é prática comum entre os professores de Língua Portuguesa reclamar, diariamente, que os seus alunos não sabem ler e nem escrever.
Nossas memórias, por mais que sejam escritas na solidão, nunca são as lembranças de uma única pessoa. Tudo que nos vem ao pensamento, sejam ideias, sejam simples anotações guardadas em alguma gaveta, estão repletas de experiências pessoais de familiares, amigos, até mesmo de pessoas desconhecidas, que em determinado momento de suas vidas, compartilharam conosco suas alegrias e tristezas. São histórias que pulsam à nossa frente, para que as recolhamos, atribuindo-lhes vidas através do sopro da escrita.
Como diria D. Juan, personagem dos livros de Carlos Castañeda "estou longe do céu onde nasci, uma imensa nostalgia invade o pensamento. Agora que estou tão só e triste, qual a folha ao vento, às vezes quero chorar, às vezes quero rir de saudade". Essa perspectiva, a do passado, no ato de ser rememorado, perde sua pureza de ter sido e torna-se presente. As experiências ocorridas no passado, ao serem lembradas, não podem ser recuperadas na sua integridade, porque se transformaram no decorrer do tempo. O que resta, portanto, é apenas o presente existencial, convergência do passado modificado pela memória.
Este é o relato da volta de um homem, após longos anos de existência, à memória de sua infância, adolescência... Uma dolorosa viagem da memória a uma ilha esquecida para resgatar a importância da leitura e da escrita na sua formação como ser humano. E, contudo, essas memórias já não são as minhas memórias. O tempo flui nelas, arrasta-as. Portanto, já não são as mesmas experiências de quando as vivi; pois a fugacidade do tempo e o fatal envelhecimento do humano fragmentaram essas lembranças no tempo e no espaço.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

MEMORIAL DO CONVENTO -José Saramago

"Memorial do Convento" é um romance histórico que narra a construção do convento de Mafra, do ponto de vista das camadas populares. O autor dá trato ficcional a certos fatos e personagens históricos. A ação se passa entre 1707 e 1740 em Lisboa e em Mafra. O casal Blimunda e Baltasar são as principais personagens. Blimunda, de ascendência judia, tem poderes mágicos: ao amanhecer, em jejum, consegue de olhos fechados ver através de objetos e enxergar a alma, a "vontade" das pessoas.

Baltasar Mateus, dispensado do exército por ter perdido a mão, usa ora um gancho, ora um espigão, e tem a alcunha de Sete-Sóis. Sua família reside em Mafra. Paralelamente à construção do convento, que simboliza tudo o que é pesado e doloroso para os homens, o romance narra a construção da "passarola", que é uma máquina voadora, idealizada pelo padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, apelidado de Voador. O padre, nascido no Brasil, é um sábio jesuíta, amigo do rei e também de Baltasar e Blimunda.
É de notar que existiram de fato o padre e sua "passarola", que na época não obteve sucesso e por causa da qual ele foi satirizado. De qualquer modo, ficcionalmente, no romance a "passarola"em oposição ao convento, simboliza a leveza, os sonhos, e a alegria. Para voar, o padre necessita dos poderes de Blimunda, para recolher em frascos a etérea expiração dos moribundos. Baltasar, Blimunda e padre Lourenço recebem a visita do músico Scarlatti, também personalidade histórica.
Estando, a certa altura, adiantado o trabalho da máquina, padre Lourenço utiliza-a para fugir da Inquisição. Voa, com Baltasar e Blimunda, na "passarola" até um lugar próximo de Mafra. Depois de pousar, o padre foge, já meio louco. Baltasar e Blimunda ocultam a "passarola"entre as folhagens. Ele emprega-se nas obras do convento, enquanto Blimunda trabalha nas tarefas domésticas na casa dos pais de Baltasar.
Tempos depois, vistoriando a máquina, Baltasar, por acidente, solta-a, sai voando e desaparece pelos ares. Blimunda, então, passa a procurar o amado até encontrá-lo, depois de dez anos, num auto-de-fé, em que estava sendo queimado pela Inquisição.
















A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES AMAZONENSES


Por José Benedito dos Santos

A mulher é a melhor coisa que Deus criou, diz o senso comum masculino. Mas, um mergulho mais profundo na realidade das mulheres amazonenses revela um quadro assustador: no ano de 2006, quarenta e três mil mulheres foram vítimas da violência dos homens.
Não é segredo para ninguém que a violência contra as mulheres amazonenses, infelizmente, cresce escandalosamente nas estatísticas e silenciosamente em milhares de famílias a cada ano no Amazonas. De janeiro a outubro de 2006, mais de 43 mil mulheres foram vítimas dos mais variados tipos de violência. Entretanto, o número real dessa violência é bem maior, já que a maioria das mulheres agredidas não denuncia seus agressores porque, em muitos casos, eles são os próprios maridos, companheiros, namorados ou amantes.
Exatamente como um saco de pancadas, as mulheres amazonenses têm sido vítimas de espancamentos, estupros e assassinatos. Ser mulher no Amazonas, frente a frente com uma sociedade extrmamente conservadora e machista, é ser, a priori, discriminada, espancada e humilhada. Comparamos a violência do homem amazonense com a dos homens das cavernas que arrastavam suas mulheres pelos cabelos.

Nesse sentido, a violência contra as mulheres vem sendo passada de geração para geração, e praticada por homens de todas as classes sociais, inclusive, a mesma é reforçada pela herança cultural, através da qual veicula-se a falsa ideia de que as mulheres gostam de apanhar. Esse comportamento só vem confirmar que o homem, no decorrer de milênios de sua história, tem provado possuir uma natureza profundamente machista e violenta, que persiste independentemente das alterações dos papéis femininos e masculinos na sociedade contemporârea.
Resta saber por quanto tempo mais as mulheres amazonenses continuarão sendo vítimas da violência dos próprios companheiros. Trata-se, portanto, de uma realidade com a qual, não podemos mais conviver. É necessária a existência de um instrumento como a Lei Maria da Penha para inibir a violência masculina. Além de contribuir na luta por uma sociedade mais justa, sem violência, em que as mulheres sejam respeitadas e tratadas em pé de igualdade com os homens.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O CONTROLE DE NATALIDADE NO BRASIL



Por José Benedito dos Santos


Discute-se, com muita frequência, acerca do controle de natalidade no Brasil. Muitos aspectos devem ser analisados na abordagem dessa questão.

Os defensores do controle de natalidade argumentam que ele se faz necessário, pois grande parte da população brasileira vive abaixo da linha de pobreza. Por essa razão, o governo deve possibilitar às famílias carentes os mecanismos necessários para o planejamento de sua prole. Dessa forma, os pais, impedindo o crescimento exagerado de cada família, teriam melhores condições de vida. Eles alegam que o crescimento da população no Brasil, dificulta o desenvolvimento econômico, já que induz o país a desviar investimentos para setores menos produtivos como, por exemplo, saúde, segurança e saneamento básico. Por conta disso, o Brasil deveria desenvolver uma rígida política de natalidade.
Outros, porém, argumentam que o problema do crescimento da população está ligado à irregular distribuição das riquezas produzidas no país, que não permite à mulher o acesso à educação e à saúde. Eles alegam também que o controle de natalidade, por exemplo, recai muito mais sobre as mulheres negras do que nas brancas, pois as negras são maioria nas populações-alvos. Por essas razões, combatem o controle de natalidade, defendendo o direito das mulheres às informações, melhoria da sua condição social, liberdade para tomar decisões próprias, inclusive no campo da reprodução.
Embora o país não tenha uma política de controle de natlidade bem definida, eles denunciam que as ações que permeiam a saúde pública, no Brasil, vêm de encontro ao controle de natalidade, principalmente na Região Norte e Nordeste, onde os programas são aplicados à revelia das mulheres negras e brancas pobres dessas regiões. Diante disso, o Brasil deve promover a igualdade econômica e justiça social.
Por todos esses aspectos,percebemos o quanto é difícil nos posicionarmos categoricamente contra ou a favor do controle de natalidade no Brasil. Enquanto esse assunto é motivo de discussão, só nos resta esperar que o governo contribua para a melhoria da condição social da mulher, através de uma melhor educação, maior capacitação profissional e ampliação das oportunidades de empregos, não importando que essas mulheres sejam nortistas, nordestinas, negras, brancas. Isso, se faz necessário para que haja a igualdade econômica e justiça social para essas cidadãs procedentes das camadas mais sacrificadas da sociedade brasileira.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Os PROBLEMAS QUE AFETAM MANAUS



Por José Benedito dos Santos

A maioria dos administradores que cuida da cidade de Manaus preocupa-se muito mais com a discussão dos mecanismos que os fazem continuar no poder do que com os reais problemas que afetam a população e a nossa cidade.

A examinarmos algumas das causas dessa questão, verificaremos que o espaço urbano de Manaus apresenta inúmeros problemas, os quais dificultam o trânsito de pedestre pelas ruas de nossa cidade. Podemos mencionar, por exemplo, a ocupação das calçadas pelos proprietários de estabelecimentos comerciais, ruas esburacadas, frota de ônibus sucateada e a construção de novos viadutos.
Em consequência disso, vemos, a todo instante que, os donos de lojas, restaurantes, entre outros,ocupam as calçadas, espaço esse que é um dos poucos onde o pedestre pode andar, teoricamente, tranquilo. Acrescente-se a isso, os milhares de buracos existentes nas ruas de Manaus. Os serviços de tapa-buracos nunca dão conta deles. Cobre-se um aqui, surge outro mais adiante. E quando se conserta este, o anterior já se abriu. Em função disso, os pedestres andam olhando para o chão com receio de torcer o pé, e os motoristas têm que lidar diariamente com os solavancos e carros danificados.
Não é segredo para ninguém que o transporte urbano de Manaus sempre esteve, continua aquém da demanda de passageiros. O mesmo continua demorado, em pouca quantidade, com uma frota sucateada. Apesar de todos esses transtornos, nos finais de semana, o número de ônibus circulando na cidade diminui pela metade.
E, além do mais, a construção dos viadutos na Avenida Efigênio Salles e na Bola do Coroado tem causado vários transtornos para os manauaras, especialmente,para os motoristas e as pessoas que trabalham e/ou estudam nas proximidades dessas obras. É congestionamento para tudo que é lado. Parece banal, mas os manauaras já começam enfrentar engarrafamento de um quilômetro no horário do "rush." Sofre o motorista, preso em seu carro com ar-condicinado. Sofre o trabalhador que enfrenta congestionamento na ida e na volta do trabalho. Além de pagar a passagem de ônibus mais cara do país.
Por tudo isso, só nos resta admitir que a existência de problemas no espaço urbano de Manaus somente agrava o mal-estar da população e afeta a imagem da própria cidade. Fazem-se, portanto, necessárias algumas medidas por parte das autoridades, no sentido de devolver as calçadas aos pedestres, consertar os buracos das ruas, renovar a frota de ônibus e agilizar o término da construção dos viadutos, pelo bem da circulação das pessoas e dos veículos. Afinal, devemos estabelecer um diálogo afetivo com nossa cidade. Manaus é nossa casa, seja para quem nasceu aqui, ou para quem a escolheu para viver.

A CRÔNICA

A Crônica é um pequeno conto, de enredo indeterminado. Ao lado disso, é redigida de forma livre e pessoal. Tem como objetivo discorrer sobre determinado assunto ou alguém. Sua versatilidade alcança a reflexão irreverente ou as narrativas do cotidiano. Descompromissada com estilos, ela capta flagrantes do dia a dia, no que ele pode oferecer de prosaico, inusitado. Por sua linguagem diversificada passam o humor anedótico, a preocupação existencial, a visão lírica ou o desabafo social. A subjetividade caracteriza a maior parte das crônicas. Assim, na crônica, prevalece o desprendimento estilístico e um mosaico de ideias. Seu único imperativo é a criatividade. Um assunto não se esgota; as abordagens se multiplicam; as impressões se diferencim ; as cores se renovam e cada texto é único.

O BRASIL NÃO É UM PAÍS SÉRIO


Por José Benedito dos Santos

"O Brasil não é um país sério." A frase dita por Charles de Gaulle, ex - presidente da França em visita ao Brasil, na década de sessenta, nos faz alimentar a crença de que não é exatamente Deus, mas a corrupção que é natural do Brasil. Tem-se a impressão de que, talvez por alguma maldição satânica, desde o século XVI até os dias atuais, a elite política brasileira aprendeu tudo o que a humanidade inventou na arte de tirar vantagem, lesar o patrimônio público e burlar a lei por uma boa soma em dinheiro. No Brasil, na atualidade, a administração pública, em todos os níveis, é cada vez mais permeável ao dinheiro fácil da imoralidade. Na sociedade civil, da mesma forma, a lei do "salve-se quem puder"ganha espaço e os cidadãos procuram resolver seus problemas através do já conhecido "jeitinho brasileiro" sempre que encontram dificuldades na forma legal. Portanto, é óbvio que isso tem que mudar. O Brasil só se tornará um país sério quando colocar a corrupção nos níveis de primeiro mundo.

A SOLIDÃO HUMANA


Por José Benedito dos Santos

A atual e crescente índice da solidão humana é notável e compreensível. Notável porque se dá numa época em que raramente as pessoas são afetuosas entre si - cenas cada vez mais raras neste tempo de descrença e superficialidade, em que as pessoas já não apostam na possibilidade de construção de histórias, de elaboração dos sentimentos, temos medo de fazer novas amizades, de amar... Talvez por isso estejamos cada vez mais solitários e vazios - tudo é efêmero : os diálogos, os relacionamentos, as amizades. Compreensível porque a solidão tornou - se marca registrada do homem moderno, pois as engrenagens mesquinhas do cotidiano e o conformismo colaboram para que as pessoas vivam como autômatos. Dessa forma, recuperar o sentido da fraternidade e o amor é condição imperativa para reconstruirmos a vida. Apesar desses valores não serem a regra, ainda é possível contemplar exemplos de ternura e afetividade - seres humanos que vivem o desafio cotidiano de cativar e cultivar as relações interpessoais.

MIGRAÇÃO NORDESTINA EM MANAUS



Por José Benedito dos Santos


O problema da migração nordestina em Manaus é resultado de três causas essenciais : as secas, a grande propriedade e a falsa propaganda de migração. A escassez de chuva e a falta de irrigação da lavoura no sertão nordestino acarretam uma baixa produção de alimentos, que não supre as necessidades comerciais e muito menos o consumo da população local. Ao lado disso, os trabalhadores do campo, empregados de grandes latifúndios, são demitidos nas épocas de seca e, por não terem uma terra a que se prendam, sonham em viver em outro lugar, de emprego fácil e de fartura. Acrescenta - se a essa situação a falsa propaganda de migração, criada pelos próprios migrantes e por alguns meios de comunicação, segundo a qual a vida nas grandes cidades como Manaus é possível arranjar um bom emprego, que, para muitos, significa a oportunidade de acumular dinheiro para comprar um pedaço de terra, quando voltar ao seu estado de origem. Portanto, são necessárias algumas medidas para fixar o homem nordestino em sua regão. Assim esse cidadão encontraria, com certeza, melhores condições de vida.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

PRECONCEITO RACIAL


Por José Benedito dos Santos


Por que existe, afinal, o preconceito racial no Brasil? Existe, com certeza, para negar aos negros iguais oportunidades em atividades econômicas, sociais e políticas. A mulher negra no Brasil, por exemplo, é triplamente discriminada como mulher, como negra e como pobre, por todos os setores da sociedade, inclusive o cultural, atrávés do qual veicula - se a imagem de um ser humano anulado. A mulher negra é sempre associada à empregada doméstica ou à " boa de cama." Além disso, são gritantes as diferenças, como consequência : a negra ganha menos que a branca, encontra - se no último degrau da escala social e são enormes as desigualdades em termos de Educação e Saúde. O controle de natalidade, por exemplo, recai muito mais nas mulheres negras do que nas brancas, pois as negras são maioria nas populações - alvos. Assim, o mito da igualdade racial cai por terra, ou seja, igual, mas nem tanto.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A PERSONALIDADE HUMANA



Por José Benedito dos Santos

Ela pode ser bondosa, invejosa e indiferente. Calma... não é a mulher fatal, é a personalidade humana. É bondosa quando as pessoas são os secretários perfeitos, assistentes, companheiros. Mas têm uma enorme falha: não conseguem funcionar sozinhas. Entregues a si mesmas, perecem. É invejosa quando as pessoas não são nem um pouco simpáticas. São mesquinhas, vingativas, ciumentas, autocentradas. Falam exclusivamente sobre si mesmas e em geral esperam que as pessoas se enquadrem em seus padrões. Sua falha fatal é que matariam para ser líderes. É indiferente quando as pessoas não são simpáticas e nem desagradáveis. Não servem e não se impõem a ninguém. Têm uma ideia exaltada acerca de si mesmas derivada unicamente de divagações de pensamento desejoso. Se são extraordinárias em alguma coisa, esperam que as coisas aconteçam. Sob essa perspectiva, podemos até mesmo considerar espantoso que, a raça humana se enquadrem em apenas três categorias de personalidades . Assim, estamos aprisionados numa dessas categorias para a vida toda, sem esperança de mudança ou redenção.